Leilões fazem investidores mundiais focarem o Brasil

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Delcy Mac Cruz

Os leilões de excedentes da cessão onerosa e a 6ª rodada do pré-sal confirmam o Brasil como principal foco de atração de investimentos do setor de óleo e gás no mundo.

As previsões têm números de fazer inveja.

No caso do leilão de excedentes, apenas em bônus de assinatura (valor que as empresas pagam pelo direito de exploração), a previsão é de se chegar a R$ 106,5 bilhões caso sejam arrematadas as quatro áreas do pré-sal oferecidas na Bacia de Santos.

Com o crescimento da atividade, a indústria de P&G deve gerar 400 mil empregos só no Estado do Rio até 2022, prevê o Instituo Brasileiro do Petróleo (IBP).

As previsões otimistas do setor P&G vão além.

Os novos leilões devem ajudar a gerar demanda para instalação de 50 a 60 novas plataformas no offshore brasileiro, segundo Décio Oddone, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Apenas no caso dos excedentes da cessão onerosa, a previsão de investimentos é de R$ 1,1 trilhão em 35 anos com a exploração das quatro áreas (Atapu, Sépia, Búzios e Itapu).

Há também outro R$ 1 trilhão em arrecadação de royalties e impostos nas três esferas de governo (União, estados e municípios).

Quinta maior potência energética mundial

Castello Branco, presidente da Petrobras na OTC Brasil 2019: “petróleo deve se manter como principal fonte de energia”. Crédito: André Motta/Agência Petrobras

O megaleilão atesta o avanço do mercado de O&G no Brasil e será estratégico para ajudar o País a se tornar, no médio prazo, na quinta maior potência energética mundial.

A demanda global por petróleo deve crescer 1% ano nas próximas duas décadas, destaca Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, em relato da Agência Petrobras.

Segundo ele, setores como indústria petroquímica e a de aviação continuarão a demandar petróleo.

Diante isso, acrescentou, o petróleo deve se manter como principal fonte de energia.

Até 2040, a expectativa é de que a demanda por energia deva crescer 34% e o petróleo encabeça o ranking.

No caso do gás natural, ele deverá aumentar sua participação na matriz energética mundial. Assim como será posicionado como uma commodity global.

“Temos que nos preparar para isso”, afirma Castello Branco no relato.

“Iniciativa irá gerar investimentos e empregos”

Edgard Monforte Merlo, economista e professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP

“Essa é uma importante iniciativa que pode trazer investimentos e empregos para a nossa economia.

As regras estabelecidas podem gerar renda para as diversas esferas da nossa sociedade.

Temos que aproveitar esse momento e viabilizar essa exploração pois o mundo está lentamente mudando suas fontes de energia.

Uma preocupação nesse novo modelo de atuação do Estado é criar regras e regulação estáveis para que a viabilidade econômica do projeto seja preservada.”

Maior oferta de petróleo auxilia nas divisas

Luciano Nakabashi, economista e professor do Departamento de Economia da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto

É positivo. Qualquer investimento que se tenha no país é muito importante. O valor do bônus é muito expressivo e, dependendo como for partilhado, também pode ser positivo para o país.

A questão da [maior oferta] de petróleo auxilia nas exportações. É claro que é mais uma commodity, e o Brasil está muito forte na questão das exportações de commodities.

De um lado, seria importante dar uma diversificada na pauta de exportações brasileira para ficar menos dependente da variação de preço de commodities. De outro, acaba sendo importante [a oferta de petróleo para exportação] porque trará divisas ao país.

Esse investimento aumenta nosso potencial de produção de petróleo.

É importante para a economia. Terá efeito positivo.

Mas é preciso perguntar: qual é o horizonte da utilização do petróleo como fonte viável de energia?

Cada vez mais têm surgido fontes alternativas mais baratas.

Este é o ponto. Quem vai fazer esse investimento terá que pensar, porque irá tirar petróleo e terá que vender com alguma velocidade para poder aproveitar o aporte inicial. É um investimento pesado, inclui construir plataforma e estrutura para retirar petróleo e gás.

Imagino que essa produção não será significativa para afetar o preço mundial de petróleo.

Mas é preciso pensar qual será a estratégia diante essa outra variável que é a redução do custo de fontes alternativas, principalmente a solar. Em algum momento ela ficará bem mais barata que o petróleo.

Isso pensando-se em um horizonte de 20 anos.

No curto e médio prazo, o leilão é importante. Irá estimular um pouco a economia do país, mesmo sendo em regiões específicas, irá gerar emprego e trará divisas.

