Descomissionamento de ativos cria mercado promissor no Brasil

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O ‘papa’ do setor Mauro Destri explica detalhes e tendências em entrevista ao Energia Que Fala Com Você

Mauro Destri em pé, de terno e sorrindo para câmera.

O descomissionamento de ativos em plataformas irá gerar um promissor mercado no Brasil. Uma das plataformas, a Cação, teve o processo licitado e outras três estarão liberadas a partir do próximo ano, segundo Mauro Destri.

Em entrevista ao Energia Que Fala Com Você, Destri projeta que esse mercado de descomissionamento de ativos deverá movimentar R$ 26 bilhões até 2025. Esse volume financeiro integra dados da ANP e pode crescer bem mais.

Profissional com 30 anos de Petrobras, Destri é especialista em engenharia de descomissionamento e gerenciamento de ativos de produção em petróleo, gás e energia. É dele, por exemplo, o escopo técnico e o orçamento para descomissionar todo o sistema subsea de FPSO na Bacia de Campos.

Mas esses representam apenas um dos trabalhos desse profissional, que está à frente da Destri Consulting e é considerado de o ‘papa’ do setor. 

O descomissionamento tende a gerar mercado promissor no curto prazo, ou seja, a partir de 2021, no Brasil?

Mauro Destri – Sim. Veja que o evento que libera um ativo (poços, linhas, dutos, equipamentos submarinos ou onshore e plataformas) é a aprovação por parte dos órgãos reguladores, agora irmanados, ANP/IBAMA/Marinha, do Projeto para Desativação de Instalações (PDI).

A partir daí começariam os leilões e licitações e, hoje, já são 19 aprovados. Então tudo leva a crer que, teremos, finalmente, descomissionamentos ocorrendo, além obviamente da plataforma da Bacia de Cação, no Espírito Santo, já licitada.

Esse mercado veio para ficar no Brasil?

Mauro Destri – Parcimônia é a palavra de ordem. Veja que comparados a alguns países do mundo que já descomissionaram centenas de ativos e ainda têm mais centenas a fazê-lo, nós estamos falando de um universo de pouco mais de 80 unidades.

E, em gradiente, espaçadas, mais ainda, o universo das fixas só começa a partir de 2025. No curto prazo, até lá, 2025, serão as unidades móveis, com nível de complexidade bem mais baixo.

Em sua estimativa, quantas plataformas deverão ser descomissionadas no curto prazo (a partir de 2021) e no médio prazo?

Mauro DestriTrês até 2021 e mais oito até 2025, em minha estimativa livre.

A Resolução 817/2020 da ANP elimina burocracia e demais amarras que o nicho de desmantelamento de estruturas de produção offshore enfrentava?

Mauro Destri – Veja bem, nenhuma resolução tem o poder de dirimir todas as dúvidas, ou retirar incertezas.

Mas a nova resolução com certeza trouxe avanços, retira muitas dúvidas da anterior e, principalmente, integra a tríplice coroa formada pela ANP/IBAMA/Marinha em uma mesma resolução. Já é um enorme avanço.

Como a maioria das plataformas em vias de descomissionamento é da Petrobras, como se dará o processo de contratação de fornecedores?

Mauro Destri – Quando estivermos falando de plataformas fixas, serão Licitações, nos moldes da lei 13.303/2016, no estilo EPRD – Engenharia, preparação, remoção e descarte. Mas quando estivermos falando de móveis (SS, FPSO, FSO, etc,) se dará em duas partes. É minha crença. Haverá o leilão é para vender as plataformas e uma licitação EPRD para retirada dos outros equipamentos dos sistemas de produção.

O nicho de descomissionamento contempla empresas fornecedoras de P&G que já estão no Brasil, ou tende também a atrair quem está fora do mercado brasileiro?

Mauro Destri – Teremos um fabuloso mix, mas para isso as empresas no país têm de estudar, e muito e, sinceramente não estou vendo isso. Por isso tenho me colocado à disposição para discutir o tema.

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Que tipos de serviços deverão ser contemplados com os contratos de descomissionamento?

Mauro Destri – São oportunidades para as mais diversas capacitações e competências: ambiental, engenharia de poços, engenharia submarina, engenharia Estrutural; contadores; advogados; tributaristas;, armadores, logística em toda a sua cadeia, consultores especializados em projetos etc.

É possível prever o volume financeiro que o setor de descomissionamento movimentará no Brasil nos próximos anos?

Mauro Destri – Estimamos em R$ 26 bilhões até 2025, segundo a ANP.  

Qual deverá ser a participação de empresas brasileiras nesse mercado?

Mauro Destri – É preciso conhecer esse setor, no qual estou há 45 anos. O Brasil possui uma rede de fornecedores de bens e serviços formada e experiente pelo menos há mais de 30 anos.

Esta rede está se esfacelando. Somente em Macaé (RJ) foram demissões em série nos últimos quatro anos. Tem também o potencial destrutivo por conta do Covid-19 e a baixa do Brent ainda é imensa.

Então esta injeção de recursos, seja para qual for a ponta da cadeia, fatalmente chegará em quem vende parafusos e arruelas, salões de beleza, academias, padarias, borracharias.

Sendo assim, a prece é para que [os descomissionamentos], venham logo, comecem logo. A nação e seu filhos precisam dessa injeção de esperança.