“Regulamentação do RenovaBio está dentro do cronograma”, afirma presidente da UNICA

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Evandro Gussi, Presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, UNICA.

Em entrevista exclusiva ao “Energia Que Fala Com Você”, Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), afirma que o RenovaBio segue em fase de regulamentação “e está dentro do cronograma.”

A expectativa é de que o programa de Estado, criado por lei federal em 26 de dezembro de 2017, entre em vigor ainda em dezembro próximo.

Segundo o presidente da principal entidade do setor sucroenergético do País, o segundo semestre de 2019 “deve ser movimentado, com grandes produtores de biocombustíveis finalizando seus processos de certificação.”

A certificação da unidade produtora integra o RenovaBio e permitirá à empresa comercializar créditos de biocombustíveis.

Além do RenovaBio, Gussi comenta sobre as relações do setor com o Poder Público e sobre as tendências do setor sucroenergético.

O sr. está no comando da principal entidade do setor sucroenergético, que muito depende do poder público. O fato de o sr. ter experiência como parlamentar ajuda em sua gestão na UNICA? 

Evandro Gussi – Toda a experiência que se adquire na vida profissional é relevante para a superação de desafios. No entanto, o que é mais importante à frente da UNICA é ter informações sólidas para oferecer soluções aplicáveis e escalonáveis.

Por várias oportunidades, o sr. já relatou que, embora seja o autor do PL que deu origem ao RenovaBio, não é o ‘pai’ do Programa. Quais as suas expectativas na fase inicial de implantação do Programa?

Evandro Gussi – Rejeito o título de pai do RenovaBio, pois trata-se de uma obra construída a muitas mãos, tanto do setor público como da iniciativa privada. Tenho a grande satisfação de ter contribuído como seu autor, na Câmara dos Deputados, pois se trata de uma política moderna, que vai levar o Brasil a outro patamar em relação à segurança energética, ampliando a participação de fontes de energia nacionais e renováveis, como é o caso do etanol. 

Os prazos de regulamentação do RenovaBio estão estabelecidos em lei e têm sido respeitados pelos órgãos competentes. O andamento está dentro do cronograma e estamos em uma fase importante de certificação dos produtores de biocombustíveis para poderem participar do programa.  

Vemos que os players estão comprometidos e entusiasmados com o programa. O segundo semestre do ano deve ser movimentado, com grandes produtores de biocombustíveis finalizando seus processos de certificação.

O RenovaBio foi idealizado para fomentar a busca por ganhos de eficiência e redução da pegada de carbono do processo produtivo. Sendo assim, o amadurecimento do programa será registrado nos índices de ganhos de produtividade e melhoria das notas de eficiência energética dos produtores.

O etanol de cana-de-açúcar, que já é o biocombustível com menor emissão de gases de efeito estufa em seu ciclo de vida, ficará ainda verde.

Além disso, vamos ver o crescimento da participação dos biocombustíveis na matriz de transportes brasileira, trazendo benefícios socioeconômicos e para a saúde pública. 

Hoje, quando nós olhamos para grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, nos perguntamos: por que são tão diferentes de cidades como Xangai, Bangkok e Nova Délhi? Localidades onde as pessoas têm problemas seríssimos de qualidade do ar, obrigados, inclusive, a usarem máscaras para se proteger de um ar de péssima qualidade. Rio de Janeiro e São Paulo diferenciam-se dessas metrópoles porque temos 27% do etanol associado à gasolina.

Além disso, nós temos o benefício do carro flex, onde é possível utilizar 100% de etanol. O RenovaBio é um programa que vai ampliar esses benefícios.  

Em termos mundiais, como está o cenário para o setor sucroenergético brasileiro? 

Evandro Gussi – O açúcar tem ciclos de produção e de preço baseados na oferta e demanda mundial. Esse ano foi um exemplo de produção maior do que o consumo. Como exportamos 70% do que produzimos, o mercado mundial afeta diretamente a escolha pela produção de etanol e açúcar pela indústria nacional.

Para ampliar a competitividade do açúcar brasileiro, é crucial mitigar políticas que distorcem o mercado internacional do produto.

Temos discutido com o Governo meios para reduzir barreiras impostas ao açúcar brasileiro e eliminar medidas restritivas que distorcem o mercado. Atualmente, a produção brasileira representa entre 45 e 50% do mercado mundial de açúcar e temos trabalhado para aumentar nossas exportações.

