O boom das usinas solares

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Assim como outros setores da economia, a pandemia de covid-19 faz o mercado de energia elétrica ter resultados negativos. Em junho, por exemplo, a geração retraiu 4,2% ante igual período de 2019, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). De forma geral, não é possível saber quando a atividade econômica será retomada a pleno vapor. E essa aguardada volta é vital para ampliar também o consumo de eletricidade. No entanto, em que pese o esperado saldo negativo, um dos segmentos de geração de energia esbanja resultados positivos neste ano. É o das usinas fotovoltaicas, também conhecidas por usinas solares.

A geração de eletricidade das ‘fazendas fotovoltaicas’ cresceu 34% em junho na comparação com o mesmo mês de 2019, destaca a CCEE. Em volume gerado, o segmento esbanja números. Por exemplo: ao longo de 2019 foram colocados em operação 2,1 megawatts (MW) em novos sistemas.

Esse saldo fez o Brasil entrar para o grupo de 20 países líderes em capacidade instalada de energia solar no mundo, destaca a Reuters.

Dessa forma, é um mercado que dispara após forte crescimento da tecnologia e, também, por instalações de menor porte, como sistemas em telhados de residências e edifícios comerciais.

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Esses pequenos sistemas de geração atingiram 3 gigawatts (GW) de potência no país, suficientes para abastecer 1,2 milhão de casas, conforme a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) no portal Exame. Esse tipo de geração triplicou no Brasil, nos 12 meses passados, e cresceu 45% nos últimos seis, apesar da pandemia.

Em síntese, segundo a Exame, existem atualmente 255 mil sistemas solares fotovoltaicos conectados à rede, que abastecem 319 mil unidades consumidoras, como são denominadas as ligações de energia feitas pelas distribuidoras.

Ao todo, os investimentos em energia solar somam mais de R$ 15 bilhões. Mas as boas novas prosseguem. É o caso, por exemplo, dos investimentos em geração. A empresa de energia solar Atlas Renewable Energy está otimista com as perspectivas de negócios no Brasil.

Possui atualmente cerca de 400 megawatts em usinas solares em operação no Brasil, além de quase 500 megawatts já com energia vendida em contratos e prontas para comercialização. Mas quer investir mais. “Diria que nossa meta seria dobrar de volumes nos próximos três anos”, disse para a Reuters Luis Pita, gerente-geral da Atlas no Brasil.

Motivos do boom das usinas solares

Mas o que explica o boom das fotovoltaicas diante um Brasil ainda sob efeitos do novo coronavírus? Em resumo, esse segmento gerador de energia tem pelo menos três motivos a seu favor:

  1. É renovável e, assim, está em sintonia com a tendência mundial de favorecer o meio ambiente;
  2. É favorecido pela chamada geração distribuída (GD) – mercado no qual a energia é gerada próxima ao local de consumo;
  3. Tem oferta de matéria-prima na maioria do ano.

Mas e outras fontes renováveis, como a eólica e a biomassa de cana, não estão também nessa lista de benefícios? Sim, mas apenas em parte.

Essas também ajudam o meio ambiente ao zerar as emissões de poluentes, assim como podem estar no disputado mercado de geração distribuída. Mas a garantia de oferta de matéria-prima para produzir energia é diferente.

No caso da biomassa de cana, ela é ofertada principalmente entre abril a dezembro na região Centro-Sul do país. Esse é o período da safra, nome que o setor dá para o ciclo de produção de etanol ou de açúcar.

Situação semelhante ocorre com a fonte eólica, cujo potencial é mais intenso de junho a dezembro, meses de menor intensidade de chuvas.

As usinas solares, de seu lado, têm oferta de matéria-prima garantida. Isso porque o Brasil recebe uma insolação (número de horas de brilho do Sol) superior a 3 mil horas por ano. Não é à toa que é o país com maior taxa de irradiação solar do mundo.

Usinas solares avançam com a geração distribuída

A geração distribuída, ou GD, é um capítulo a parte na fonte solar. No primeiro semestre de 2020, ante igual período do ano passado, o mercado de GD teve alta de 77,83%. O resultado é de levantamento do Canal Solar, com base em dados da Aneel.

Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho da Absolar, destaca que o aumento reflete a confiança do consumidor na energia solar como fonte de investimento.

“A energia fotovoltaica traz autonomia e segurança para o consumidor, seja comercial, industrial ou residencial”, explica ele ao Canal Solar.

“Além disso, com a fonte solar o consumidor não fica à mercê de bandeiras amarelas ou vermelhas e dos aumentos das distribuidoras de energia.” Koloszuk atesta que o crescimento deverá ser ainda maior neste segundo semestre do ano.

“A tendência da geração distribuída fotovoltaica é aumentar, uma vez que a questão do receio em investir começa a ser superado e as pessoas já enxergam na energia solar um dos melhores investimentos a se fazer no Brasil”, afirma.

Grandes consumidores

Por sua vez, grandes consumidores de energia também migram em escala para a fonte fotovoltaica. Veja o caso da Dow, gigante de produtos e soluções de base científica. Ela acaba de formalizar a assinatura de contrato de compra de energia com a Atlas Renewable para o consumo de energia solar para a unidade de Aratu, na Bahia.

O contrato tem validade de 15 anos e o fornecimento da energia solar ocorrerá por meio da construção da usina Jacarandá, em Juazeiro, na Bahia. Em relato, a Dow destaca que o acordo está alinhado às metas de reduzir suas emissões globais em milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) até 2030.

“Fonte com maior taxa de crescimento”

A pedidos do Energia Que Fala Com Você, a pesquisadora da FGV Energia Gláucia Fernandes faz uma avaliação sobre os motivos do avanço da energia solar. Confira:

“Antes mesmo da pandemia da Covid-19, o mundo já vinha seguindo uma tendência de transformação na forma como se produz e consome energia, muito motivado pelos impactos da ação humana sobre o clima.

Em 2004, as fontes solar e eólica eram 0% da matriz, e hoje já estamos falando de 9% em Eólica (15% GW) e 1% em Solar (2 GW).

Em 2040, essas fontes devem representar 46% da matriz energética brasileira. 

No Brasil, a solar fotovoltaica foi a fonte com a maior taxa de crescimento na matriz elétrica em 2019, atingindo um aumento de 88%, contra 7% da eólica e 5% da hidrelétrica.

Crescimento potencial

O mercado de energia fotovoltaica tem grande potencial de crescimento no país, não só de grande porte, mas de médio e pequeno porte também – vide entrada muito grande de GD no sistema.

Em maio de 2020, o Brasil alcançou a marca de 3 GW de potência instalada em MMGD de energia elétrica, ou seja, essa modalidade, apesar de regulamentada em 2012, triplicou nos últimos 12 meses. Em junho do ano passado, o país comemorava o primeiro GW em GD.

Desde 2012, a geração solar distribuída já movimentou mais de R$ 14 bilhões em investimentos.

Há muito espaço para que haja expansão desse mercado, em razão do alto índice de irradiação que existe no Brasil. Além disso, tempos de crise, como a pandemia atualmente, faz com que os consumidores se sintam atraídos por essa fonte devido a economia na conta de luz e a maior previsibilidade de gastos das empresas e, claro, pelo fato dela ser uma energia limpa.”