O que vai acontecer com as usinas de cana? Confira as avaliações de Alexandre Figliolino

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Alexandre Figliolino integra o seleto time de economistas especializados no setor sucroenergético.

Por 23 anos foi diretor de agronegócios do Itaú BBA, banco de atacado do Itaú Unibanco. É sócio na consultoria MBAgro, dos irmãos Mendonça de Barros, e conselheiro independente de alguns dos principais grupos produtores de etanol e de açúcar do país.

Figliolino é mais do que talhado para avaliar os impactos da pandemia da covid-19 e da crise do petróleo no setor sucroenergético.

Como está e deve seguir a safra de cana-de-açúcar em andamento nos estados da região Centro-Sul do país?

E qual será a tendência das usinas pós pandemia?

Figliolino avalia estas e outras questão em entrevista ao Energia Que Fala Com Você.

Confira:

2020 é o ano que o setor quer esquecer?

Alexandre Figliolino – Em janeiro, parecia que até os astros estavam alinhados com o setor. Há muito anos não se tinha ‘conspiração’ favorável desse porte.

Tudo ajudava: preço do açúcar em alta, demanda de etanol também crescente, havia cana. Tudo lindo. Era para a ser a Safra. Até chovia bem no começo do ano.

Tínhamos simultaneamente preço e produção. E veio, em dose dupla, a covid-19 e a crise geopolítica do petróleo. Foi um choque enorme.

Afetou mais o etanol, certo?

Alexandre Figliolino – Com o choque, veio a esperada redução na demanda pelo etanol. Não é possível saber hoje [29 de abril, quando essa entrevista foi feita] de quanto exatamente é essa redução.

Fica-se muito dependente do nível de recuperação da atividade econômica. No caso do petróleo, por conta da produção contínua, é preciso enxugar um gigantesco estoque.

Qual sua estimativa de queda no consumo?

Alexandre Figliolino – Se houver velocidade de retomada econômica como previsto por analistas, dá para prever que a queda no mercado interno do ciclo Otto [gasolina e etanol] será de 15%.

Dependerá muito do preço do petróleo e, no caso do etanol, de eventuais socorros de Brasília em termos de diferenciação tributária – adiar cobrança de PIS/Cofins e aumentar a incidência da Cide sobre a gasolina.

Entrou em vigência neste ano o RenovaBio, programa de Estado que externaliza os ganhos ambientais do etanol e, no caso das usinas certificadas, elas podem comercializar créditos de descarbonização. O senhor acredita que essa venda possa ajudar no caixa das empresas?

Alexandre Figliolino – Não dá para esperar nada com a venda desses créditos. Em função dos novos níveis de consumo, haverá reavaliação das metas de descarbonização [das distribuidoras de combustíveis, que têm de comprar os créditos], mas não dá para esperar volume de comercialização.

Esalq/USP/Divulgação

Como o setor sucroenergético atua diante tudo isso?

Alexandre Figliolino – O setor faz a parte dele, que é mudar o mix de produção para o açúcar. Isso é fundamental para que os estoques de etanol não fiquem monstruosos. É preciso tirar entre 6 a 7 bilhões de litros do mercado [este é o volume estimado da produção de três meses das usinas].

Como fica o etanol de milho?

Alexandre Figliolino – A indicação é de que a produção das unidades desse etanol fique igual a de 2019 [estimada em 1,4 bilhão de litros, segundo a Unem, entidade do setor]. 

Isso porque hoje talvez seja mais vantajoso vender o milho em contratos a termo [acordos para liquidação em data futura] do que fazer etanol.

Uma questão preocupante é a estocagem de etanol. Qual sua avaliação?

Alexandre Figliolino – Pelas contas que faço, haverá momentos mais delicados de estoques em relação a capacidade de armazenagem até o meio do ano. Mas que o etanol será consumido, isso ele irá. A questão é o preço. Daí a importância da Cide [maior para a gasolina] para não exigir do etanol um nível de preço muito baixo.

O biocombustível precisa ser consumido. E é preciso que o setor não chegue na virada da safra [no fim de março de 2021] com estoques muito elevados.

O setor solicita financiamento por bancos da estocagem de etanol, no termo denominado warrantagem. Qual sua opinião a respeito?

Alexandre Figliolino – A parte mais nobre do setor sucroenergético tem condição de bancar estocagem sem depender do governo. Mesmo porque até que essa linha de financiamento seja estruturada a ‘inês já é morta’.

Seria interessante uma linha hoje inexistente: que atenda as empresas em dificuldades, com problemas de carregar estoque por questão de fluxo de caixa.

Mas nem poderia ser de outra forma: o sistema financeiro está mais cauteloso do que já é. Imagine a situação: os bancos já têm que administrar setores com dificuldades bem maiores que as do setor de etanol.

Há um lado bom para o setor em meio a isso tudo?

Alexandre Figliolino – Dizem que Deus é brasileiro e acredito. Mas, além de brasileiro, digo que ele é usineiro.

Em uma crise dessas proporções, temos o açúcar nos melhores preços em três anos.

Pegamos também um dos maiores concorrentes em produção, a Tailândia, com seríssimos problemas climáticos. A produção deles deve chegar a 8,2 milhões de toneladas, contra 15 milhões de toneladas em anos anteriores.

Há também a Índia, quem impõe lockdown (bloqueio) rigoroso, e isso afeta os produtores locais, que estão incentivados no modo exportador de açúcar.

E tem a questão cambial

Alexandre Figliolino – O mercado de açúcar para exportação é favorável. A parte do câmbio ajuda.

O dólar acima de R$ 5 é música para o exportador.

As usinas têm condições de alterar o mix para açúcar de hora para outra?

Alexandre Figliolino – Uma usina com boa flexibilidade pode fazer 60% de um produto e 40% do outro e tem condições de migrar esse mix. Isso é meio padrão entre as unidades principalmente do estado de São Paulo.

No geral, como está o caixa das usinas?

Alexandre Figliolino – Quem aproveitou o momento do mercado, com fixações do VHP acima de R$ 1,5 mil por tonelada, está agora em situação de fazer etanol e tentar fugir dos momentos piores de mercado para comercializar quando os preços não sejam tão horrorosos.

A usina que fez isso paga a conta. Chegará “vivinha da Silva” em 31 de março de 2021 [na virada para a próxima safra].

E as unidades que só fazem etanol?

Alexandre Figliolino – Unidade que só faz etanol, e que não possui contrato de venda de energia elétrica, não terá como segurar o produto porque o fluxo de caixa não permite.

Em termos financeiros, como o senhor avalia 2020 para as mais de 300 usinas em operação?

Alexandre Figliolino – Um terço terá um ano mais ou menos, um terço estará arrebentado e o outro terço passará o ano com margem muito menor do que o imaginado, mas passará.

Em ano de crise dessa magnitude, o não prejuízo deve ser considerado lucro.