Os investimentos estão de volta ao setor de bioenergia

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Delcy Mac Cruz

O setor de bioenergia registra investimentos crescentes. Os exemplos estão na área agrícola, na indústria e na comercialização de etanol de cana-de-açúcar e de milho, do açúcar e da eletricidade feita de biomassa.

Energia Que Fala Com Você compilou dados, a partir de negócios efetivados ao longo deste 2019, e a projeção é de aportes da ordem de R$ 6 bilhões. Esse montante está em fase de injeção nesse ano e nos próximos 12 meses.

Trata-se de uma guinada há muito não registrada pelo setor. Com exceção do ano vigente, no qual o preço do etanol segue remunerador, a cadeia sucroenergética foi vitimizada principalmente por trapalhadas na esfera pública, como o congelamento do preço da gasolina em anos do governo de Dilma Rousseff (2011-2016).  

Foi um período negro, no qual o setor viu despencar a remuneração enquanto as despesas subiam às alturas. Como resultado direto e indireto, fecharam as portas 60 unidades da região Centro-Sul, detentora de 90% da produção nacional de etanol e de açúcar.  

Em termos de mercado, os anos recentes também foram marcados pelo derretimento do valor do açúcar nas cotações internacionais, graças a estoques elevados e a uma produção subsidiada de players produtivos como a Índia.

Ventos favoráveis

Mas, como se diz no meio, o setor é resiliente. Além disso, os ventos começaram a soprar a favor.

2018 e 2019 comprovaram, por exemplo, a força do etanol hidratado – usado nos veículos flex – e do anidro – adicionado à gasolina – no mercado consumidor.

Até o fim de outubro, as usinas tinham vendido 12,3% mais para as distribuidoras de postos, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA).

Em números, o montante comercializado pelas unidades produtoras acumulou 20,2 bilhões de litros, contra 18,041 bilhões nos dez primeiros meses de 2018.

O avanço do etanol faz o Brasil acertar duas vezes. Na primeira, reduz a necessidade de importação de gasolina em favor das divisas. Em média, o país compra lá fora 30% do que consome, uma vez que o petróleo extraído em território brasileiro não é 100% refinado – e transformado, entre outros, em gasolina.

O outro acerto é que o consumo de etanol favorece a qualidade do ar, já que o biocombustível de cana emite 70% menos gás carbônico que a gasolina.

Ganho ambiental

No quesito ambiental, o etanol também fortalece o Brasil no compromisso oficializado em dezembro de 2015, no Acordo de Paris, pelo qual reduzirá as emissões de gases poluentes nos transportes.

Para tanto, foi criado o programa de estado Política Nacional de Biocombustíveis, conhecida por RenovaBio.

Esse programa prioriza o consumo de renováveis como etanol, biodiesel e bioquerosene de aviação, entre outros, como estratégia para cumprir os compromissos ambientais e melhorar a qualidade do ar.

O RenovaBio entra em vigor na virada de 2019 para 2020 e impulsionará a indústria de biocombustíveis, com metas já definidas de descarbonização para até 2030.

De olho na China

Ainda em termos de projeções, há boas novas para o setor de biocombustíveis como é o caso da China.

O gigante asiático prepara-se para ampliar de 5% para 10% a adição de etanol à gasolina. Valerá para veículos novos, que deverão somar 260 milhões de unidades até 2030.

Sendo assim, o país precisará de 15 bilhões de litros de etanol por ano para dar conta de toda a frota.

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O Brasil, que deve chegar a 50 bilhões de litros produzidos ao ano a partir de 2030, tem as credenciais carimbadas para ajudar a suprir as demandas chinesas.

É preciso, aí, lembrar que os EUA, hoje maior país produtor de etanol, com atuais 52 bilhões de litros ao ano, pode reatar relações hoje estremecidas com a China e atender esse apetitoso mercado consumidor em gestação.

Mas o próprio mercado dos Estados Unidos tende a dar saltos de consumo se a mistura de etanol for estendida para 15% na maioria dos 50 estados – hoje, essa adição ocorre em menos de cinco deles.

A China também produz etanol, mas em produtividade 80% inferior às médias produtivas do setor sucroenergético brasileiro. Sendo assim, será mais viável pagar o frete e comprar do Brasil.

