Os desafios do setor sucroenergético, segundo Elizabeth Farina

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Em sua primeira entrevista após deixar a presidência da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) em janeiro último, Elizabeth Farina avalia os desafios do setor sucroenergético brasileiro.

Atual presidente da consultoria Tendências, Elizabeth também pondera sobre estratégias que devem beneficiar o setor. É o caso de expandir presença na Ásia.

“Há espaço para etanol e açúcar, desde que seja uma estratégia duradoura e consistente.”

Confira a seguir a entrevista exclusiva concedida pela executiva ao “Energia que Fala com Você”.

O que é preciso para o setor sucroenergético brasileiro deslanchar em termos mundiais?

Elizabeth Farina – O setor sucroenergético produz principalmente açúcar, etanol, bioeletricidade e outros produtos como plástico verde.

No caso do açúcar, trata-se de uma commodity internacional em cujo mercado o Brasil tem a liderança.

Não há o que deslanchar, mas preservar mercados e regras saudáveis do jogo competitivo internacional. O consumo cresce vegetativamente, na região asiática e há que se proteger de intervenções governamentais que distorcem o mercado.

Posto isso, um dos principais desafios para o setor está no front diplomático/comercial, sendo a OMC um dos principais canais onde o governo brasileiro atua com a colaboração das representações do setor privado.

Esse é um contencioso caro, mas necessário para manter o equilíbrio do processo competitivo.

E no caso do etanol?

Elizabeth Farina – No caso do etanol, a história é um pouco diferente.

No início dos anos 2000, a visão era de que o etanol se tornasse uma commodity internacional. Isso não aconteceu e a maior parte do consumo e da produção ficou restrita ao Brasil e Estados Unidos.

A meu ver, para que esse combustível se transformasse em uma commodity internacional, o consumo deveria crescer em vários países, por meio da mistura com a gasolina ou pela adoção das motorizações flex, e, também, produzido por vários países.

O mercado internacional pujante precisa de muitos produtores e muitos consumidores, criando um círculo virtuoso que leva à confiança no abastecimento regular do combustível.

Vários estudos mostram que não há limitações impostas pela disponibilidade de terra para viabilizar a maior produção e o impacto negativo sobre o preço dos alimentos já foi contestado por vários estudos internacionais.

Mas esse resultado depende de politica publica para incentivar o consumo, que, por sua vez, depende de confiança no abastecimento.

Como os governos (federal, estadual e municipal) podem contribuir para o avanço do setor?

Elizabeth Farina – Todas as energias renováveis enfrentam o problema de externalidades positivas e negativas que distorcem os incentivos à produção e ao consumo dos renováveis.

A forma de corrigir essa falha dos mercados são duas, basicamente com tributação diferenciada que privilegia os renováveis. É um diferencial tributário federal e estadual.

A segunda forma é a criação de um mercado de carbono (emissões) que gere preço de mercado e, dessa forma, transforme o custo social da emissão de carbono (ou outros poluentes) em custos privados e os benefícios sociais em benefícios privados para aqueles que reduzem emissões.

Há outras oportunidades?

Elizabeth Farina – Sim. Há outros tipos de política, como o incentivo a transportes coletivos que usem biocombustíveis. Esses podem representar importante contribuição dos municípios.

Da mesma forma, descontos de IPVA também podem contribuir.

Sem dúvida, esses são incentivos importantes que podem complementar o RenovaBio, que é um programa que cria o mercado de carbono para transportes e, dessa forma, resolve o problema da externalidade.

Muitas das empresas (produtoras e fornecedores) seguem alavancadas. Como mudar essa situação financeira?

Elizabeth Farina – É uma realidade bastante heterogênea, de sorte que é difícil apresentar soluções inequívocas para esse problema que, de fato, é bastante complexo e delicado.

Como uma das criadoras do RenovaBio, a senhora acredita que o programa terá qual potencial para impulsionar o etanol?

Elizabeth Farina – O RenovaBio pode, sim, impulsionar a produção de etanol e dos outros biocombustíveis, ao transformar o benefício exclusivamente social de sua produção e consumo em benefício monetário privado. Melhora a remuneração do produtor, e o faz com incentivo aos investimentos em ganhos de eficiência. Será tanto mais potente quanto mais os participantes desse mercado confiarem nas regras do jogo que foram desenhadas para criar esse mercado.

Previsibilidade e estabilidade são palavras-chave. O bom funcionamento do RenovaBio também estimula a inovação tecnológica na produção agrícola, industrial e no desenvolvimento de motores utilizando os biocombustíveis.

Estratégico nesse processo é o CBio, ativo financeiro que ainda passará pela regulamentação pelo Banco Central e cujo mercado é o coração do RenovaBio.

Portanto, o RenovaBio tem elevado potencial de fomento à produção de etanol e biocombustíveis em geral.

Os veículos elétricos são um inimigo do etanol?

Elizabeth Farina – Não necessariamente. O carro elétrico tem que ser analisado em termos de contribuições para redução de emissões de gases de efeito estufa.

Essa análise não se refere isoladamente às emissões diretas do próprio veículo, mas também e, sobretudo, à matriz energética a qual esse carro elétrico se liga para seu abastecimento.

Se, por exemplo, a matriz energética é concentrada na geração de energia baseada em carvão, a alternativa do carro elétrico não pode ser considerada limpa, tornando-se uma opção inferior para a redução de emissões.

A base de comparação deve sempre levar em conta o ciclo de vida do combustível.

Para cada país haverá uma solução adequada aos seus recursos específicos. No caso do Brasil, sem dúvida os motores flex representam uma solução superior.

Mas há que se lembrar do desenvolvimento de tecnologias como célula de combustível ou o híbrido flex, que sao carros elétricos que utilizam como combustível o etanol.

Esses são elementos fundamentais na definição da necessidade e longevidade de políticas públicas para impulsionar o uso de mobilidade de baixas emissões.

O setor tende a registrar concentração de empresas? Isso é bom ou ruim?

Elizabeth Farina – O setor apresenta graus de pulverização relativamente elevados se comparado com outros setores. Com aproximadamente 350 usinas operadas por 200 grupos econômicos diferentes, esse setor é bastante fragmentado, com elevado nível de concorrência, ainda que seja possível afirmar que exista algum poder de mercado em alguns locais específicos.

Produtos do setor como o açúcar enfrentam obstáculos mundiais. Isso vai continuar?

Elizabeth Farina – O consumo de açúcar cresce globalmente, puxado pela demanda de países em desenvolvimento, principalmente os asiáticos.

Contudo, o açúcar ainda vai continuar enfrentando obstáculos referentes a sua saudabilidade, com destaque para os países desenvolvidos.

Convém alertar que ainda falta aplicação mais séria e imparcial da divulgação de estudos técnicos que comprovem analisem a relação entre consumo de açúcar e doenças crônicas como a obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares etc.

Há relatórios que mostram que no Reino Unido o consumo de açucar é decrescente, enquanto as doenças crescem. Essas doenças são reconhecidamente multifatoriais e fortemente influenciadas pelo estilo de vida.

A comunicação correta e persistente é necessária e deve ser preocupação de todos os países produtores ou apenas consumidores.

A campanha Doce Equilíbrio é um belo exemplo de estratégia de comunicação, que poderia inspirar novas campanhas persistentes, ininterruptas e sempre em evolução.

A propagação de conteúdo sem embasamento científico nas redes sociais é um dos principais desafios do setor no médio e longo prazo, que precisam ser enfrentados com Ciência e disseminação de informação de qualidade.