Menos poluente, etanol é ‘remédio’ contra o avanço da covid-19

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O maior consumo de etanol ajudaria a enfrentar o avanço da covid-19, que até na terça-feira (12/05) acumulava 11.519 mortes no Brasil.

A resposta para essa afirmação é uma só: o biocombustível feito de cana-de-açúcar é menos poluente ante combustíveis fósseis como a gasolina. E quanto maior a poluição nos transportes, melhor para o avanço da covid-19.

Exemplo: o litro de etanol hidratado emite 41 gramas de dióxido de carbono (CO2) por quilômetro rodado em um carro flex. Já a emissão sobe para 134 gramas no caso do uso da gasolina no mesmo motor. É preciso lembrar que o litro da gasolina contém 27% de etanol anidro.

Os dados são da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Este, leva em conta 61 modelos de carros com consumo energético de 1,68 megajoules (energia gasta) por quilômetro. Clique aqui para mais informações a respeito.

Também conhecido como gás carbônico, o dióxido de carbono em excesso desequilibra o efeito estufa. No caso da saúde, é responsável pelo aparecimento de doenças respiratórias. É o que destaca estudo da Faculdade de Medicina da USP.

Sendo assim, o maior uso de etanol melhoraria as condições ambientais e, assim, ajudaria a enfrentar a doença respiratória aguda causada pelo novo coronavírus sars-CoV-2.

Vendas no avanço da covid-19

No entanto a realidade é outra. Devido ao isolamento social, o consumo de combustíveis despencou em tempos de avanço da covid-19.

No mês de março os postos venderam 13,34% menos gasolina no país, ante igual período de 2019. Enquanto isso, a comercialização do biocombustível caiu 15,82% na comparação com mesmo mês do ano anterior.

No caso do etanol, a queda é explicada também pela perda de atratividade. Ou seja: ele só é financeiramente vantajoso se custar até 70% do preço da gasolina. Não foi o que ocorreu uma vez que tem ficado em médios 60% do valor do concorrente fóssil.

É preciso lembrar que essas quedas de vendas foram em março. No período o isolamento ainda não era 100%, já que foi implantado na segunda quinzena do mês.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), responsável pelos dados aqui citados, não havia disponibilizado informações das vendas de abril até a conclusão desse conteúdo.

Entrementes, a UNICA, entidade representativa das unidades produtoras de etanol, destaca que em abril as vendas de hidratado no país ficaram 38,37% menores em relação as do mesmo período de 2019. Clique aqui para obter os dados.

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Mais poluição

Por sua vez, os dados disponíveis da ANP servem para um alerta: mesmo com a diminuição de venda, a gasolina avançou para 57,02% sua participação no Ciclo Otto (frota de veículos de passeio e de carga leve). Em março de 2019, ela participava nesse Ciclo em 56,55%.

O aumento parece pouco, mas soa como uma bomba em tempos de avanço da covid-19.

Dos 45 milhões de veículos da frota brasileira existente no ano passado, 61% ou 29 milhões são veículos flex, segundo levantamento do Sindipeças.

Para se ter ideia, caso todos esses veículos forem para as ruas, e 57% deles usarem gasolina, eles emitirão 3,9 bilhões de CO2 por quilômetro rodado.

Entretanto, caso a frota toda usasse etanol esse gigantesco volume negativo seria reduzido em 62%, caindo para 1,2 bilhão de CO2.

Foto: UNICA/Divulgação

Peso do RenovaBio

Mas é possível ampliar a venda de etanol em tempos de avanço da covid-19? Só para atestar, a participação do biocombustível no Ciclo Otto pode perfeitamente representar fatia maior.

Até novembro de 2019, por exemplo, o etanol movia 48,2% da frota Otto, segundo a UNICA. A queda na participação para 43% veio com a combinação de quebra no consumo e de menor atratividade de preço ante a gasolina.

Sendo assim, o etanol deve ganhar presença no mercado consumidor pela sua importância enquanto redutor de emissões de poluentes. Principalmente neste 2020 marcado pelo avanço da covid-19.

Para tanto existem programas como o RenovaBio, em vigor desde janeiro deste ano. Nele é priorizado o consumo do biocombustível para fazer com que o Brasil reduza emissões de CO2 comprometidas no Acordo de Paris em 2015.

Esse programa prevê a compra obrigatória pelas distribuidoras de créditos que representam 1 tonelada de CO2. Essas têm de adquirir cada crédito conforme suas vendas de combustíveis fósseis.

Em síntese: se venderam 1 milhão de litros de gasolina, têm de adquirir créditos equivalentes a 1 milhão de toneladas de CO2.

Mas a sistemática do RenovaBio deverá passar por alterações no tocante às metas de compra dos créditos pelas distribuidoras. Uma vez que as vendas de combustíveis despencaram diante o avanço da covid-19

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Contendo o avanço da covid-19

Por sua vez, independente das adequações no programa, o etanol, seja ele o anidro adicionado à gasolina ou o hidratado, para veículos flex, ajuda a reduzir as emissões de CO2 e é ferramenta disponível no Brasil para conter o avanço da covid-19.

E motivos para fazer essa discussão não faltam: a China revive a segunda onda da doença, com novos casos registrados em Wuhan, onde tudo começou.

Não bastasse, o Brasil ainda vive o avanço da covid-19.

“Quem usa etanol ajuda a evitar mortes por covid-19, porque essa doença é pulmonar”. A afirmação foi de Miguel Ivan Lacerda, diretor de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME) em live em 06/05 realizada pela Orplana, entidade representativa dos fornecedores de cana-de-açúcar.

Finalmente, estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgada pela UNICA, destaca que a poluição atmosférica resulta em cerca de 7 milhões de mortes por ano no mundo. Desse montante, as doenças pulmonares respondem por 43%.

“A crise da covid traz mais conscientização sobre meio ambiente e saúde, com redução da poluição atmosférica”. Afirmou Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro em live realizada em abril.

Em sua opinião, no médio prazo espera-se que seja criada consciência sobre os ganhos que a integração do biocombustível pode trazer para o mundo.