Entenda como o mercado para o etanol tende a melhorar em um futuro próximo

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O etanol tem potencial para avançar no futuro próximo, ou seja, a partir de 2021. À primeira vista, esse avanço tende a se dar nos mercados internacionais e no doméstico.

O tipo hidratado do biocombustível, usado para abastecer a frota flex, saiu de um 2019 excelente do ponto de vista de consumo. E entrou positivo em 2020.

“Em janeiro desse ano, parecia que até os astros estavam alinhados com o setor sucroenergético”. Afirmou ao Energia Que Fala Com Você o economista Alexandre Figliolino. “Há muito não se tinha ‘conspiração’ favorável desse porte.”

“Tudo ajudava: preço do açúcar em alta, demanda de etanol também crescente, havia cana, tudo lindo. Era para ser a safra. E veio, em dose dupla, a covid-19 e a crise geopolítica do petróleo em um choque enorme”, destacou Figliolino, veterano especialista do setor.

Durante a entrevista dada em 30 de abril, o economista já indicava que diante o derretimento no consumo, as usinas fariam virada no mix produtivo. Neste caso, com produção maior de açúcar na safra iniciada em abril último nos estados da região Centro-Sul do país.

A troca de mix, que alivia as perdas financeiras do etanol, é possibilitada junto a maioria das usinas. O Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), atualizado no dia 15 de maio, aponta a existência de 368 usinas em operação no país.

No entanto, existem dúvidas sobre se a produção maior do adoçante terá os preços remuneradores registrados no começo do ano. Uma vez que ainda não seja possível estimar a produção da Índia e da Tailândia, dois grandes produtores.

É que oficialmente o ciclo produtivo nesses países começa no último dia de setembro próximo.

Reivindicações sem atendimento

Contudo, o quadro atual segue desolador para o etanol em meio às incertezas atuais de mercado. Entre elas, reivindicações do setor junto ao governo – como suspensão de cobrança do PIS/Cofins e financiamento para armazenamento do produto – que não foram atendidas.

Por sua vez, os preços de produção do biocombustível seguem abaixo do que as usinas recebem. Conforme apurado pelo Energia Que Fala Com Você, usinas do estado de São Paulo gastam médios R$ 1,45 líquidos para fazer um litro de hidratado.

E recebiam R$ 1,40 líquidos pelo litro até a primeira quinzena deste mês, segundo o Cepea, instituto da Esalq/USP.

Com esses valores a conta não fecha para as usinas.

Diante isso, tem surgido no setor avaliações de que a safra possa ser encerrada em setembro, dois meses antes do término tradicional.

De seu lado, a interrupção antecipada da safra é aventada com dois objetivos.

O primeiro deles é do ponto de vista agrícola. Ou seja, a cana mantida sem corte pode ficar para o começo de 2021, sob risco de perda de produtividade. Mas essa seria uma perda menor diante os preços recebidos pelo litro de etanol no começo desse maio.

Safra menor enxuga produção

Já o segundo objetivo é estratégico do ponto de vista de mercado. Dois meses a menos de safra reduziria a produção em pelo menos 2 bilhões de litros, caso usinas deixassem de produzir em setembro.

A estimativa de recuo de 2 bilhões de litros representa dois meses de consumo de hidratado no mercado nacional nestes tempos de pandemia.

Segundo levantamento da UNICA, as vendas nacionais de hidratado em abril somaram 1,1 bilhão de litros, 38,37% inferior as do mesmo mês de 2019.

Por sua vez, em caso de menor oferta de produção as usinas da região Centro-Sul, responsáveis por 80% da fabricação nacional, chegariam a estimados 15 bilhões de litros de hidratado.

Essa projeção leva em conta a produção mensal média de 1,8 bilhão de litros. Neste cenário, já desconta os 2 bilhões que deixariam de ser feitos em caso de safra terminada antes do tempo.

Cenários para o avanço do etanol

Mas se há tantos problemas atuais, por que o etanol tende a avançar no futuro próximo?

Há aí projeções de mercados local e mundial.

E elas são partilhadas, por exemplo, com executivos de players do setor como a Raízen, joint-venture da Cosan e da Shell.

Em live realizada em 11 de maio pelo jornal Valor Econômico, o presidente da companhia, Ricardo Mussa, destacou estar bem otimista com o etanol na pós-pandemia de covid-19. Segundo ele, diferentemente da crise mundial de 2008, nessa os renováveis ganharão mais força e o etanol terá um papel muito importante.

As questões renováveis e climáticas deverão ganhar força nessa crise, conforme Mussa, “e aí o etanol é imbatível”. Como exemplo, ele citou países nos quais o biocombustível pode ser adotado em função de suas qualidades ambientais.

Um dos países ainda citados pelo executivo é a Índia. Cujo diesel é o combustível principal e há cidades que há mais de 30 anos não conseguiam enxergar a cordilheira do Himalaia.

Com a pandemia e a queda brusca no número de veículos em circulação, o meio ambiente local foi beneficiado. “E a magnífica imagem [da cordilheira] desenhou novamente o céu dessas comunidades”, destacou Mussa, em conteúdo da revista Canavieiros a partir da live.

As qualidades do etanol para a saúde pública já foram destacadas por especialistas do setor. 

“Quem usa etanol ajuda a evitar mortes por covid-19, porque essa doença é pulmonar”, afirmou de Miguel Ivan Lacerda, diretor de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME) em live em 06/05 realizada pela Orplana, entidade representativa dos fornecedores de cana-de-açúcar.

Leia mais: Menos poluente, etanol é ‘remédio’ contra o avanço da covid-19

Comparando etanol com gasolina

Já em termos de mercado local, no curto prazo o etanol hidratado tende a avançar mesmo em vantagem de preço na comparação com a gasolina.

Até o fim da primeira quinzena de maio, só valia a pena comprar o biocombustível em cinco estados. Isso porque somente neles o litro custava menos que 70% do preço do litro da gasolina, que é condição que torna o hidratado mais vantajoso.

Mas por questões cambiais, e mesmo de altas nos preços do barril de petróleo, a gasolina ganha valorização e pode ser que volte a perder para o etanol em termos de preços nos postos.

Caso o consumo de hidratado retome os 2 bilhões de litros mensais médios de 2019, ou 800 milhões de litros acima do vendido em abril último, os estoques atuais do biocombustível logo irão embora.

Se essa previsão ocorrer, as usinas nem precisarão terminar a safra antes do prazo porque cada litro de biocombustível será necessário para atender a demanda.

Mas em sua participação na live, o presidente da Raízen destacou, também, que muitas das companhias do setor terão um 2020 repleto de dificuldades financeiras.

Por fim, mesmo que haja retomada de consumo de hidratado ainda nesse 2020 talvez ela não seja suficiente para aliviar os problemas das unidades produtoras.

Apesar do alerta, ele não descarta as tendências de que o etanol possa avançar no curto prazo, como projetado nesse conteúdo.