Biometano turbina o mercado de gás no interior paulista

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O biometano começa a avançar no interior paulista. Biocombustível gasoso obtido a partir do processamento do biogás, ele deve ganhar produção em escala nos próximos anos com apoio público, de distribuidoras e de produtores, principalmente as usinas de cana-de-açúcar.

O foco é ampliar a oferta do produto, que possui características que o torna intercambiável com o gás natural em todas as suas aplicações.

Conforme a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a qualidade do biometano está devidamente regulamentada e ele pode, inclusive, ser transportado na forma de gás comprimido por meio de caminhão-feixe.

No caso do estado de São Paulo, a proposta é que além de aumentar a oferta de insumo, seu incremento será o de reduzir as importações – hoje necessárias – de gás natural cotado em dólar.

Outra meta é garantir o suprimento do insumo diante um mercado consumidor crescente.

Mercado apetitoso

Trata-se de um mercado apetitoso que cresce em escala principalmente junto ao consumidor industrial.

Apenas no mês de agosto último, esse consumidor adquiriu 353,7 milhões de metros cúbicos (m3) do insumo, conforme levantamento mais recente da Secretaria estadual de Energia do governo de São Paulo.

O volume consumido representa 66% de todos os 536 milhões de m3 consumidos no período no estado.

E equivale a 63% de toda a produção de gás natural feita no período em território paulista (567,3 milhões de m3).

Em outras palavras, se o consumidor industrial ampliar as aquisições, a oferta nacional atual não dará conta.

Conforme o último dado disponível, em julho último a produção brasileira de gás natural foi de 3,8 bilhões de m3.

Significa que o consumo paulista do insumo em agosto ficou em perto de 10% do total produzido pelo País em julho.

Há oferta extra de gás natural vindo por aí. Eixstem, entre outros, os campos de produção em fase de processamento, como os do pré-sal, mas a disponibilidade não ocorrerá no curto prazo.

Sendo assim, o biometano cai como luva.  

Estrutura da Usina Cocal: unidade produzirá biometano a partir de vinhaça

“Pré-sal” caipira da cana une açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás e biometano

A entrada do biometano na matriz energética paulista ganhou impulso em 2019, antes mesmo da guinada dos leilões de campos do pré-sal e da crise na Bolívia, principal fornecedora de gás natural ao Brasil por meio do gasoduto Bolívia-Brasil.

Foi em abril, quando a GasBrasiliano, principal distribuidora do insumo no interior paulista, anunciou sua intenção de participar do projeto “Cidades Sustentáveis”, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e a Usina Cocal.

O projeto, que se encontra em fase de aprovações junto à Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), consiste no atendimento à cidade de Presidente Prudente com o biometano produzido pela usina Cocal, localizada na cidade de Narandiba, a partir de vinhaça, palha e torta de filtro (resíduos do processamento da cana-de-açúcar), além do atendimento aos consumidores da vizinha Pirapozinho.

Potencial nos canaviais

Já em agosto, durante a Fenasucro, em Sertãozinho (SP), Ricardo Cantarini, assistente executivo da Subsecretaria de Petróleo e Gás da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, destacou que o interior paulista possui um potencial de energia renovável que é considerado um “pré-sal caipira”.

Cantarini referia-se a importância estratégica da produção de energia nas usinas e o potencial da produção de biogás por meio da vinhaça.

“Atualmente temos 204 usinas gerando energia elétrica, sendo 70 unidades em 20 km de distância da rede de linha de transmissão. Outra oportunidade é a produção de biogás por meio da vinhaça, que possui um potencial de produção de 8 milhões de metros cúbicos por dia. Esse volume representa metade dos 16 milhões de metros cúbicos que são consumidos em nosso estado”, afirmou.

A menos de 60 quilômetros de Sertãozinho, o município de Guariba ancora a implantação da primeira planta em escala comercial do mundo a utilizar subprodutos da cana – torta de filtro e vinhaça – para fazer primeiro biogás e, em seguida, produzir energia elétrica.  

A estrutura fica em usina da Raízen e, embora, incialmente está projetada para fazer eletricidade, a transformação de biogás em biometano – para rodar a frota de veículos da unidade – está no radar.