O Governo está questionando as políticas anticoncorrenciais da Tailândia e da Índia e tivemos um desfecho importante nas conversas com a China.

Para além disso, trabalhamos conjuntamente com outros países para fortalecer os programas locais de incentivo ao etanol. Isso garante que tenhamos um mercado internacional maior no futuro. Nosso foco de trabalho para essas iniciativas são China, Índia, Paquistão e Tailândia.

A Fenasucro & Agrocana, principal feira do setor na América Latina, será realizada na segunda metade de agosto, justamente quando a safra de cana no Centro-Sul entra na reta final do segundo trimestre. Embora praticamente alcooleira, a 19/20 ainda pode revigorar os preços do açúcar, o que pode alterar o mix de produção de unidades. Já em relação à safra 20/21, as projeções iniciais indicam que ela tende a ser mais açucareira. Em sua opinião, qual a importância de uma feira como a Fenasucro, na qual são apresentadas inovações em tecnologia para o setor diante um cenário desses? 

Evandro Gussi – O agronegócio brasileiro é um setor que está em constante evolução para aumentar sua eficiência e produtividade. A inovação é pauta constante, pois trata-se de uma resposta às novas necessidades dos mercados. Feiras como a Fenasucro são essenciais para que o setor se atualize e compartilhe experiências, apresentando e tangibilizando as inovações e propiciando a construção de relacionamentos.

Muitas das empresas do setor ainda estão sem disponibilidade financeira para investir. Como, sua opinião, as instituições públicas e privadas podem colaborar com o setor nesse sentido?

Evandro Gussi – É imprescindível que o setor volte a ter previsibilidade e rentabilidade. No mercado interno, isso se dará em grande parte pela implementação da Política Nacional de Biocombustíveis, RenovaBio. No âmbito externo, é importante que o Governo continue empreendendo para reduzir e combater subsídios e salvaguardas, garantindo o livre mercado.

A proposta de venda direta do etanol, em discussão no governo, deve ser uma alternativa para as empresas do setor? Não deve atrapalhar o RenovaBio?

Evandro Gussi – Muitas questões estão ainda em aberto quanto a venda direta. Precisamos analisar como ela será formatada, particularmente em relação às questões de ordem tributária, para que não prejudique o setor.

Entendemos que a alternativa ventilada, a monofasia tributária, não seja a melhor solução para a estruturação do modelo, visto que trará uma maior concentração de tributos, penalizando tanto as usinas quanto os produtores de cana-de-açúcar com um aumento da carga em até 85% somente de PIS/COFINS.

Uma vez superados esses desafios de regulamentação, entendemos que a venda direta deverá ficar restrita a uma pequena parcela do mercado, dados os desafios logísticos e operacionais.

Sendo assim, na nossa visão e de outros agentes públicos e privados, ela não deverá afetar o RenovaBio de forma significativa.

Veículos elétricos: lideranças do setor atestam que a produção de eletricidade só terá viabilidade se tiver fonte renovável. Qual sua opinião a respeito?

Evandro Gussi – Somos entusiastas do processo de eletrificação veicular. Estamos convencidos de o futuro da mobilidade é múltiplo e que o etanol fará parte desse cenário. Chega ao mercado no segundo semestre o primeiro carro híbrido-flex do mundo, o Corolla da Toyota. Um projeto que oferece baixíssima emissão quando abastecido com etanol e analisado o ciclo poço a roda.

Essa é uma ponderação que deve ser feita quando falamos de carros elétricos plug-in: de onde vem a energia.

Se é de uma fonte que emite GEE, como as usinas a carvão, o objetivo de redução não é alcançado. Um exemplo é que o carro elétrico rodando na Europa, hoje, com a matriz elétrica atual, emite mais GEE do que o flex brasileiro com MIC a etanol, quando analisado o ciclo completo. 

Por isso, estamos contribuindo fortemente para mostrar que o caminho para eletrificação precisa ser coerente com o objetivo buscado. Se digo que estou reduzindo emissões com motor elétrico, mas uso eletricidade de uma termelétrica movida a carvão, meu discurso passa a ser falacioso. Infelizmente, isso é o que tem acontecido em algumas regiões do mundo.

Além disso, levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontou que o investimento necessário para a implantação de uma rede de abastecimento de carros elétricos plug-in seria acima de US$250 bilhões, mais de 1 trilhão de reais. Sendo assim, projetos como o híbrido-flex e o veículo com célula de combustível a etanol da Nissan são mais coerentes com nossa realidade.