A natureza ensina

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Por André Tchernobilsky*

A sociedade pós-industrial convive diariamente com um grande desafio: gerir os resíduos que ela mesma produz. No Brasil, a média é de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Estima-se que cada habitante urbano produza um quilo de lixo por dia. E boa parte disso é armazenada de maneira irregular, causando impactos ambientais duradouros.

A geração de energia a partir de resíduos urbanos é o caminho mais promissor para o enfrentamento dessa questão. Hoje, com apoio de tecnologia de ponta, as soluções podem favorecer o desenvolvimento econômico local e a inclusão social. A ideia não é nova, mas ainda não está disseminada porque as tecnologias mais conhecidas não atendem às necessidades dos municípios de pequeno e médio porte: 91% dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros possuem até 50 mil habitantes, e muitos deles não contam com orçamento que lhes permita depositar o lixo em aterros sanitários adequados.

As tecnologias disponíveis podem ser divididas em dois modelos: o bioquímico, que consiste na biometanização, e os termoquímicos, como a incineração, a gaseificação e a pirólise. O modelo bioquímico não resolve o problema do lixo de maneira eficiente, porque reduz somente em 20% sua fração orgânica. A incineração e a gaseificação, para se tornarem viáveis, dependem da disponibilidade de 800 e 300 toneladas de lixo por dia, respectivamente. A realidade brasileira exigiu o aprimoramento de uma tecnologia de pirólise, a mais sustentável, em termos ambientais, gerando como subproduto óleo, gás e biocarvão. Além disso, ela deveria ser compacta e exigir baixo investimento em infraestrutura.

Imitamos a natureza: a sobreposição de camadas de resíduos resulta em um ambiente com alta pressão e ausência de oxigênio, que provoca a decomposição dos materiais orgânicos e os transforma em querogênio, posteriormente transformado em óleo e gás. Mas esse processo demora milhões de anos. Com a tecnologia FDS (Flash Dissociation System) pode-se fazer exatamente isso, só que dentro de um reator.

O setor de energia vem passando por uma revolução. Acreditamos que é possível criar soluções de geração de energia renovável descentralizada, promovendo maior harmonia entre o desenvolvimento econômico e o bem-estar da sociedade. Buscar alternativas eficientes para a gestão do lixo é fundamental para o futuro do planeta – transformar essa ideia em um projeto viável até mesmo para municípios de pequeno porte significa levar qualidade de vida, geração de empregos, melhor aproveitamento do solo e benefícios ambientais para os cidadãos brasileiros.

* André Tchernobilsky é sócio fundador da ZEG Ambiental.