Crescentes exportações de petróleo bruto ajudam o Brasil a manter a balança no azul

As exportações de petróleo bruto estão em ritmo crescente e ajudam a balança comercial do Brasil a ficar positiva.

Principal indicador do comportamento da economia brasileira no exterior, a balança fica no azul quando as vendas externas superam as importações.

E o óleo extraído é peça-chave no desempenho dessa balança. Um exemplo é o resultado dos 20 dias úteis de fevereiro, que integram levantamento da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia.

Nesse período, as exportações de petróleo em bruto somaram 5,2 milhões de toneladas e um saldo de US$ 1,534 bilhão em valor FOB, que exclui os custos de frete. No mesmo período de 2018, as vendas externas do desse produto básico totalizaram 3,6 milhões de toneladas e US$ 1,526 bilhão.

O volume exportado no mês foi 29% maior que em 2018, embora com valor financeiro quase semelhante. Essa pequena margem reflete a queda do preço no mercado internacional.

“Foi registrada queda de 30% no preço do petróleo bruto em fevereiro em relação ao segundo mês de 2018”, destacou Herlon Brandão, diretor de Inteligência e Estatística de Comércio Exterior do Ministério da Economia.

Vários fatores

Os rumos do comportamento do valor do petróleo do mercado internacional dependem de vários fatores. Mas é inegável o peso do produto em manter a balança comercial no azul.

Os dados da Secex comprovam: em fevereiro, as exportações alcançaram US$ 16,293 bilhões e, sozinho, o petróleo bruto representa 9,4% desse bolo.

O peso do óleo também deve ser levado em conta porque as exportações de fevereiro sofreram retração de 15,8% ante mesmo período de 2018.

Essa queda é explicada por várias influências. “Entre os principais produtos, tivemos menos exportação de automóveis em função da menor demanda da Argentina e mais de 70% das vendas externas brasileiras de veículos seguem para aquele mercado”, afirmou o diretor do Ministério no evento de divulgação dos resultados.

Em resumo, sem o avanço do petróleo bruto e o saldo da balança de fevereiro estaria pior.

Em ritmo de crescimento

As exportações de volume de petróleo bruto do Brasil acumulam alta de 29% em fevereiro, ante mesmo período de 2018.

Apenas na terceira semana do segundo mês deste ano, o petróleo em bruto ajudou a categoria de produtos básicos, na qual está incluído, a crescer as exportações em 25,2%.

Fonte: Secretaria de Comércio Exterior (Secex)

O destaque não para por aí. No balanço das exportações de produtos por valor agregado dos dois primeiros meses, a Secretaria de Comércio Exterior aponta o petróleo bruto como segundo no ranking, logo atrás da soja em grãos.

Entre janeiro e fevereiro, as vendas externas do óleo (US$ 1,534 bilhão) ficaram US$ 672 milhões abaixo do desempenho da campeã soja (US$ 2,2 bilhões). Os valores são FOB, ou seja, excluem os custos com frete.

O petróleo bruto desbanca no ranking o minério de ferro, que fica em terceiro lugar com US$ 1,529 bilhão.

Por que o Brasil exporta tanto petróleo

Herlon Brandão (ao Centro), diretor de Inteligência e Estatísticas de Comércio Exterior do Ministério da Economia (ME): influências para a queda nas exportações e vigor do petróleo bruto
Foto: Gabriel Jabur/ME

As vendas externas de petróleo bruto chegaram a 1,2 milhão de barris por dia (bpd) em 2018, segundo a Secex, em alta de 13,3% ante o desempenho de 2017.

Mas por que o Brasil exporta tanto desse óleo?

Em sua maioria, o petróleo brasileiro é do tipo considerado pesado. Ou seja, tem cadeias de carbonos maiores e mais difíceis de serem reduzidas, ou quebradas, que são as ideais para se produzir gasolina e outros derivados nobres.

Leves

Já os chamados petróleos leves têm cadeias de carbonos menores, mais fáceis de serem quebradas. Dois deles são o West Texas Intermediate (WTI), negociado na Bolsa de Nova York, e o Brent Blend, extraído no Atlântico Norte e negociado na Bolsa de Londres.

Para que serve então o petróleo pesado?

Ele é mais indicado para fazer asfalto e combustível de máquinas.

A crescente produção de petróleo brasileiro não pode ser toda processada pelas refinarias, a maioria implantada na década de 90, antes de o Brasil iniciar a exploração de suas vastas reservas de óleo pesado.

Ou seja, as refinarias não estão preparadas para refinar todo o óleo extraído em território brasileiro.

Para dar conta do processamento, são necessárias refinarias complexas, dotadas de estrutura para fazer combustíveis.

Outra saída é produzir mistura de petróleos para obter o refino. Vem daí as importações de petróleo leve, que é adicionado ao óleo brasileiro para se realizar o refino. O Brasil também é importador de produtos de petróleo já prontos.

