Geradores de energia renovável devem ampliar vendas para países vizinhos

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Os geradores de energia renovável deverão ampliar a venda de eletricidade para países vizinhos. Essa comercialização é regulamentada, por exemplo, junto a Argentina e o Uruguai, que estão interconectados eletricamente com o Brasil.  

E esse tipo de negociação já realizado. A comercializadora Tradener, por exemplo, é autorizada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) para exportar energia interruptível para os dois países vizinhos.  Mas o mercado de venda de eletricidade brasileira tende a avançar.

A largada foi dada pelo MME, que está com consulta pública aberta desde 29 de julho. Por meio desse processo, o Ministério colhe participações com o objetivo de formatar diretrizes para “exportação de energia elétrica sem devolução destinada países vizinhos interconectados eletricamente com o Brasil.”

Detalhe: essa energia comercializável deve ser de excedentes energéticos transmissíveis de fontes renováveis.

Ou seja: a proposta é vender excedentes de eletricidade cujas fontes sejam solar, eólica e de biomassa – esta última é composta, em sua grande maioria, por bagaço de cana-de-açúcar. A fonte hidráulica também está contemplada, desde que gerada por pequenas usinas.

Energias renováveis e audiência pública

“Esse movimento contribui para o fortalecimento da integração energética entre o Brasil e seus países vizinhos, com evidentes ganhos aos agentes econômicos e aos consumidores de energia elétrica”, destaca o MME em nota técnica. Clique aqui para ler a íntegra dessa nota.

As participações na consulta pública estão abertas até o próximo dia 27 deste mês. Quer saber mais? Clique aqui para acessar a website do MME com acesso à consulta. E quando esse novo mercado será criado?

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que há limitações atuais de linhas de transmissão entre Brasil e Argentina e Uruguai.

“As linhas só podem transportar energia em potência total de 2 mil megawatts (MW)”, afirma Walfrido Ávila, presidente da Tradener, em entrevista ao Energia Que Fala Com Você.

Segundo ele, os 2 mil MW equivalem a 3% dos 62 mil MW médios da carga gerada, ou seja, do consumo e das perdas de energia no sistema.

No entanto, Energia Que Fala Com Você apurou que o teto de linhas de transmissão poderá ser aumentado em caso de crescimento do mercado de exportação de energia. Isso porque há investidores de olho no mercado de eletricidade da América Latina.

Enxugamento e entrada de novos atores

A ampliação do mercado exportador de energia elétrica serve para enxugar o excedente atual, uma vez que o consumo caiu diante os meses de isolamento pela Covid-19. Apenas em junho, por exemplo, o consumo nacional de eletricidade foi 3,4% menor ante igual período de 2019, destaca conteúdo da Agência Brasil.

Por sua vez, o excedente energético atual deverá ser absorvido rapidamente por conta da recuperação econômica e, assim, do aumento da demanda. A entrada em cena do novo mercado exportador de energia para países vizinhos também deverá incentivar novos atores na geração de energia renovável.

Esse estímulo se dá, por exemplo, pelo valorizado dólar, moeda de negociação do megawatt-hora (MWh) nesse mercado livre de energia.

Foto: Ceise BR/Divulgação

Novo mercado estimulará geração por biomassa

Atualmente, o setor sucroenergético tem possibilidade de gerar excedentes renováveis de energia elétrica, porém essa geração extra envolve a gestão da biomassa própria, a aquisição de biomassa de terceiros, ou seja, investimentos e custos que têm barreiras no setor elétrico para sua viabilização.

“Nesta linha, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) parabeniza o Ministério de Minas e Energia (MME) por buscar estabelecer diretrizes para a exportação de energia elétrica interruptível, destinada à Argentina e ao Uruguai, proveniente de fontes renováveis termelétricas, desde que não afete a segurança do sistema brasileiro”, relata ao Energia Que Fala Com Você o gerente de bioeletricidade da entidade, Zilmar José de Souza.

“Tal modalidade poderá contribuir para estimular essa geração extra pela biomassa, hoje não implementada pelas barreiras regulatórias e comerciais presentes no setor elétrico”, emenda.

Dificuldade no caminho dos geradores de energia renovável

Contudo, Zilmar destaca sobre uma dificuldade que se apresenta numa primeira análise. “É que essa modalidade de exportação de energia para a Argentina e Uruguai somente estará disponível para usinas de geração renovável (eólica, solar, biomassa e pequenas hídricas) despacháveis, ou seja, que estão à disposição do Operador Nacional do Sistema (ONS)”, relata.

“Como a maioria absoluta das usinas à biomassa funciona em função do processo de fabricação de etanol e açúcar, no sistema de cogeração, essa será uma barreira que teremos que quebrar para tornar a modalidade de exportação de energia a países do Cone-Sul viável e efetivamente interessante ao setor.”

Por outro lado, o executivo destaca que a UNICA apresentará sugestões “para contornar essa condição da plena disponibilidade imposta pelo MME, observando que atuamos em cogeração de energia na maior parte das usinas térmicas à biomassa.”

“Uma das ideias que estamos analisando é permitir que excedentes mensais de produção de bioeletricidade, gerados depois que cumprimos os contratos de venda no mercado brasileiro, isto é, acima da nossa garantia física, possam ser contemplados na modalidade de exportação de energia para a Argentina e Uruguai”, comenta. “Estamos esperançosos que o MME avalie positivamente nossas sugestões.”