Consumo de etanol ensaia retomada de alta. Saiba o porquê
Crédito: cetesb
Entre os motivos está o encarecimento do preço da ‘concorrente’ gasolina

O mercado nacional de etanol hidratado ensaia reviravolta positiva. Depois de registrar queda de 40% no consumo em abril, por conta do isolamento via covid-19 e da baixa do preço internacional do petróleo, que barateou a gasolina, o biocombustível tende a uma retomada.

Mas antes de apresentar explicações para esse cenário, convém entrar nos detalhes do mercado atual. No geral, as vendas internas do hidratado, que é usado nos veículos flex, seguem em queda.

Levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) atesta isso: em junho, a comercialização de hidratado caiu 19,64% ante igual mês de 2019. Traduzindo em números, as distribuidoras compraram 1,47 bilhão de litros de hidratado em junho, ou seja, 360 milhões de litros a menos do volume comprado no mesmo período de 2019.

Entretanto, a retração de vendas não causou desastre geral. Isso porque diante o cenário negativo muitas usinas decidiram migrar boa parte da produção para o açúcar.

No jargão do setor sucroenergético, essa migração é chamada de mudança do mix produtivo. Aqui vale um parêntese: com ajustes industriais é possível alterar o uso da cana para fazer etanol ou açúcar.

Trata-se de uma peculiaridade brasileira, já que essa estratégia não é possível, por exemplo, entre as unidades produtoras dos Estados Unidos. É que as usinas americanas usam milho como principal matéria-prima, e só podem produzir o biocombustível.

Retomada de alta diante oferta de açúcar

Agora é preciso retornar ao mix. O levantamento da UNICA destaca que desde o início da safra, em 1º de abril, a até 1º de julho, as usinas da região Centro-Sul do país produziram 13,3 milhões de toneladas de açúcar.

O volume supera em 48,75% o total do adoçante fabricado no mesmo período de 2019. Sendo assim, o mix está em 46,42% açucareiro e 53,58% alcooleiro. Entre abril e começo de junho do ano passado, o mix estava respectivamente em 34,66% e 65,34%.

O número de usinas que alterou o mix para o açúcar é incerto. Afinal a decisão de fazer um ou outro produto é da empresa. De outro lado, se o mix açucareiro seguir como estava até 1º de julho, significa que as usinas do Centro-Sul irão produzir no mínimo mais 4 milhões de toneladas por mês até o fim de novembro, quando tradicionalmente a moagem de cana é concluída.

Somando, daria um total de 33,3 milhões de toneladas entre abril e fim de novembro. Ou 25% acima dos 26,7 milhões de toneladas fabricados na safra anterior.

Não bastasse, há mais três ingredientes que fortalecem o mix açucareiro

Primeiro: analistas otimistas apostam que o Brasil deverá exportar 30 milhões de toneladas no ano safra (abril/20 a março/21). Um indicativo disso é que no acumulado de doze meses (1º/07/20 e 1º/07/19) foram embarcados 21,8 milhões de toneladas, destaca Arnaldo Luiz Corrêa, diretor da Archer Consulting.

O segundo ingrediente diz respeito ao mercado internacional de açúcar. A safra de cana na Índia, segundo maior produtor depois do Brasil, começa em outubro. E, até o momento, as projeções indicam para um crescimento entre 12% e 18%.

Como não é possível estimar a demanda por açúcar no pós-pandemia, também é chutar demais fazer projeção sobre se a oferta e os estoques serão suficientes para o consumo mundial.

Por fim, o terceiro ingrediente diz respeito às chamadas fixações, termo do mercado sucroenergético para fazer contratos futuros de entrega do produto na Bolsa de Nova York.

Clique aqui para saber mais a respeito.

Na segunda metade de junho, por exemplo, a Archer estimava que 21 milhões de toneladas de açúcar da safra vigente estavam fixados. Significa que, na média, essas fixações façam a tonelada de açúcar valer R$ 1,3 mil. É um valor considerado remunerador para a usina.

Em resumo, pode sim sobrar açúcar caso as usinas sigam com o mix atual.

Safra mais curta e oferta de etanol

Mas o que tudo isso de açúcar tem a ver com a tendência de retomada de alta do consumo de etanol? Novamente há três situações que embasam as projeções positivas para o biocombustível.

Na primeira delas está o preço da gasolina. Desde janeiro e até o último dia 13 deste mês de julho, a Petrobras já subiu por sete vezes o valor do combustível fóssil nas refinarias.

E não vai parar por aí. Isso porque economicamente muitos países já começam a viver o período pós-pandemia, com o consequente aumento do consumo de combustíveis.

Consumo maior implica em alta nos preços do petróleo e, desta forma, sobe também o valor da gasolina. E isso favorece a venda e consequentemene aumento no consumo de etanol. Ainda nessa primeira situação, tem a posição dos países integrantes do conjunto Opep+.

Esse conjunto integra os países produtores tradicionais e aliados que decidirão, até o fim deste mês, se manterão o corte na produção diária de barris de petróleo. Se mantiverem, e a demanda crescer, os preços tendem a subir.

Agora a segunda situação que acalenta o etanol. Caso o consumo nacional do hidratado retome a média de julho a dezembro de 2019, quando ficou em 1,8 bilhão de litros ao mês, serão necessários extras 10,8 bilhões de litros.

Desta maneira, o setor teria de alterar novamente o mix, desta vez em favor do consumo de etanol.

Mas isso é possível de ser feito?

Tecnicamente, sim. No entanto, é preciso avaliar se haverá cana-de-açúcar suficiente para atender a produção já comprometida de açúcar. No mais, os indicativos são de que a moagem está na média 5% mais acelerada que a anterior. E, assim, a safra pode terminar antes de dezembro por falta de matéria-prima.

De todo modo há também as usinas de etanol de milho. Inicialmente, a previsão era a de que elas fariam 3 bilhões de litros neste ano. A pandemia e o preço do milho – que ficou mais caro – mudaram os rumos, mas, ainda assim, essas unidades podem triplicar os 500 milhões de litros feitos até 1º de julho em dados da UNICA.

Enfim, o mercado para o etanol internamente sinaliza retomada, como aliás Energia Que Fala Com Você já previu em 09 de junho último.

Saiba mais sobre consumo de etanol: Vendas de etanol sinalizam retomada de crescimento

Tendências do consumo de etanol

A tendência otimista, no entanto, enfrenta percalços. Um deles é a concorrência do etanol feito nos EUA. Circulam notícias de que o governo americano já faria pressões para a entrada de mais combustível de milho deles no Brasil.

Nos primeiros quatro meses deste ano, estudo da UNICA destaca que as importações de etanol dos EUA totalizam 142,6 milhões de litros. É um volume que representa quase metade do importado no mesmo período de 2019.

Além do mais, o real desvalorizado favorece o dólar e encarece, assim, o consumo do etanol americano.

Por fim, em que pese a sombra de adversários o setor sucroenergético tem pela frente um cenário otimista para o etanol. E que faz a crise de consumo recente já ficar na história.