O avanço do biodiesel

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Prestes a compor 11% de cada litro do diesel, biocombustível incentiva investimentos de olho também no RenovaBio, que exigirá quase o dobro da produção atual e aportes de R$ 8 bilhões

O biodiesel representa um novo salto no universo de biocombustíveis brasileiros. Biodegradável e derivado de fontes renováveis, ele confirma ser mais um passo para o Brasil reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ajuda a diminuir as emissões de gases poluentes nos transportes.

O biodiesel brasileiro é feito mediante a mistura de óleo vegetal e metanol (derivado de petróleo) ou etanol na presença de um catalisador. No caso do óleo, a matéria-prima mais empregada é a soja.

O principal foco do biodiesel é substituir parte do consumo de óleo diesel. Introduzido em 2005 na matriz energética, o biocombustível passou a ser adicionado em 2% (2B) no diesel entre 2008 e 2012.

Depois passou a ser adicionado ao fóssil na proporção de 7% (B7) e passou para 10% (B10) em março de 2018.

A próxima etapa prevê mistura de 11% (B11) a partir de junho próximo.

Ao divulgar a nova fase de mistura, o Ministério de Minas e Energia (MME) relatou, segundo a Agência Brasil, que a medida “oferece previsibilidade ao setor, incentiva a geração de empregos e investimentos na área de combustíveis.”

Celebração

Os ganhos econômicos do biodiesel são motivos de celebração. Com a adição atual de 10%, o biocombustível faz o Brasil reduzir em média US$ 3,2 bilhões gastos por ano com a importação de diesel, segundo estimativa da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).  

O País importa o derivado de petróleo porque não é autossuficiente no combustível.

Ao invés de injetar US$ 3,2 bilhões por ano em importações que alimentam a indústria internacional, o biodiesel promove a indústria local.

A venda do biocombustível é realizada por meio de leilões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No último deles, realizado na última semana de fevereiro, foram arrematados 977,52 mil metros cúbicos a um preço médio de R$ 2,33 por litro.

O valor total do biodiesel comercializado no leilão foi de R$ 2,3 bilhões, montante financeiro que poderia ir para a indústria internacional caso o biocombustível não fosse integrado em 10% ao diesel.

Menos emissões

Em termos ambientais, o biodiesel faz o Brasil reduzir em média 72% menos gases de efeito estufa com o B10, se comparado ao diesel mineral, segundo a Abiove.  

A entidade revela também que com os 10% de biodiesel, o combustível em circulação reduz em 20% as emissões de material particulado e de monóxido de carbono. Ou seja, se fosse 100% de diesel derivado de petróleo, as emissões seriam 20% maiores.

Setor prepara salto próprio

Mas após promover um salto no mercado de biocombustíveis, o biodiesel se prepara agora para um salto próprio.

Assim como o etanol, o biodiesel integra a Política Nacional de Biocombustíveis, tornada lei federal em dezembro de 2017 e que cria o RenovaBio.

Trata-se de programa que fomenta o uso de biocombustíveis para fazer o Brasil cumprir seu compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa emitidos pelos transportes.

Em fase de implementação, o RenovaBio acende o foco de investimentos junto a indústria de biodiesel. Atualmente as 51 unidades produtoras têm capacidade para fazer 23,7 mil metros cúbicos diários.

No fim de fevereiro último, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) destaca que há duas novas plantas autorizadas para construção e uma planta autorizada para aumentar a capacidade de processamento.

Assim que os empreendimentos entrarem em operação, a produção nacional irá para 25,7 mil metros cúbicos por dia.

Com as novas unidades, o parque terá condições de fazer 771 milhões de metros cúbicos por mês.

Consumo crescente

Mas será preciso produzir bem mais até 2030, quando entra em vigor a primeira fase do RenovaBio.

Com o avanço gradativo de mistura de biodiesel, que deve chegar a 15% a partir de 2023, o consumo anual terá média de 12 milhões de metros cúbicos a partir de 2030, conforme estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia.

A previsão da EPE revela que o setor produtivo terá de ampliar a capacidade de produção em 29 milhões de metros cúbicos mensais, ou 29% acima da atual capacidade.

Essa projeção de aumento produtivo impulsionará toda a cadeia produtiva e de fornecedores de biodiesel.

Investimentos devem chegar a R$ 11 bilhões

Em seu estudo, a EPE prevê a necessidade de investimentos da ordem de R$ 3 bilhões para se chegar à demanda anual de 1,2 bilhão de metros cúbicos a partir de 2030.

Os R$ 3 bilhões, segundo a EPE, serão destinados para investimentos em ampliação e construção de novas unidades.

A empresa do Ministério de Minas e Energia chegou ao montante financeiro levando em conta que as plantas têm tamanho médio de 700 mil metros cúbicos por dia de capacidade nominal.

O investimento médio para esse perfil, relata a EPE, é de R$ 0,40/litro/ano, considerando uma sobrecapacidade de 20%.

Aportes em unidades

A projeção dos investimentos também foca a oferta de soja, principal matéria-prima do biodiesel. Utiliza-se como base a implantação de unidades de processamento de 4 mil toneladas por dia.

O estudo destaca que os investimentos necessários em adequação (Capex) dessas unidades de processamento até 2030 será de R$ 8 bilhões, com aporte médio de R$ 265 por tonelada ao ano.

A EPE destaca que, na soma geral, o setor de biodiesel exigirá investimentos de R$ 11 bilhões.