De olho na safra de cana mais produtiva, Nordeste projeta investimentos de R$ 200 milhões

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Delcy Mac Cruz

A produção de cana-de-açúcar ensaia retomada no Nordeste do País e o setor avalia investimentos que podem chegar a quase R$ 200 milhões.

Apenas os aportes na área agrícola devem alcançar R$ 112 milhões.

Esse montante equivale à renovação e plantio de 16 mil hectares da matéria-prima do etanol nos oito estados canavieiros integrantes do Nordeste.

Os R$ 112 milhões levam em conta que cada cultivo de hectare de cana é orçado em média por R$ 7 mil.

Além da área agrícola, incentivado pela melhoria do cenário sucroenergético o setor projeta aportes também em retrofits nas unidades já em operação.

Projeções de analistas estimam que essas ampliações não sabem por menos de R$ 80 milhões.

Os investimentos, entretanto, não serão feitos a tempo da safra 2019/20, que vai de agosto deste ano a março de 2020.

Mais produtivas

Castigadas por estiagem severa nos últimos anos, as áreas canavieiras da região estão mais produtivas.

Tradicionalmente, a temporada começa no fim de agosto. Menos para a Usina Santo Antônio, localizada em São Luiz do Quitunde, em Alagoas. Ela deu a largada na primeira semana do mês.

Por sua vez, a maioria das 40 unidades produtoras que deverá operar no ciclo deve iniciar a moagem em setembro.

A produção da safra 19/20 tem projeções variadas. Nenhuma delas, no entanto, é negativa.

A avaliação oficial do governo é feita pela Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Em seu mais recente levantamento, divulgado em maio, a Conab estimou alta modesta de 3% para o processamento de cana na safra a ser iniciada nas próximas semanas.

Conforme a Companhia, as usinas do Nordeste moerão 45,8 milhões de toneladas, ante 44,4 milhões da temporada anterior.

A Conab deverá divulgar novo levantamento nas próximas semanas.

Alta de 11%

Já a Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (Novabio) estima alta de 11% na moagem da safra 19/20.

Segundo a entidade, as unidades irão processar 49 milhões de toneladas de cana.

Se confirmado, o montante supera em 5 milhões de toneladas o total de matéria-prima processado no ciclo 2018/19, encerrado em março último.

As estimativas variam, mas o otimismo é compartilhado pelas entidades e empresas.

Depois de anos seguidos de seca aguda, as regiões canavieiras nordestinas voltam a ter mais oferta de cana.

Pedro Robério Nogueira, presidente do Sindaçúcar-AL

“Choveu na época certa, quando a planta estava em fase de crescimento”, diz Pedro Robério Nogueira, presidente do Sindaçúcar-AL, entidade representativa das usinas em Alagoas.

As 19 unidades produtoras alagoanas, segundo Nogueira, se preparam para processar 20 milhões de toneladas de cana.

A projeção supera em 3,5 milhões de toneladas o total moído na temporada anterior. E representa alta de 6,5 milhões de tonelada sobre a moagem da safra 17/18.

“Estamos retomando a produção”, afirma, com orgulho, o presidente do Sindaçúcar-AL.

Avanço nos próximos anos

Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE e da Novabio

O clima positivo é partilhado em Pernambuco. “Deveremos moer até 13 milhões de toneladas, contra 11,4 milhões da safra anterior”, estima Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE e da Novabio.

O otimismo vai além. Segundo ele, as unidades de Pernambuco deverão ampliar a moagem para 15 milhões de toneladas nas próximas duas ou três safras.

Esse aumento, emenda, se dá por conta da maior demanda regional pelo etanol e mesmo pelo açúcar.

A demanda, hoje, é disputada em parte com o etanol de milho importado dos Estados Unidos, que entra pelo Porto de Itaqui, no Maranhão, e se espalha pelas redes regionais de distribuição.

Mas a entrada desse concorrente está com os dias contados. É que no fim desse agosto vence a vigência de cota que permite a importação sem tarifa de 600 milhões de litros por ano.

Sem o concorrente americano, as usinas do Nordeste garantem o suprimento interno do biocombustível.

O incentivo do RenovaBio

Essa demanda também tende a crescer por conta da Política Nacional de Biocombustíveis, o RenovaBio.

O Programa entra em vigor a partir do fim de dezembro próximo e incentiva o consumo de biocombustíveis para conter as emissões de gases poluentes.

Já as unidades produtoras de etanol com menor consumo de combustíveis fósseis serão contempladas para vender mais créditos de descarbonização.

No caso do Nordeste, em que a mecanização no corte e transporte de cana é incipiente, o emprego de óleo diesel é bem menor na comparação com as unidades da região Centro-Sul.

“O RenovaBio irá comprovar que a não mecanização desenfreada no Nordeste é o maior fator sócio-econômico do setor com descarbonização”, atesta Renato Cunha, presidente da Novabio.

“As unidades do Nordeste operam sem exageros de óleo diesel nas tarefas e promovem geração de muitos empregos interiorizados”, finaliza.

Fonte: Conab