Preços do petróleo voltam a subir, mas seguirão em alta? Confira avaliações de especialistas

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Depois de baixas seguidas no mercado internacional, por conta do excesso de oferta e da redução de consumo, o barril de petróleo voltou a registrar alta.

Na terça-feira (05/05), o barril do Brent no futuro disparou alta de 13,8% sobre o dia anterior e foi vendido por US$ 30,97. Já o barril do WTI acusou aumento de 20,5% ante 04/05, vendido a US$ 24,56.

São fatos positivos, uma vez que 15 dias antes, o barril do WTI chegou a valer negativos. Deste, alcançou US$ 37,63 devido a uma questão pontual (clique aqui para saber mais).

Mas o que vem por aí no mercado internacional de petróleo? O Energia Que Fala Com Você convidou dois especialistas no setor de P&G para responder à pergunta. Sendo eles, o químico industrial Marcelo Gauto, autor de vários livros sobre petróleo, e Fernanda Delgado de Jesus, da FGV Energia.

Confira as avaliações desses especialistas:

“Temporário ou permanente?”

“Sinais de recuperação, ainda que modestos, nos principais mercados globais, estoques estáveis, associado aos cortes de produção que pipocam mundo afora, fizeram o preço do petróleo subir forte nesta última semana”, destaca Marcelo Gauto.

Segundo ele, “precaução ainda é a palavra de ordem”. “Estamos longe da normalidade, mas esta melhora é um suspiro. Uma retomada de fôlego para encarar as braçadas em maré turbulenta a qual nos encontramos”, afirma.

Volatilidade

Na opinião de Marcelo, no curto prazo a volatilidade ainda seguirá alta. “Mas acredito em preços oscilantes. Na faixa de US$ 30 a US$ 40 o barril até no fim deste ano, sustentados pela manutenção dos cortes de produção”.

“Espero que a recuperação observada seja permanente”, frisa. “Já consigo imaginar os raios de sol no horizonte global, embora saiba que dias nublados estão no caminho. Vamos adiante”.

“Preços sentem a expectativa de dias melhores”

A retomada da China e de outros países sinalizam ‘dias melhores’ para os preços do petróleo, destaca Fernanda Delgado de Jesus, professora e assessora estratégica na FGV Energia.

Doutora em Planejamento Estratégico e professora do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, via convênio com a FGV, Fernanda avalia os rumos do mercado de petróleo em entrevista ao Energia Que Fala Com Você.

Medidas de flexibilização de lockdown em curso em países europeus e em estados dos EUA colocarão os veículos nas ruas. Assim, a demanda por biocombustíveis deve ganhar retomada. Segundo a agência de notícias Reuters, esta expectativa serviu para que os preços do petróleo registrassem alta no começo da semana [03 a 07/05]. Qual sua avaliação?

“Os preços sentem a expectativa de dias melhores a partir da abertura de alguns mercados. Em especial a esperança de retomada da China, e isso impulsiona o preço. Mas aí temos dois assuntos nessa pergunta: preço de petróleo e demanda de biocombustíveis”.

“Sim, você tem razão quando diz que mais veículos nas ruas significam aumento de vendas de derivados de petróleo – gasolina e diesel – e com isso aumento da demanda de etanol e biodiesel. Já que 27% de cada de litro de gasolina vendido no país contém etanol; e 11% de cada litro de diesel é biodiesel. O que traz um alento para a indústria de biocombustíveis que é bastante dependente da indústria de derivados e de frágil equilíbrio financeiro”.

“Fazendo um link com os dois assuntos, o aumento da demanda de combustíveis fósseis também faz uma pressão altista nos preços do petróleo no mercado internacional. O que é bem-vindo e bem-visto hoje tanto no mercado nacional quanto no internacional”.

A demanda por petróleo tende mesmo a ser retomada? Se sim, será possível reduzir os estoques mundiais existentes em quanto tempo?

“A questão dos estoques que existe hoje é pontual. Existe por um estrangulamento da capacidade de armazenagem versus o excesso de produção. O excedente de oferta não seria um problema se houvesse, no mundo, capacidade de armazenagem deste excedente. Sendo este um problema crítico de infraestrutura em vários países, só há uma solução possível: o corte de produção”.

“Quanto a infraestrutura de armazenagem pode-se dizer que o problema é bastante sensível em qualquer região e em qualquer perfil econômico de país. Uma vez que a capacidade disponível ao redor do mundo nem sempre está no lugar certo ou está disponível para todos os produtores. 0 que leva ao atingimento do limite em questão de dias em uma situação de estresse”.

Qual é a capacidade de armazenagem?

“A capacidade disponível mundial atual de armazenagem de óleo cru está estimada em 875 milhões de barris. O equivalente a 2,4 milhões de barris por dia durante um ano. Considerando que o excedente de oferta da crise atual é esperado atingir o patamar de 15 milhões de barris por dia nos próximos dois meses, os estoques estariam cheios ao final desse período”.

“Tal limite pode ser alcançado ainda mais cedo, pois estimam-se que apenas 80% dessa capacidade total possa ser preenchida por questões operacionais. Outro fator que pode acelerar esse processo é de que as refinarias estejam cortando a produção de derivados. Uma vez que suas margens estão cada vez menores”.

“O consumo dos estoques mundiais não será um problema relevante quando da retomada dos níveis de consumo anteriores à crise da Covid-19. O grande problema é quando vamos ter essa retomada”.

“Sendo assim, ainda é cedo para prever. A China e alguns países asiáticos dão os primeiros sinais de recuperação. Eles estão voltando a comprar óleo, em especial o óleo brasileiro, que tem baixos teores de enxofre”.

A alta recente dos preços do petróleo é temporária, pontual, ou sinaliza a retomada? A sra. arrisca um valor médio do barril Brent até dezembro deste ano?

“Com o mercado a petrolífero a contango (preços futuros esperados maiores que os atuais), há uma possibilidade de ganho futuro maior do que a do mercado spot em relação a ganhos com os preços do barril. Por isso os agentes se cercam de estoques, apostando no aumento dos preços”.

“Essa é uma sinalização positiva em relação aos preços futuros. Acredita-se que o estresse máximo do mercado já tenha passado e a recuperação que tem se experimentado desde o início dessa semana seja um bom alívio e uma sinalização positiva”.

“Agora, são tempos de alta volatilidade e de questões geopolíticas muito delicadas. Adicionalmente o mundo acompanhará logo as eleições norte-americanas, um complicador extra da petropolítica”, finaliza.

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