GasBrasiliano procura usina para produzir biometano

Em entrevista para o Energia Que Fala Com Você, o diretor presidente da distribuidora GasBrasiliano, Alex Sandro Gasparetto, conta como a empresa investe – e pretende investir mais – na produção de biometano a partir da cana.

Como estão os investimentos da GasBrasiliano em projetos de biometano? Há algum contrato já firmado para implantação de unidade produtora?  

Alex Sandro Gasparetto – Em abril, a GasBrasiliano anunciou sua intenção de participar do projeto “Cidades Sustentáveis”, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e a Usina Cocal [para produção de biometano].

Por meio da rede de distribuição que será construída pela GasBrasiliano, o biometano partirá da Usina Cocal, localizada em Narandiba, e poderá atender residências, comércios, indústrias e veículos leves e pesados (GNV), promovendo diversidade energética aos municípios, competitividade à indústria local e fomento à expansão da rede de distribuição.

Com esta implementação, Presidente Prudente se tornará a primeira cidade com sistema de distribuição exclusivo de biometano no Brasil.

Trata-se de um modelo inovador para o Estado de São Paulo, com uma nova fonte de suprimento de gás natural, agora renovável, e uma nova fonte de renda ao agronegócio.

Como será a participação do Estado?

Alex Sandro Gasparetto – A participação do Estado é essencial à medida que estimula novos negócios e diversificação da oferta de gás, além da expansão da rede de gasodutos pelas concessionárias e o aumento da participação do gás na matriz energética.

O total de investimento estimado é de R$ 160 milhões, sendo R$ 30 milhões da GasBrasiliano para a construção de 65 quilômetros de rede de distribuição, e R$ 130 milhões da usina Cocal, na produção de biometano.

Como as gestões dessas unidades podem procurar informações? Há algum tipo de aporte ou financiamento com participação da GasBrasiliano?

Alex Sandro Gasparetto – O papel da GasBrasiliano nos projetos de biometano é fomentar o desenvolvimento deste mercado e prover a infraestrutura para a construção das redes de distribuição até a divisa da propriedade da usina, conectando os produtores aos consumidores, além de toda a assessoria técnica e acompanhamento para a adequação das instalações.

As usinas contam com o apoio técnico da GasBrasiliano, tanto na definição da melhor rota de aplicação do biometano, como na infraestrutura para interligação com o sistema de distribuição, a fim de se obter a solução mais econômica, rentável e segura.

Em caso de interesse, as unidades podem entrar em contato com a Central de Atendimento da GasBrasiliano para que sejam direcionadas aos profissionais especializados. Central de Atendimento: 0800 773 6099, disponível 24h por dia, todos os dias do ano.

Quais as previsões da GasBrasiliano em ampliar a oferta de gás a partir do biometano?

Alex Sandro Gasparetto – A GasBrasilianojá realizou o mapeamento de 100% das usinas presentes em sua área de concessão e atualmente está em contato com outros grupos para avalição tanto das possibilidades de aquisição de biometano, como na substituição do diesel nas frotas e na geração de energia elétrica através do projeto Usina Híbrida.

O setor sucroenergético desempenha papel fundamental na viabilização da expansão do sistema de distribuição, oferecendo o biometano a mercados potenciais localizados em pontos distantes do gasoduto existente.

A produção local de biometano pelas usinas sucroalcooleiras viabilizará novos investimentos em infraestrutura pela GasBrasiliano, que passará a receber o gás próximo ao centro consumidor, criando condições mais favoráveis para ampliar seu atendimento na área de concessão, que se caracteriza como a maior em extensão dentre as três empresas que operam no Estado de São Paulo. 

Uma vez que os contratos de aquisição de biometano ainda estão em negociação, não há, no momento, informações finais relativas ao custo de aquisição desse novo energético. Espera-se, contudo, que o custo do biometano chegue ao mercado em condições de competitividade com o gás natural.

Para a GasBrasiliano, o biometano poderá trazer escala ao seu negócio, permitindo ampliar os investimentos futuros na rede de distribuição e alavancar a economia do Noroeste Paulista.