A abertura desse mercado chinês esteve na pauta da Cúpula dos Brics, realizada entre os dias 13 e 14 deste novembro no Brasil com representantes dos países integrantes do bloco: China, Rússia, Índia, África do Sul e Brasil.

Cenário promissor

O cenário dos próximos anos é promissor. Mas os investimentos, como indicados no primeiro parágrafo desse conteúdo, chegaram para valer.

Em boa parte, o setor precisava urgentemente retomar os aportes. A oferta de cana-de-açúcar, por exemplo, estacionou em pouco menos de 600 milhões de toneladas no Centro-Sul.

Capacitadas para operar 660 milhões de toneladas, as unidades produtoras da região trabalham com taxa de ociosidade de médios 20%. E isso é péssimo, até porque gera menos produção a custos plenos.

Para tanto, a área agrícola começou a receber renovações de canaviais. Nos áureos tempos, essa taxa anual de plantio era de 16,5%. Significa que a cada cinco a seis anos a cana envelhecida dava lugar para uma nova.

Estudo do Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC) destaca que o setor chegou a médios 16% de renovação de canaviais em 2019. “É um ótimo resultado”, diz Marcos Landell, diretor do instituto, com sede em Ribeirão Preto (SP).

Conforme dados da UNICA, 837 mil hectares do estado de São Paulo estão em fase de renovação de canavial.

Só essa operação exige R$ 6 bilhões, uma vez que cada hectare renovado com cana custa em média R$ 7 mil.

Essa renovação também traz junto inovação tecnológica. Ou seja, variedades de cana mais produtivas entram no lugar das mais antigas e menos rentáveis.

“O foco é obter variedades que permitam chegar a 10 mil litros de etanol por hectare”, comenta Landell, do IAC. Hoje, no máximo um hectare rende 8 mil litros.

Aportes na indústria

Assim como na área agrícola, empresas do setor aportam investimentos na área industrial.

Aqui, o foco é modernizar equipamentos com foco em ganhos produtivos.

A maioria dos recursos financeiros empregados parte das próprias empresas, uma vez que financiamentos públicos seguem escassos.

Três empresas, entretanto, obtiveram financiamentos em 2019 do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A primeira delas é a Central Energética Tupaciguara, termelétrica movida a biomassa de cana localizada em Tupaciguara, em Minas Gerais.

Controlada pela Bioenergética Aroeira, a empresa obteve em junho R$ 47 milhões do Banco para ampliar a capacidade atual de geração de eletricidade.

Hoje com 12 megawatts (MW), a termelétrica passará para 35 MW em 2023. O projeto gera 100 empregos diretos durante a implantação.

Em setembro, foi vez da Diana Bioenergia, com unidade em  Avanhandava, no interior paulista.

A empresa obteve R$ 55,6 milhões do BNDES por meio da Cédula de Crédito Bancário.

Com os recursos, a Diana irá “acelerar o crescimento no intuito de aproveitar e melhorar toda a capacidade da empresa”, relata nota divulgada pela empresa.

Já no começo de novembro foi a vez da Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) obter financiamento do Banco.

No caso, serão liberados R$ 98,7 milhões em financiamento focado na modernização industrial para reativar a unidade produtora Canápolis, localizada na cidade de mesmo nome em Minas Gerais.

No total, os investimentos na unidade são de R$ 131,8 milhões, sendo que R$ 33,1 milhões cabem a própria empresa controladora.

De olho em usinas

A compra de unidades produtoras fecha o elo da fase atual de investimentos no setor.

Até a semana passada, o fundo americano Amerra tentava concluir a aquisição da unidade produtora Queiroz, localizada no interior paulista e controlada pela Clealco.

O fundo ofereceu US$ 47 milhões pela unidade.

Essa negociação, no entanto, depende de aval dos credores, já que a Clealco se encontra em recuperação judicial.

Assim como essa unidade, outras situadas na região Centro-Sul estão na mira de investidores, a maioria estrangeira, que vê o setor sucroenergético como negócio de retorno no curto prazo, seja com o RenovaBio, seja com os mercados a serem abertos para o etanol.