Feito de bagaço, palha e de vinhaça, biometano chega para substituir o diesel

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Delcy Mac Cruz

Bagaço, palha e vinhaça. Há muito estes três subprodutos da cana-de-açúcar são empregados pelas usinas. O primeiro é matéria-prima direta para a fabricação – ou cogeração, no jargão do setor – de energia elétrica.

A palha também pode ampliar a cogeração ou servir para a produção de etanol celulósico, ou 2G.

Já a vinhaça torna-se aditivo do processo chamado de fertirrigação, no qual aspersores jorram líquido nutritivo nos canaviais em fase de crescimento para a próxima safra. 

Mas embora cada um dos três subprodutos tenha destinação, eles sobram nas usinas. E motivo é um só: falta demanda para consumir 100% da oferta.

É preciso lembrar que cada tonelada de cana processada gera 280 quilos de bagaço e de palha.

Em termos gerais, se a safra em andamento na região Centro-Sul do País moer 590 milhões de toneladas, como previsto por instituições e consultorias, as usinas produzirão 165,2 milhões desses subprodutos.

“Energia Que Fala Com Você” apurou junto a especialistas que 30% desse montante, ou quase 50 milhões de toneladas, espera nas usinas para ser consumida.

Sem incentivos

No caso do bagaço, as termelétricas de biomassa da cana não têm incentivos para ampliar produção e, assim, toneladas e toneladas ficam armazenadas para serem processadas ou vendidas para clientes industriais.

A palha enfrenta menos condições de mercado: o seu recolhimento espera por solução de transporte que não carregue tanto percentual de compostos químicos e orgânicos para a indústria. A entrada desse material gera problemas nos equipamentos.

Fora isso, a produção de etanol celulósico ainda dá os primeiros passos no Brasil, o que dispensa o uso de grandes volumes de palha. E assim como ocorre com o bagaço, não é preciso dela para cogerar a oferta atual de eletricidade.

A vinhaça, por sua vez, revigora a cana como fertirrigante. Mas há vinhaça de sobra, uma vez que cada litro produzido de etanol gera em média 13 litros do subproduto.

Em resumo, se a safra em andamento produzir 31 bilhões de litros de biocombustível, serão ofertadas 403 bilhões de litros de vinhaça.

Uma técnica é reduzir sua presença na indústria. Mas isso exige investimentos que a maioria dos gestores ainda reluta, uma vez que o setor sucroenergético ainda está em fase de recuperação após uma década de crise.

Biocombustível supre a oferta

O bagaço de cana, que hoje sobra nas usinas, será fonte para produção de biogás e de biometano . Foto: Divulgação

Mas um outro biocombustível, ainda entrante no Brasil, pode dar conta de suprir toda a sobra de bagaço, palha e de vinhaça.

Trata-se do biometano, biocombustível gasoso gerado a partir do processamento do biogás, produzido a partir da digestão de material orgânico como os três subprodutos da cana.

O biometano é sério candidato a substituir parte do consumo de óleo diesel e de gás natural, ambos em parte importados para atender ao consumo do mercado interno.

Esse biocombustível já está no mercado, mesmo que em fase incipiente.

Modelo da Audi: uso de biometano no lugar de gás GNV em testes em 2018. Foto: Divulgação

A Audi, por exemplo, realizou testes de abastecimento de biometano em seu modelo A5 Sportback g-tron. No caso, o veículo roda com gasolina ou gás natural (GNV). E o biometano vem substituir justamente o gás.

“O uso do biometano como substituto do diesel combustível é o passo que falta para completar a economia circular no setor sucroenergético do nosso país”, destaca Alessandro Gardemann, diretor da GEO Energética.

A GEO já produz biometano em escala comercial na unidade da Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana Ltda. (Coopcana), no Paraná.

Com a Raízen

Gardemann (primeiro à direita) com executivos da Raízen: planta de biogás e de biometano com vinhaça e torta de filtro. Crédito: Divulgação

E, desde 2018, é sócia minoritária da joint venture Raízen em unidade produtora de biogás na Usina Bonfim, em Guariba, no interior paulista.

Nesse caso, trata-se da primeira planta do mundo a utilizar a tecnologia de conversão de outro subproduto, a torta de filtro, em biogás. A vinhaça também entra como matéria-prima.

Com previsão de ser inaugurada em 2020, essa planta primeiramente empregará o biogás para produzir energia elétrica. Em um segundo momento, ele será convertido em biometano.

O objetivo inicial é substituir o diesel hoje empregado nos caminhões e tratores da usina.

Já o objetivo final é fazer mais um biocombustível renovável, de baixa geração de gases poluentes, sair dos canaviais e ganhar o mercado nacional e internacional.