O governo precisa arrecadar mais dinheiro para fechar o buraco. E o ponto fundamental é como serão utilizados esses recursos financeiros. Se, por exemplo, serão empregados para reduzir o déficit público, que pode reduzir a dívida pública em relação ao PIB. Isso daria estabilidade ao país.

O controle da expansão da dívida pública tem efeito positivo.

Esses recursos também poderiam ser empregados diretamente como investimento.

Sendo assim, a depender do emprego dos recursos ele terá efeito maior ou menor sobre a economia.

Recursos são extraordinários, mas finitos

Marcelo Gauto, químico, técnico em operações na Petrobras e especialista em Petróleo, Gás e Energia

É importante que nossos governantes tenham consciência de que estes recursos extraordinários são finitos. Por isso, que façam bom uso dele, aplicando-os em projetos estruturais sustentáveis.

Nossa produção de óleo e gás vem crescendo e vai aumentar substancialmente na próxima década, gerando divisas preciosas aos cofres públicos, mas em um dado momento futuro isso vai acabar.

Os campos ficarão maduros e entrarão em declínio, como já ocorre hoje no pós-sal da Bacia de Campos e, inclusive, nos primeiros campos do pré-sal.

Estamos diante de uma janela de oportunidade, possivelmente única, para alavancar os investimentos no país.

Que sejamos capazes de usar estes recursos com inteligência.

“Somos entusiastas dos possíveis resultados em bônus e investimentos”

Paulo Octavio

Em entrevista ao Energia Que Fala Com Você, Paulo Octavio Pereira de Almeida, Executivo VP da Reed Exhibitions, avalia impactos dos leilões para o setor de óleo e gás no Brasil.

Como a Reed avalia o impacto do megaleilão para a cadeia produtiva de óleo e gás como um todo?

Paulo Octavio – A Reed Exhibitions organiza mais de 500 eventos com enfoque em geração de negócios por ano em 38 países. Entre os diversos setores que atuamos o de Energia é um dos mais prioritários e relevantes.

A energia é o “combustível” do capitalismo e, portanto, extremamente relevante dentro dos setores de nossa atuação.

Mesmo as previsões mais pessimistas indicam que em 2040 o petróleo ainda será consumido em mais de 40 milhões de barris por dia. Hoje, esse consumo é de 100 milhões de barris por dia.

Temos vários eventos com enfoque na produção e produção de petróleo (upstream). Entre eles podemos mencionar o Europe Offshore, em Aberdeen, e o Brasil Offshore, em Macaé (RJ).

O leilão dos excedentes da cessão onerosa tem como foco potencializar a produção petróleo em campos já comprovadamente produtivos. Terá, assim, impacto direto na possibilidade de ampliação de negócios de prospecção nas bacias de Campos e de Santos.

Somos entusiastas diante os possíveis resultados positivos do leilão não somente pelo valor a ser pago como bônus, mas pelos investimentos a serem feitos nos próximos 10 a 15 anos no setor.

A Reed acredita que o mercado brasileiro de óleo e gás esteja preparado para lidar com a demanda opex que este novo cenário trará para o setor?

Paulo Octavio – Hoje em dia a grande maioria dos players do setor de O&G já está baseada ou com negócios no setor aqui no Brasil. Portanto, sim, com a grande demanda de opex não existe risco.

Óbvio que, com o cancelamento do mínimo de conteúdo nacional aprovado pelo Congresso Nacional há alguns anos, o mercado ficou em outro patamar de concorrência. Isso deixou para os operadores dos novos poços a opção, por exemplo, de comprar uma FPSO em Cingapura ao invés de obrigatoriamente ter que adquirir esse equipamento junto a um fornecedor local.

Como um evento como o Brasil Offshore pode ajudar o mercado a absorver todos estes investimentos e o que a Reed já faz nesse sentido?  

Paulo Octavio – O evento Brasil Offshore é realizado onde a produção de petróleo acontece. Ou seja, fica o mais próximo possível das bacias produtoras – no caso do Brasil, na cidade de Macaé, e, no caso da bacia do Mar do Norte, em Aberdeen.

O nosso evento em Macaé já teve a participação de mais de 300 expositores internacionais em 2013, antes do início da crise. E acreditamos que, agora, este mesmo interesse no Brasil poderá novamente existir.

Já temos os nossos planos para a realização da próxima edição da Brasil Offshore – em junho de 2021 – discutidos e aprovados.

Estamos na fase de comercialização dos espaços e em oportunidades comerciais junto com os nossos sócios Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) e Sociedade de Engenheiros de Petróleo (SPE).