Crédito: UDOP

Executivos de grandes empresas produtoras de açúcar e de etanol, participantes de live da XP Investimentos em 06/04/2020, atestam a dificuldade de se fazer previsões seguras para o setor.

Mais de 300 das 364 usinas de cana-de-açúcar dos estados da região centro-sul, responsáveis por mais de 80% da produção nacional, entraram em fase produtiva – safra – neste mês de abril.

Elas convivem com queda acelerada de venda de etanol, por conta da falta de circulação de veículos e dos embates entre Arábia Saudita e Rússia, que derrubaram os preços do petróleo – em favorecimento da gasolina.

Por sua vez, o setor tem dúvidas também sobre o mercado internacional de açúcar. Isso porque a demanda mundial pelo adoçante depende dos rumos pós-pandemia de covid-19.

Não para por aí. Composto por 170 grupos empresariais no centro-sul, o setor, em sua maioria, integra empresas que precisam fazer caixa com a venda de seus produtos.

O etanol, que permite mais liquidez financeira, é a ‘porta de entrada’ do ciclo produtivo das unidades. Mas desde fim de março parte das distribuidoras tem avisado que não conseguirá cumprir os contratos já feitos dada a queda nas vendas que chegou a 70%.

Retomada a partir de junho

Mas há uma luz positiva no fim do túnel.

Energia Que Fala Com Você acompanhou a live com os executivos e destaca a seguir avaliações que sinalizam a retomada de negócios de etanol a partir de junho próximo. Aqui, entram o hidratado (veículos flex) e o anidro (adicionado em 27% ao litro da gasolina).

Participaram da webinar Ricardo Mussa, presidente da Raízen, joint venture entre Cosan e Shell; Fábio Venturelli, presidente do Grupo São Martinho; e Carlos Santos, presidente da Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA).

Eles representam companhias players do setor.

A Raízen é a maior produtora de açúcar e de etanol do País, com previsão de moer 64 milhões de toneladas de cana na safra vigente. Significa que suas unidades processarão mais de 10% de toda a cana destinada para os estados do centro-sul.

A São Martinho prima por estratégias tradicionalmente adotadas como a de investir em estoque de etanol. Com tancagem adicional inaugurada em Goiás, a companhia tem como manter em tanques 70% de sua produção de etanol até meados de setembro. Com isso, espera conviver com a readequação do mercado sucronergético.

Já a CMMA, que tem 50% do controle nas mãos da companhia IndoAgri, da Indonésia, prepara-se para iniciar nesse ano as operações de sua terceira unidade que, assim como as demais, ficam em Minas Gerais.

Adepta da gestão de riscos, como a São Martinho e a Raízen, a CMMA está financeiramente preparada para os meses iniciais da safra. Afinal, como destacou o presidente da São Martinho: “caixa será a palavra principal em momento de desafio tão grande.”

Legenda: Participantes da live da XP realizada em 06/04/2020. Crédito: Divulgação

Quando a demanda deve melhorar?

Para o presidente da CMAA, a demanda por etanol deve ser retomada de forma gradativa até o começo do segundo semestre. Isso porque até lá o mix (direcionamento da produção) das unidades deverá ser açucareiro e o mercado pode ter um enxugamento na oferta de biocombustível.

Menos etanol de milho

Esse enxugamento deverá ocorrer também por conta da menor produção de etanol de milho. Para 2020, a previsão inicial era de uma oferta de 2,7 bilhões de litros, 1 bilhão acima do produzido em 2019.

Mas os bons preços pagos pelo cereal podem torná-lo insumo para rações, em detrimento de seu emprego nas destilarias.

Mais exportações

Alexandre Figliolino, assessor de agronegócio da XP e participante da live, lembrou que as exportações de etanol podem avançar neste ano sobre o volume vendido lá fora em 2019, que chegou a 1,5 bilhão de litros.

O etanol brasileiro, que reduz emissões de poluentes ante o etanol americano, feito de milho, recebe prêmio em estados com políticas de redução de poluentes como a Califórnia (EUA) e isso amplia os atrativos pela sua compra.  

E se a avaliação de Figliolino for confirmada, exportação maior ajudará a enxugar a oferta de etanol feito na safra em vigor.

Fábio Venturelli, da São Martinho, lembrou que a exportação de álcool para outros fins (produtos farmacêuticos, cosméticos, solventes, perfumaria, tinta, entre outros). 

Medidas em favor do etanol

Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), também participou da live.

Ele destacou medidas que a entidade leva ao governo federal por conta da situação atual do etanol.

Segundo ele, há dois pacotes de medidas.

O primeiro, de caráter fiscal, propõe isenção de PIS e de Cofins do etanol. Significa redução de R$ 0,24 por litro, sendo R$ 0,13 para o produtor e R$ 0,11 para a distribuidora. Essa proposta é para período de seis meses.  

Há também pedido de aumento da CIDE sobre a gasolina. Se essa contribuição for ampliada, contribuirá para a competitividade do etanol. “E há uma vantagem importante: se bem dosada, a aplicação de alta na CIDE não faz a gasolina subir de preço”, disse.

O outro pacote da UNICA diz respeito a warrantagem (financiamento de estoques). Mesmo que as mudanças fiscais sejam aplicadas, será preciso adotar mais medidas para manter o setor.

A proposta é a de retirar etanol para estoques lacrados, com controladoras de primeira linha aceitas pelos bancos. Esse financiamento teria de ser empregado com juros semelhantes aos empregados ao setor aéreo, com taxa no CDI.

Com isso, disse, será possível retirar 6 bilhões de litros do mercado, equivalentes a três meses de produção.

A capacidade de estocagem do setor é de 11 bilhões.

Cenário mais provável

Ricardo Mussa, presidente da Raízen, destaca que o momento agudo do mercado de etanol integra os meses de abril e de maio. A retomada é esperada a partir de junho.

Ele trabalha com a queda atual do consumo dos veículos de ciclo Otto (gasolina e flex) em 70%. A recuperação vai para 50%. E em setembro 95% desse mercado pode estar recuperado.

Essa projeção leva em conta o que ocorre em outros países. Os cenários, emendou, são atualizados semanalmente.