Como o biometano torna-se energeticamente similar ao gás natural?

Alex Sandro Gasparetto – O processo de produção de etanol pelas usinas gera um resíduo na forma líquida, a vinhaça, que ainda contém alta carga de matéria orgânica, portanto com grande potencial de produção de um gás combustível semelhante ao gás natural. Sua obtenção se dá por um processo de biodigestão anaeróbica, que gera o biogás e que, por sua vez, com sua purificação (upgrade), gera o biometano. 

O biometano é uma nova fonte de suprimento de gás natural, agora renovável, fruto de resíduos do processamento da cana-de-açúcar (vinhaça, palha e torta de filtro). Suas possibilidades de uso são as mesmas do gás natural, sendo um combustível versátil e que pode substituir com eficiência qualquer outra fonte de energia. 

No segmento industrial, pode atender setores industriais como alimentício, automobilístico, metalmecânico, papel e celulose, químico e petroquímico, cerâmico, têxtil, vidro, bebidas, calçados, forjaria, frigoríficos, entre outros. Também pode abastecer condomínios residenciais e comércios para aquecimento de água, cocção de alimentos e muitas outras aplicações, como climatização de ambientes e geração de energia elétrica. 

O biometano pode ser utilizado igualmente como combustível veicular, apresentando as mesmas vantagens do gás natural, trazendo economia na utilização em automóveis, táxis, motoristas de aplicativo, veículos de carga e transporte, frotas de empresas e frotas de ônibus urbanos e interurbanos. 

Fique à vontade para discorrer mais sobre o tema

Alex Sandro Gasparetto – Assim como ocorre com qualquer tecnologia para geração de energia renovável, a produção de biometano vem buscando tornar-se mais competitiva e aumentar a eficiência do processo. Os volumes potenciais de produção de biometano são bastante expressivos.

Com o objetivo de conhecer a potencialidade de produção de biogás e biometano no estado de São Paulo, o RCGI (Research Center Gas Inovation) produziu, recentemente, em parceria com a FAPESP, Shell e USP, um estudo compilando dados provenientes de fontes diversas, entre elas a GasBrasiliano.

A pesquisa aponta um potencial de produção de biometano superior a 4 MM m³/dia na área de concessão da GasBrasiliano, o que representa mais de 500% da demanda atual da região. Os resultados podem ser consultados no link.

Como se dará a substituição do diesel em frotas e utilização do gás na geração de energia elétrica (Usina Híbrida)?

Alex Sandro Gasparetto – É relevante citar a oportunidade que as usinas têm de se conectar ao sistema de gás natural e executar gradualmente a conversão de suas frotas (caminhões, tratores, dentre outros equipamentos) para o gás natural / biometano, substituição esta que tem ganhado muita força com a inserção de modelos 100% a gás ou com a substituição parcial do diesel pelo gás, tecnologias que inclusive apresentam menor impacto ambiental e melhor desempenho energético, além de ser uma real oportunidade de redução de custos.

Em média, a economia pode chegar a até 15%, a depender da tecnologia escolhida e dos custos envolvidos (preço do kit, preço do combustível, quilometragem rodada, dentre outros).

No caso do projeto da Usina Híbrida, a energia do gás natural aumenta a temperatura do vapor produzido pela biomassa e, consequentemente, sua capacidade de produzir energia mecânica na turbina à vapor.

Esse ganho pode ser obtido com o uso do gás natural em configurações de superaquecimento do vapor externo à caldeira de biomassa ou em ciclo de reaquecimento, utilizando-se dos gases de exaustão de turbinas a gás natural.

Essa configuração proporciona a possibilidade de dobrar a geração de energia elétrica excedente com a esma quantidade de bagaço, aumentando a receita da usina.

A porcentagem de uso do gás natural/biometano nestes processos, tanto de substituição de diesel em frotas como de usina híbrida, dependerá da quantidade de biometano produzido pelas usinas, assim como a demanda energética do processo como um todo. 

Em ambos os casos a GasBrasilianofornecerá segurança energética suprindo com gás natural o que faltar para o processo produtivo ou adquirindo o biometano não utilizado pela usina.