Sem as turbulências do Oriente Médio, Brasil pode ampliar a atração de investidores externos

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Delcy Mac Cruz

A plataforma P-74 deixa o estaleiro EBR rumo ao campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos. Crédito: Alaor Filho/Mirá Imagens/Divulgação

O 14 de setembro de 2019 marca virada histórica no mercado mundial de petróleo. O ataque a instalações petrolíferas na Arábia Saudita, ocorrido nesse dia, fez aumentar a percepção de risco no mercado internacional.

Diante a situação, certamente há reflexos nos preços mesmo com a retomada plena do suprimento saudita, prevista para outubro próximo.

Mas em que pesem possíveis altas de preços e suas repercussões inflacionárias, o ataque na Arábia gera perspectivas positivas para ativos de petróleo em países sem turbulência.

É o caso, por exemplo, do Brasil. Em acelerada campanha de abertura do mercado de produção de petróleo e gás (P&G), o País já atrai o interesse de players mundiais.

Apenas na 16ª rodada de licitações, marcada para 10 de outubro e que irá oferecer 36 blocos em 29,3 mil quilômetros de área, 17 companhias confirmaram inscrições junto a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Entre elas estão gigantes detentoras de contratos de exploração de petróleo e gás natural, caso da BP, Shell e Chevron, e quem não possui esse tipo de contrato no País, caso da Petronas.

Valorização do pré-sal

O apetite por ativos petrolíferos no Brasil só tende a crescer após o 14 de setembro.

O ataque feito por drones na Arábia “aumenta a percepção de risco no mercado de petróleo, o que valoriza o pré-sal e os demais ativos brasileiros”, destaca Décio Oddone, diretor-geral da ANP, em comunicado divulgado pela Agência Brasil.

Um teste para comprovar a avaliação do diretor da ANP está marcado para 06 de novembro próximo. Nessa data, a Agência deverá realizar a licitação dos volumes excedentes da Cessão Onerosa.

Localizados em quatro áreas, são volumes que excedem ao volume máximo contratado pelo Governo junto a Petrobras.

O prazo para as empresas manifestarem o interesse em participar da rodada vence neste mês de setembro. E se o número de interessados for elevado, um dos motivos pode ser a atratividade do Brasil. O outro poderá ser a busca de ‘portos seguros’ pelos investidores.

Ponto positivo

Marcelo Gauto. Foto: Arquivo pessoal

“O fato de não termos histórico de conflitos geopolíticos é mais um ponto positivo, de atração de interessados ao nosso pré-sal”, afirma Marcelo Gauto, químico, técnico em operações na Petrobras e especialista em Petróleo, Gás e Energia.

“Os últimos leilões já demonstraram isso”, emenda ele.

“O pré-sal é uma área que apesar de exigente em termos de tecnologia e custos, quando comparada à exploração onshore árabe, tem benefícios de estar em uma região em que não há tensão que possa levar a uma guerra ou atentado a qualquer momento.”

“Quem está buscando por reservas de petróleo mundo afora, está de olho no Brasil, não há dúvidas disso”, atesta.

Especialista alerta para alta de custos

Nakabashi, da FEA-RP, USP. Foto: Divulgação

“Qualquer instabilidade no mundo não é positiva”, afirma Luciano Nakabashi, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração da USP em Ribeirão Preto.

“[Com instabilidade] você tem previsão de crescimento menor de vários países importantes, e o petróleo afeta a todos esses países.”

“Quando se tem o petróleo mais caro, há o choque de oferta”, emenda. “Os custos se elevam, uma vez que o petróleo está na base da matriz energética de transportes, e o aumento de custo afeta as economias.”

“Diante a redução de crescimento econômico em 2020, ante anos anteriores, se esses países forem afetados negativamente isso afetará o Brasil, via redução das exportações, o que também fica ruim para nós”, acrescenta ele, que integra o Núcleo de Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico (Neide) da instituição.

Nakabashi lembra que o Brasil também é importador de petróleo. “A gente exporta um tipo, importa outro, usado como combustível – seja gasolina ou diesel – e [os preços em alta] terão efeito sobre os custos internamente.”

“O efeito direto pode ser menor no Brasil, mas ele virá”, conta. “E haverá efeito no custo dos transportes e também no custo da energia elétrica [movida a diesel ou óleo combustível].”

Mas o principal efeito é o indireto, observa. “O aumento de custos com esse choque de petróleo pode ter efeito em países importantes, que são parceiros comerciais do Brasil”, finaliza.

Mais receita no curto prazo

Thadeu Silva, da INTL FCstone. Foto: Divulgação

A questão deve ser analisada com bastante cuidado. Os ataques podem colocar um prêmio de risco no petróleo no curto e médio prazo, o que pode incentivar os participantes do próximo leilão do pré-sal a aumentarem suas apostas.

Isso tende a trazer maior receita para o Brasil no curto prazo e melhorar o caixa da Petrobras, permitindo a empresa reduzir o endividamento e renovar os investimentos.

Entretanto, temos que considerar que o ciclo de produção do pré-sal é de longo prazo, com vida útil dos poços acima de 10 anos, e a alta e instabilidade dos preços do petróleo pode acelerar a substituição do hidrocarboneto por outras fontes de energia – processo já em curso. Nesse caso, os royalties futuros podem ficar ameaçados com redução da demanda e patamar de preços.

O caráter cíclico dos preços do petróleo é capaz de produzir festas no curto prazo e ressaca no longo prazo. Nesse sentido, a indústria utiliza o termo “lição a longo prazo” para se referir ao nível baixo de preços nos anos 90 que sucederam os choques de preços dos anos 80.