Fontes renováveis de energia entram no radar mundial de investimentos – e o Brasil tem muito a ganhar com isso

0
826
Renováveis entram no radar mundial de investimentos – e o Brasil tem muito a ganhar com isso
Electricity workers and pylon silhouette

País detém tecnologias para atender demandas internacionais

As fontes renováveis de energia ganham atenção mundial. A produção de energia elétrica fotovoltaica solar e eólica, assim como de biocombustíveis, entraram de vez no radar dos investimentos.

Os motivos dessa guinada refletem o modo de como o mundo enxerga os renováveis em função da pandemia da Covid-19. Essas fontes se tornam protagonistas por serem responsáveis pela melhoria do meio ambiente e, sendo assim, trabalham em favor da saúde.

Clique aqui para saber mais sobre a importância dos biocombustíveis no combate ao novo coronavírus.

Recentemente o jornal britânico The Guardian publicou estudo da Universidade de Sidney, na Austrália. Nele é apontado queda recorde de 2,5 bilhões de toneladas de emissões de poluentes por conta da Covid-19.

Feito entre o fim de fevereiro e maio, o estudo detectou que os EUA e a China tiveram as menores reduções de poluentes. Clique aqui para ler a publicação do jornal.

“Não dá para comemorar esse dado, apesar de ser positivo para o planeta, sabendo que é resultante do confinamento por conta da pandemia”. Relata Jacyr Costa Filho, membro do Comitê Executivo do Grupo Tereos, em seu perfil no LinkedIn.

Segundo Jacyr, que também preside o Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp; o estudo “serve de alerta de que precisamos continuar, urgentemente, avançando no desenvolvimento de projetos em nível global para redução das emissões.”

Ele conclui citando o programa de Estado RenovaBio, em vigor no Brasil desde janeiro deste ano. O programa incentiva o maior uso de biocombustíveis para reduzir emissões de gases poluentes nos transportes.

Em linhas gerais, o RenovaBio é um ótimo exemplo de como o Brasil ocupa a liderança mundial. Isso, no combate às emissões de gases de efeito estufa.

Meta de mais renováveis na Europa

A União Europeia (UE), por exemplo, segue firme no propósito de cumprir a meta de ter 20% de energia renovável em sua matriz.

Esse percentual integra programa de 2015 no qual os países do bloco reduziriam (ante 1990) em 20% a emissão de gases de efeito estufa. Com ele, também o consumo energético, bem como aumentariam em 20% a percentagem de renováveis na rede.

No entanto, em fevereiro último, antes do início da pandemia, a UE já relatava que não conseguiria alcançar as metas neste ano. Clique aqui para ler mais sobre o assunto.

Contudo, é preciso destacar que enquanto os países do bloco europeu tentam ampliar para 20% a presença de renováveis em sua matriz energética, no Brasil essas fontes já beiram os 20%.   

Conforme a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME); em 2019 as fontes renováveis eólica, biomassa, biogás e solar totalizavam 19,6% de participação na matriz energética nacional.

O montante é dividido em 9,3% de eólica, 8,9% de biomassa e biogás e 1,4% de solar centralizada. Se for incluída aí a fonte hidrelétrica, que também é renovável e tem fatia de 63,8%, a participação do grupo salta para 83% da matriz.

Clique aqui para ler mais a respeito.

Os 19,6% de renováveis biomassa, biogás, eólica e solar tendem a crescer substancialmente por conta do crescente número de empreendimentos.

No tocante a biogás de resíduos de cana, existem dois bons exemplos no interior paulista; a Raízen, que deve iniciar neste semestre as operações de sua planta na usina Bonfim. E a Cocal, que por enquanto começa em 2021 a produção de biogás para injeção na rede da GasBrasiliano.

Já em relação a eletricidade movida a biomassa de cana, o número de empreendimentos é de 225, segundo levantamento da Secretaria de Energia e Mineração do Estado de São Paulo com dados de maio deste 2020.

Canaviais têm potencial a ser explorado

Mas existe um mercado a ser explorado nos canaviais. O Brasil utiliza somente 15% do potencial de geração de energia elétrica pelo setor sucroenergético.

Por exemplo: das 361 usinas de cana em operação, 146 ainda não oferecem excedentes de energia elétrica para a rede.

“Isso mostra o potencial que a geração renovável e sustentável de energia elétrica apresenta no setor sucroenergético brasileiro”. Destaca Zilmar de Souza, gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar.

Ainda no setor sucroenergético, o etanol é protagonista em favor do meio ambiente. Na comparação com a gasolina, ele chega a reduzir em até 92% as emissões de gases de efeito. O relato é de Eduardo Leão de Souza, diretor da UNICA.

De olho no potencial ambiental do etanol brasileiro, o mercado externo vai às compras.

Entre abril e primeira quinzena de julho, as usinas da região Centro-Sul do país exportaram 573 milhões de litros. Trata-se de um montante 62 milhões de litros superior às vendas externas do biocombustível registradas entre abril e todo julho de 2019. Os dados são da UNICA.