Produção só tende a crescer

As vendas externas de petróleo bruto só tendem a crescer. Responsável por 40% da produção mundial do óleo, o Brasil registrará alta na oferta com o avanço de extrações.

Apenas as áreas de cessão onerosa a serem leiloadas em outubro próximo, localizadas na Bacia de Santos, deverão gerar mais 6 bilhões de barris diários.

Em recente relato, o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) estima que com investimentos na produção de óleo e gás em águas profundas (o pré-sal), a Petrobras pode chegar sua produção a 4 bilhões de barris por dia já em 2022.

Como a capacidade de refino não deverá acompanhar a produção, o Brasil certamente seguirá como player em exportações de petróleo bruto.

“Exportações são positivas para a balança”

Maurício Jaroski, da MaxiQuim: “as margens do refino são muito enxutas, enquanto as margens da operação de extração de petróleo são bem atrativas”
Foto: Divulgação

Engenheiro químico especialista em inteligência de mercado, Maurício Jaroski é responsável pela área de energia e sustentabilidade na consultoria MaxiQuim.

Qual sua avaliação sobre o resultado das exportações de petróleo bruto?

Essas exportações são positivas para a balança comercial. O Brasil exportou mais petróleo porque produziu mais ao longo de 2018 e essa produção precisava ser “escoada” para algum lugar. A questão é que exportar mais petróleo não resolve o nosso grande problema, que é a importação de derivados de petróleo como, por exemplo, a gasolina.

A tendência é de aumento dessas vendas externas?

Sim, à medida que cresce a produção de petróleo no Brasil, e com a ascensão plena do potencial do pré-sal, também irá crescer a exportação de petróleo, uma vez que não há perspectiva concreta de aumento do nosso parque de refino.

A chegada de grandes empresas ao setor pode alterar esse cenário?

O fato de termos grandes empresas de E&P (Equipamentos e Petróleo) operando no Brasil não implica, e tampouco incentiva, na atuação delas em refino. O refino ainda está nas mãos da Petrobras e só se deve abrir para novos entrantes no momento em que a Petrobras resolver vender esses ativos. O ambiente regulatório do Brasil também precisará estar mais claro para o investidor externo.

O mercado de refino atrai?

As margens do refino são muito enxutas, enquanto as margens da operação de extração de petróleo são bem atrativas. Ou seja, além do refino ser um negócio menos atrativo que E&P, há toda uma questão regulatória onde a Petrobras teria que abrir mão do protagonismo em todos os elos dessa cadeia que hoje ela tem.

“Afeta positivamente, mas tem a questão do câmbio”

Luciano Nakabashi
Luciano Nakabashi, da USP: “No curto e médio prazo as exportações brasileiras de petróleo são positivas”
Foto: Divulgação

Luciano Nakabashi, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração da USP em Ribeirão Preto. Integra o Núcleo de Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico (Neide) da instituição.

Qual sua avaliação sobre o resultado das exportações de petróleo bruto?

É positivo. Mas tem uma questão: o Brasil tem-se fortalecido muito nas commodities, principalmente nas exportações. As vendas externas do Brasil estão cada vez mais focadas nas commodities e o petróleo tem ganhando peso na pauta de exportações. Mas é uma questão de momento.

Como assim?

Afeta positivamente, mas tem efeito sobre o câmbio entre outras variáveis. Se você começa a exportar muito, começam a entra muitas divisas no Brasil e a tendência é o câmbio se apreciar e prejudicar a exportação, por exemplo, de manufaturados e reduzir as vendas externas desses.

Há tendência de aumento das exportações de petróleo bruto?

Sim, mas a questão da quantidade exportada versus preço. Ou seja, o preço internacional do petróleo acaba afetando muito a questão do volume. E tem a questão do longo prazo. Quando olhamos para 20 ou 30 anos, é possível que o petróleo perca participação na matriz energética.

Pode, então, mudar a situação?

O ritmo de extração está muito ligado ao preço internacional do petróleo. O custo de extração em alto mar é mais elevado, por exemplo, que a extração no Oriente Médio. É preciso um preço mínimo atrativo.

As fontes alternativas podem afetar o petróleo?

Essas fontes alternativas têm com custo cada vez mais baixo e tendem a impactar o mercado internacional de petróleo.

A chegada de grandes exploradoras afetará o desempenho das exportações?

No curto e médio prazos as exportações brasileiras de petróleo são positivas. E com a chegada de exploradoras, dependendo da tecnologia e do interesse, pode-se até reduzir as exportações, mas também pode-se diminuir as importações, em caso de mais refinarias operando. Se a gente produzir mais, a tendência é a de melhorar o saldo da balança comercial, mas lembrando que isso terá efeito cambial, com a apreciação do real ante as outras moedas.