Delcy Mac Cruz

2019 foi o ano do etanol para as usinas de cana-de-açúcar da região Centro-Sul, responsável por 90% da produção do País.

Como previsto inicialmente, as unidades focaram na produção do biocombustível, mesmo com menor remuneração diante a do açúcar, por conta da grande oferta mundial do adoçante.

Sendo assim, as previsões mais recentes dão conta de que no Centro-Sul as unidades chegarão a uma produção de 29 bilhões de litros de etanol.

É um volume expressivo, mas insuficiente para dar conta de atender ao superaquecido mercado consumidor.

Para se ter ideia, entre janeiro e setembro, o mercado brasileiro absorveu 24,8 bilhões de litros dos dois tipos de etanol: o hidratado (veículos flex) e o anidro (adicionado em 27% à gasolina).

Em média, as vendas mensais foram de 2,8 bilhões, conforme a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, a UNICA, entidade representativa do setor.

Levando em conta os dados, a projeção para entre outubro e dezembro indica serem necessários mais 8,4 bilhões de litros.

A situação preocupa. Isso porque serão necessários 33,2 bilhões de litros para dar conta de atender ao mercado consumidor brasileiro em todo 2019.

Como a projeção é de 29 bilhões de litros em toda a safra, existe aí um gap de pouco mais de 3 bilhões de litros.

A complicação fica aflitiva porque a produção das usinas oficialmente deve atender até 31 de março próximo, quando termina a safra vigente.

Estratégias contra a escassez

Mas há alternativas. A mais viável é a ‘transferência’ de etanol das usinas da região Norte e Nordeste, que estão em plena safra.

A produção dessas unidades, no entanto, deve ficar em 2,2 bilhões de litros, conforme expectativa da INTL FCStone.

O volume projetado, portanto, fica abaixo dos necessários 3 bilhões de litros.

Existe, como fôlego, o etanol feito de milho. As apostas são de que as usinas desse biocombustível cheguem a uma produção de 1,4 bilhão de litros até o fim de dezembro.

Os 537 milhões de litros já feitos até setembro, no entanto, foram incorporados à oferta comercializada juntamente com o etanol de cana.

Sobram, assim, 900 milhões de litros.

Em resumo, se faltam 3 bilhões de litros para atender ao mercado, e há 900 milhões de litros de etanol de milho e boa parte dos 2,2 bilhões de litros que as usinas do Nordeste farão, até que o problema estaria resolvido.

Mas não é assim. Tradicionalmente o consumo de combustíveis cresce no fim de ano e nos meses de verão.

Importar é a saída

A alternativa ‘salvadora’ é importar etanol dos EUA. Por conta de decreto do governo federal, renovado em 31 de agosto último, o Brasil pode importar até 750 milhões de litros isentos de tarifas até 31 de agosto de 2020.

Segundo a Bioagência, agência de fomento de energia de biomassa, até a primeira quinzena de outubro 500 milhões de litros já tinham sido comprados lá fora.

Restam, assim, 250 milhões. Há os 900 milhões de litros em produção pelas usinas de etanol de milho e a compra da maioria dos 2,2 bilhões de litros que as usinas do Nordeste deverão fazer.

Somando tudo, daria 3,350 bilhões, mas será preciso tirar daí o consumo dos estados do Nordeste – algo em torno de 1,2 bilhão de litros no ano todo.

“A aposta é a de que os preços do etanol para as usinas subam e, assim, compense importar mesmo pagando tarifas”, disse ao Energia Que Fala Com Você a diretora de um grupo com duas usinas de cana.

A tarifa de importação é de 20% se a cota ultrapassar os permitidos 750 milhões de litros. E, para compensar a operação de importação, o litro do etanol precisaria ter preço médio para o importador de R$ 2,30.

Na última avaliação do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Cepea/Esalq, o litro para as usinas do Estado de São Paulo valia líquidos R$ 1,80.

A tendência é de que suba conforme a oferta fique limitada diante a superaquecida demanda.

Assim como ocorre muito no setor sucroenergético, movido a intempéries climáticas e de mercado, não dá para garantir que o preço do etanol suba a ponto de viabilizar as importações para garantir o suprimento.

Diante o quadro, gestores de unidades produtoras já avaliam a possibilidade de antecipar a produção o quanto antes em 2020. É mais uma estratégia para ampliar a oferta de etanol.