Delcy Mac Cruz

A oferta de cana-de-açúcar em 2020 deverá repetir o volume processado pelas unidades produtoras em 2019.

Ou seja, elas terão à disposição no máximo 650 milhões de toneladas.

Esse montante é considerado disponível para a safra em andamento, mas dificilmente conseguirá ser processado até o fim de março, quando oficialmente termina a temporada 2019/20 na região Centro-Sul do país.

Essa região responde por 90% da produção nacional de etanol e de açúcar e pode processar até 600 milhões de toneladas.

Já a região Norte e Nordeste processa perto de 50 milhões de toneladas e a temporada vai de agosto a fevereiro.

Para chegar às 600 milhões de toneladas, as unidades do Centro-Sul teriam de moer mais 37,2 milhões de toneladas.

Esse volume equivale à diferença entre a oferta disponível e o que já foi processado.

Segundo levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), até o fim da primeira quinzena de novembro as unidades tinham moído 562,7 milhões.

Empecilhos no caminho

Há uma série de empecilhos para chegar ao processamento de 600 milhões até o fim de março.

O primeiro – e talvez mais importante – é o clima. Tradicionalmente o fim e começo de ano são acometidos por chuvas.

Apenas na primeira quinzena deste dezembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê um acúmulo de 100 milímetros (mm) de chuvas em estados canavieiros como o Mato Grosso do Sul.

Se as chuvas seguirem no primeiro trimestre de 2020, pode ser ótimo para o crescimento vegetativo da cana.

“Entre janeiro e fevereiro tem-se a brotação das gemas, quando a cana cresce e as chuvas ajudam nessa fase”, diz Oswaldo Alonso, técnico especializado em climatologia.

Mas o que é bom para o crescimento da planta, é ruim para os trabalhos de corte, carregamento e transporte – o CCT, no jargão do setor.

Com solo encharcado, as colhedoras, que pesam entre 9 e 22 toneladas, não conseguem circular.

Em consequência do impedimento da colheita, a cana madura pode esperar até o fim de março. Se passar disso, começa a perder açúcar acumulado e fica menos produtiva.

Avanço em plantio

Reportagens sobre o setor sucroenergético publicadas no segundo semestre de 2019 destacam um tímido avanço no plantio de cana.

A boa notícia se deve às unidades que irão retomar as atividades, como a Canápolis e a Vale do Paranaíba, no Triângulo Mineiro, cujos controladores já cultivam quase 7 mil hectares de canaviais.

E há plantio no processo denominado de renovação.

Por tradição, a cada seis a sete safras a cana ‘envelhecida’ dá lugar a novas variedades. Na média histórica, do total de cana do Centro-Sul a renovação chega a uma taxa de 16%.

A crise registrada no setor nos últimos 9 anos, entretanto, emperrou esse processo. Mas ele voltou.

Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, o Caio, diretor da Canaplan, projetou em evento da empresa, em outubro último, que a taxa de renovação deva alcançar os 16% em 2020.

Mas aí tem outra ‘pedra no sapato’. É que boa parte da renovação hoje é feita pelo método denominado meiosi. Com ele, planta-se ao mesmo tempo e na mesma área um grão – tipo a soja – e a cana.

Assim, a soja, que tem ciclo de três meses, fica pronta e é colhida – e vendida -, enquanto a matéria-prima do etanol cresce.

O negócio é bom porque a soja fixa nitrogênio no solo e gera ganho extra para a usina.

Mas predomina no método meiosi a chamada cana de ano e meio. Ou seja: ela só estará apta para colheita em 18 meses.

Desta forma, a cana nova plantada neste 2020 só estará pronta no segundo semestre de 2021. E essa condição retém o aumento da oferta.

O método meiosi, no entanto, deve representar 18% da cana renovada, conforme previsão divulgada pela Canaplan.

Os canaviais ocupam perto de 9 milhões de hectares em todo o País. Caso 16% sejam renovados, o resultado é 1,4 milhão de hectares.

No caso da meiosi, como ela representa 18% do total renovado, representa 259 mil hectares.

São esses 259 mil hectares que ficarão para 2021.

O restante das áreas renovadas tem a chamada cana de ano e, assim, a oferta fica apta em 2020.

Mas não há estimativas consolidadas sobre quanto de cana foi renovado e plantando e nem o volume que estará pronto para a safra que, no Centro-Sul, começa em abril próximo.

Por isso a matéria-prima a ser ofertada deverá repetir o volume da safra em fase final.