Ricardo Dias, sócio fundador da Cubi Energia fala sobre os caminhos para inovar no setor energético
Ricardo Dias, sócio fundador da Cubi Energia

*Por Ricardo Dias

Historicamente grandes inovações tecnológicas cravaram pontos de inflexão muito bem definidos em mercados já consolidados. A pergunta que usualmente vale um unicórnio é: como prever as oportunidades que levam à essas disrupções? Não tem mágica. Estudos, biografias e analistas de mercado convergem: é 99% suor e 1% de sorte. É necessário estar atento às megatendências de mercado para poder se mover rápido quando necessário.

O setor de energia concentra alguns dos desafios mais complexos a serem superados neste início do Século XXI e deve ser palco de grandes mudanças na próxima década. Mapeamos as megatendências que mais influenciarão esse setor e irão demandar novas soluções, potencialmente oferecidas por startups – empresas de tecnologia nascidas para se mover rapidamente e solucionar problemas específicos:

  1. Descarbonização da matriz energética: políticas públicas impulsionarão fortemente a migração para uma matriz mais limpa. A expectativa é de que, até 2040, cerca de 60% do grid elétrico mundial seja gerado por fontes limpas de energia;
  2. Descentralização e empoderamento do consumidor: cada vez mais a geração distribuída será realidade na matriz elétrica juntamente com a crescente demanda do consumidor para ter maior controle de seu consumo. Por isso, a gestão pelo lado da demanda (demand-side-management) e plataformas de gestão integrada também devem ser alvo comum da procura dos consumidores;
  3. Aumento de demanda: liderado pelo crescimento populacional do Oriente (China e Índia principalmente) e seguido pelo envelhecimento da população de Estados Unidos e Europa, o consumo de energia elétrica deve aumentar em 30% entre hoje e 2040. Além dos fatores demográficos, novas tecnologias que têm surgido em mercados energo-intensivos priorizam o uso de energia elétrica em detrimento de outros combustíveis. É o caso dos veículos elétricos, que devem atingir paridade de custo com automóveis tocados à combustíveis fósseis entre 2022 e 2026.

Essas megatendências já estão em curso e podemos notá-las facilmente nos dias de hoje e sentir suas consequências. Por exemplo, o aumento da complexidade de gestão do parque elétrico nacional decorrente da injeção acelerada de fontes renováveis variáveis (solares e eólicas) que possuem uma sazonalidade própria e pouco previsível, bem como o aumento da geração distribuída em que os ativos não estão sob o controle das distribuidoras, gerando novos desafios institucionais e regulatórios.

Outra grande questão reside no fato de que não temos tecnologia ainda para armazenar energia de forma eficiente, em larga escala e com despacho que atenda aos horários de maior necessidade. Se continuarmos sem essa tecnologia, as usinas a gás natural e hidrelétricas com grandes reservatórios que permitem curvas de despacho voláteis serão cada vez mais valorizadas para equilibrar toda a matriz.

Essa complexidade também gera desafios ainda maiores diante dos consumidores da geração Y, ávidos por natureza por transparência e informação. A possibilidade de decidir de onde vem sua energia elétrica, como quer consumi-la e quando quer acessar todas essas informações é essencial para que esses consumidores permaneçam satisfeitos.

Essa necessidade de transparência e a digitalização do sistema, somadas à crescente dependência da sociedade em relação à eletricidade, também ascendem alertas sobre como o setor elétrico pode se proteger de ataques de hackers. Entre os desafios, alternativas para o sistema criar redundâncias para evitar que ataques localizados não se tornem um problema que atente contra a soberania nacional, mas sem que isso pese excessivamente nos custos finais da energia.

O desafio do próximo unicórnio das EnergyTech provavelmente será relacionado a alguns desses itens acima. Quem irá dominá-los?

* Ricardo Dias é sócio fundador da Cubi Energia.