Consideradas essenciais, usinas de cana iniciam a safra 2020-21

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A pandemia de covid-19, ou novo coronavírus, acomete diariamente o mundo e, assim, também afeta o setor sucroenergético brasileiro.

Trata-se de um setor que emprega direta e indiretamente 700 mil colaboradores, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, a UNICA. E diante uma epidemia sem dia certo para acabar, é necessária gestão emergencial para garantir a proteção desse universo de trabalhadores.

Essa gestão foi prontamente assumida pelas empresas, com ações que garantam a segurança dos profissionais no interior das usinas e nas áreas agrícolas.

O setor também possui uma característica específica: a cana-de-açúcar, matéria-prima para a produção de etanol, açúcar e eletricidade, fica ‘pronta’ para ser processada a partir de março.

São pouco mais de 8 milhões de hectares cultivados no país, conforme a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, do Ministério da Agricultura.

Esse ‘mar’ de cana deverá gerar uma oferta de 600 milhões de toneladas apenas nos estados da região centro-sul, segundo projeções de analistas e de consultorias. 

“As características da matéria-prima impedem a sua estocagem e a interrupção do processo produtivo também impactaria severamente os mais de 700 mil trabalhadores e os 70 mil produtores agrícolas de cana”, destaca Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da UNICA em relato de 25 de março.

Tradicionalmente a safra, ou ciclo produtivo, começa oficialmente em 1º de abril e segue até dezembro nos estados da região centro-sul, que integra 350 das 400 unidades produtoras em operação no país.

Por sua vez, as usinas de cana estão inseridas no Decreto 10282/2020, do Governo Federal, e do Decreto 64.879/2020, do Governo do Estado de São Paulo.

Esses decretos estabelecem as atividades essenciais que devem prosseguir durante a pandemia de covid-19.

“O setor sucronergético oferece à sociedade brasileira os serviços essenciais de produção, distribuição e comercialização de combustíveis e derivados; de geração de energia elétrica; de produção, distribuição, comercialização e entrega de alimentos (açúcar); e de disponibilização dos insumos necessários ao funcionamento dos serviços públicos e das atividades essenciais, no caso o álcool empregado como desinfetantes em serviços de saúde e pela população geral (álcool 70 para produção de álcool em gel)”, destaca, em nota, a UNICA.

A entidade emenda, ainda, que as usinas integram operação coletiva de doação de álcool 70 para as secretarias estaduais de saúde manterem as unidades do SUS abastecidas com o desinfetante. Na segunda quinzena de março, os números da doação chegavam a 1 milhão de litros de álcool 70 para envase ou transformação em gel para seis estados.

Previsões para a safra nova

Em sua recente projeção, a UNICA estima que até o fim da primeira quinzena de abril 197 usinas iniciarão a safra no centro-sul do país.

Se confirmada, a estimativa irá superar em 30 o número de unidades que entraram em produção em igual período de 2019.

A safra 20/21 também terá viés produtivo diferente das anteriores.

Os dois últimos ciclos foram marcados pela produção de etanol. Na 19/20, por exemplo, a produção do biocombustível de cana chegou a 33 bilhões de litros.

A guinada para a produção de etanol foi para atender principalmente o mercado interno, cuja participação do biocombustível chegou a 40% nos veículos do ciclo Otto.

Para dar conta, o mix (direcionamento da cana) nas unidades foi de 65% para o etanol e 35% para o açúcar.

Entretanto, na safra que oficialmente começa em 01/04 o mix deverá voltar a ser açucareiro.

Essa tendência atende a dois cenários.

O primeiro é que por conta do isolamento devido ao novo coronavírus, também deverá cair a demanda por combustíveis.

Essa queda já é registrada.

Segundo a UNICA, na primeira quinzena de março, foram comercializados pelas usinas 691 milhões de litros de hidratado, 16% a menos que no mesmo período de 2019.

Há também a queda internacional dos preços do petróleo, em função do embate entre países produtores.

O barril do óleo chegou a cair para US$ 30, o que barateia a gasolina e a tornará atrativa para os consumidores, em detrimento ao etanol hidratado.

O segundo cenário está relacionado ao mercado internacional de açúcar.

Analistas especializados atestam que os estoques mundiais deverão ser menores ante 2019, e que a produção mundial da safra cairá.

Os preços do alimento também estão pressionados pela pandemia de covid-19.

Diante isso, a Federação Nacional de Cooperativas de Fabricação de Açúcar da Índia já sinaliza que o país – segundo maior produtor depois do Brasil – deverá reduzir em 20% as exportações.

Se a projeção for concretizada, pode abrir brecha para o Brasil ampliar as exportações de açúcar.

No mais, o alimento deverá mesmo dar o tom da safra 20/21 mesmo antes dos impactos da pandemia.

Em estudo divulgado no começo de fevereiro, a consultoria Archer Consulting divulgou que 62% do volume de açúcar a ser embarcado na safra já estava fixado.

A fixação representa comercialização antecipada pelas usinas.

Considerando o prêmio de polarização (relacionado à qualidade do açúcar) e o valor posto no porto de Santos, a fixação feita representa, em média, R$ 1,3 mil por tonelada.

Os 62% representam 12 milhões de toneladas a serem exportadas. No total, segundo a Archer, o país deverá embarcar 19,5 milhões de toneladas em 2020.

Por sua vez, as 19,5 milhões de toneladas equivalem a 74% das 26,5 milhões de toneladas que, conforme a UNICA, foram produzidas pelas usinas do centro-sul na temporada 19/20.

Sendo assim, as usinas terão mesmo de fazer mais açúcar até para atender aos compromissos já assumidos.