Com projeções otimistas, usinas de cana se preparam para a próxima safra
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Assim como em outros setores, a pandemia do novo coronavírus provocou estragos no agronegócio. O nome foi dado para a cadeia produtiva agrícola que começa no plantio e vai até o produto final. Não foi diferente no setor produtivo de usinas, que emprega a cana-de-açúcar e o milho para fabricar, entre outros, etanol, açúcar e eletricidade. Em vista disso, as usinas de cana se preparam para a próxima safra

No caso do etanol, o consumo caiu de forma drástica em abril, auge da pandemia. Ou seja: os veículos flex consumiram 1,208 bilhão de litros de etanol hidratado neste mês. Foram 600 milhões de litros – ou 33% – a menos do que em abril do ano passado. Dados foram divulgados pela Unica, entidade representativa do setor (saiba mais aqui).

A queda no consumo de hidratado seguiu até meados de agosto. No entanto, não afetou tanto os negócios das 367 usinas de cana que, segundo a ANP, estão em operação no país em 2020. 

Por que não afetou? Porque as unidades podem alterar o mix produtivo. Melhor dizendo: elas têm condições de ajustar o parque industrial para produzir mais ou menos etanol e açúcar. 

Como o mês de abril coincide com o início do ciclo produtivo – ou safra – nos estados da região Centro-Sul. Simples, eles são responsáveis por 80% da produção nacional, a maioria das usinas optou por fabricar mais açúcar. Deu certo. Havia necessidades externas do adoçante e o dólar acima de R$ 5,00 valorizou as exportações. 

Favorecendo a produtividade das usinas de cana para a próxima safra

Ademais, um ingrediente climático favoreceu a produtividade agrícola: a estiagem prolongada. É que a seca promove a concentração de açúcares na cana e permite maior produção com mesmo volume de matéria-prima.

Conforme a Unica, no acumulado entre abril e 16 de novembro, o indicador Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) assinala 145,17 kg por tonelada de cana na safra vigente. Já a safra 2020/21, alta de 4,29% ante o valor da temporada anterior.

Assim, as usinas do Centro-Sul fizeram até o dia 16 de novembro 11 milhões de toneladas de açúcar a mais do que o acumulado da safra anterior (leia mais aqui). 

Mas além do concentração de açúcar, a estiagem também acelerou os trabalhos de colheita da cana. Isto é, uma vez que a seca favorece os processos das colhedoras. 

Resultado: as usinas do Centro-Sul processaram 585,73 milhões de toneladas de cana até 16/11, crescimento de 3,69% sobre mesmo período de 2019, destaca a Unica. Com isso, praticamente já foi processada toda a cana destinada para a safra. Ou seja, já que as estimativas indicam em média 595 milhões de toneladas para a temporada. 

Leia também: O que as usinas de etanol podem esperar do governo de Joe Biden? 

A temporada canavieira de 2020 rendeu outro resultado positivo. 

Pedro Fernandes, diretor de Agronegócios do Itaú BBA, fez a seguinte avaliação à Reuters; “Estamos em ano de importante desalavancagem, a receita cresce bastante, a geração de caixa cresce bastante, investimento crescendo de forma mais comedida em relação ao ano passado. Até porque o ano foi desafiador (pela pandemia). (Mas) é um ano de importante desalavancagem.”

Aí vem a pergunta; há motivos para preocupação se o real enfraquecido impulsionou as exportações de açúcar; houve ganhos produtivos de concentração de açúcar e há desalavancagem? 

Sim, há. O principal nó está na área agrícola. Já que os canaviais são responsáveis por 60% da produção de cada litro de etanol ou do quilo do açúcar; os demais 40% vêm da indústria. 

Em resumo, a mesma estiagem que favoreceu os ganhos de concentração de açúcar pode penalizar a cana a ser ofertada para o ciclo produtivo 2021/22. Este que na região Centro-Sul começa tradicionalmente em abril. 

Em entrevista ao portal de conteúdo Energia Que Fala Com Você em 11 de novembro, o economista Haroldo Torres; gestor de projetos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (PECEGE); avalia a próxima safra do ponto-de-vista agrícola. Confira:

Efeitos no desenvolvimento das usinas de cana e a preparação para a próxima safra

“Tivemos em 2020 um ano extremamente seco, dos mais secos de nossa história.

E isso trouxe dois grandes efeitos; o primeiro é o desenvolvimento muito fraco de algumas variedades de cana plantadas durante o período de estiagem.

E, o segundo, é o avanço da cana nas áreas que acabaram incendiadas. Isso danificou soqueiras [cana em fase de produção] e o desenvolvimento da própria planta.”

Safra começa em abril?

“Quando se fala em abril próximo, é preciso lembrar que, diante a situação, algumas usinas de etanol já planejam iniciar mais tarde a safra 21/22. Isso em função da necessidade de se esperar maior desenvolvimento da planta. 

Sendo assim, poderemos ter uma entressafra [período entre o fim de uma safra e o começo da outra] mais longa. Isso porque a safra 20/21 acabou mais cedo [normalmente vai até dezembro], devido ao clima seco e a moagem acelerada, e a próxima começará mais tarde.”

Oferta de cana

“Assim, o risco e o impacto que possam surgir em termos de moagem [processamento da cana] na próxima safra serão em oferta limitada de planta, em função do seu desenvolvimento no Centro-Sul, embora tudo isso depende ainda das chuvas de verão. 

Outra questão é a possível redução de oferta de cana por conta da menor área plantada. Isto é, seja por redução de plantio ou da migração para cultivo de soja por fornecedores de cana. 

Sendo assim, haverá impactos de produtividade de cana em função da seca, das queimadas e da redução de área cultivada.”

Mercado permite previsões otimistas

Em que pese as dúvidas sobre a área agrícola do ponto de vista de mercado, o setor produtivo de cana-de-açúcar tem projeções pra lá de otimistas. As perspectivas por sua vez, são para 2021. 

Uma delas diz respeito às exportações de açúcar. Essas vendas geralmente são fixadas nas bolsas internacionais em ‘telas’ (datas específicas) ao longo do ano. Sendo assim, o pagamento do adoçante vem antes da entrega física. 

“O câmbio deve ficar relativamente estável [em 2021], o setor estará bem financeiramente em março e estará bem em março de 2022, e dado o nível de fixação futura, independente de eventuais oscilações de preço do açúcar, acho que são anos em que o setor se recapitaliza”, disse à Reuters Pedro Fernandes, diretor de Agronegócios do Itaú BBA.

As usinas de cana na próxima safra aos olhos de Phillipe Casale

Em linha com este raciocínio, Phillipe Casale, gerente de relações com investidores da Cosan – sócia da Shell na Raízen, controladora de 26 usinas de cana -, relatou ao Valor que para a próxima safra (21/22) já foram travados (com hedge) “pouco mais” de 70% do açúcar a ser embarcado, a um valor médio de 65,5 centavos de real a libra-peso, indicador internacional do adoçante. 

Mais ainda: Casale destaca que a companhia já planeja travar a venda do açúcar para a safra 2022/23. “O ganho de competitividade do açúcar brasileiro com a desvalorização do real tem gerado excelentes oportunidades. Os preços em reais têm atingido máximas históricas, incentivando a fixação com retornos crescentes para os próximos anos”, disse o executivo ao Valor. 

Assim como a sócia da Raízen, muitas outras produtoras de açúcar seguem a ‘cartilha’ de fixar o adoçante. Por isso, em que pese as dúvidas sobre o desempenho da área agrícola, o radar para 2021 apresenta perspectivas bem otimistas de mercado para as usinas de cana-de-açúcar.