O avanço das solares e das eólicas

A corrida pelos renováveis também abrange em cheio as fontes fotovoltaicas solar e eólicas.

No caso das usinas solares, os novos investimentos privados deverão somar R$ 19,7 bilhões neste ano. Somando os segmentos de geração distribuída (sistemas em telhados e fachadas de edifícios) e centralizada (grandes usinas). O dado é da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).

Clique aqui para saber mais sobre o ‘boom’ das solares.

O avanço das fotovoltaicas também é registrado no segmento de usinas eólicas.

A fonte eólica já é a segunda maior da matriz energética brasileira depois da hidráulica, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). No primeiro semestre do ano, emenda a entidade, os 637 parques eólicos e 7.738 aerogeradores chegaram a uma capacidade instalada de 16 gigawatts (GW).

As eólicas seguirão trajetória de alta porque os parques geradores não emitem gás carbônico (CO2). Apenas em 2019 fora evitada as emissões de 22,85 milhões de toneladas do poluente, segundo a ABEEólica.

É um montante a ser levado em conta, até porque representa sozinho quase 2% de tudo que o mundo economizou de toneladas de poluentes em três meses da pandemia da Covid-19.

Imagem de usinas em meio a trabalho.
Foto: Usina São Martinho/Wikimedia Commons

Créditos de descarbonização sinalizam mercado otimista

Os negócios vão além dos produtos renováveis. É o caso, por exemplo, dos créditos de descarbonização, os CBIOs.

Eles integram a estrutura do programa de Estado RenovaBio. Neste sentido, a usina pode se candidatar a cadastro, passa por auditoria e, uma vez oficializada, está apta para emitir e vender os créditos.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o país tem 361 unidades produtoras em operação. E, delas, 211 estão cadastradas no RenovaBio.

O número de cadastradas é de 21 de julho, conforme divulgação de Miguel Novato, diretor do Ministério de Minas e Energia (MME).

De volta ao CBIO, cada um equivale a uma tonelada de gás carbônico (CO2). Neste caso, ele é liberado para a usina conforme sua ‘nota de eficiência’. Ou seja: quanto menos poluentes ela usar no processo de fabricação do biocombustível, melhor a ‘nota’.

O crédito é emitido pelo número de litros de etanol. De forma simples, funciona assim: se a ‘nota’ for excelente, 700 litros médios produzidos dão direito a um CBIO. Se a pontuação for ruim, o número de litros necessários passa de 1 mil.

Os CBIOs já têm compradores compulsórios, que são as distribuidoras de combustíveis. Conforme o RenovaBio, elas precisam compensar através dos créditos as emissões de gases de efeito-estufa da gasolina e diesel vendidos.

Aqui é preciso um parêntese; com a queda nas vendas de combustíveis principalmente entre março a maio, por conta do isolamento via covid-19, as distribuidoras reivindicam revisão no total de CBIOs. Estes, que precisam adquirir em 2020.

A solicitação ainda estava em andamento quanto a finalização deste conteúdo. Porém, independente de qualquer mudança, ela mantém o peso de solução ambiental do CBIO.

É que, além dos compradores compulsórios, os créditos podem ser adquiridos por investidores e empresas de qualquer canto do mundo. Sendo eles interessados em um ativo financeiro que possa gerar remuneração ou que sirva para ‘quitar’ passivos ambientais.

No entanto, o crédito também protagoniza polêmica tributária.

O MME estrutura proposta de Medida Provisória sobre a incidência da carga tributária sobre o CBIO para produtores, distribuidoras e investidores do mercado.

Pelo que foi divulgado, a proposta prevê alíquota de 5% em 2021, subindo para 15% em 2023.

Mesmo em meio a essa pendência, a comercialização de CBIOs segue.

Novato, do MME, divulga em artigo que até 21/07 já foram comercializados cerca de 33 mil créditos em nove negociações registradas.

Conforme ele, existem no mercado mais de 2 milhões de CBIOs aptos a serem negociados na B3. Este, a Bolsa de SP oficializada para realizar as transações.

As mudanças tributárias e de projeções de vendas são percalços já esperados na vida dos CBIOs. Os projetos entraram oficialmente no mercado no fim do primeiro semestre deste ano.

Clique aqui para ler mais sobre os CBIOs.

Em resumo, se o crédito mantivesse as estimativas iniciais, o setor sucroenergético poderia disponibilizar 29 milhões de CBIOs em 2020. Cotados em média por US$ 10 a unidade, os títulos movimentariam US$ 290 milhões.

Trata-se de um volume focado no investimento em melhorias de eficiência na produção de etanol com menos combustíveis poluentes e produtos agressores ao meio ambiente.  

Ou seja: além de gerar remuneração para investimentos, os créditos do RenovaBio ajudam o Brasil a manter sua estratégica liderança mundial de redução de gases de efeito-estufa por meio de biocombustíveis.