Especialistas avaliam estratégias do 5G para a Indústria 4.0

A entrada da tecnologia 5G no Brasil está nas mãos do governo federal. Depende dele e da agência reguladora Anatel, por exemplo, promover o leilão de faixas de radiofrequências necessárias para estruturar a internet de quinta geração. 

As últimas informações oficiais destacam que o leilão deverá ser realizado no primeiro semestre de 2021. 

Em suma, o padrão de internet móvel 5G integra uma novela que este Energia Que Fala Com Você já destacou (clique aqui para ler a respeito). 

Mas enquanto o consumidor pessoa física torce pela chegada do sucessor do 4G para ter a prometida velocidade de conexão até 90 vezes maior, as empresas do segmento industrial também estão na torcida, mas por outro motivo.  

No caso, os empresários do setor esperam com ansiedade porque a quinta geração é estratégica para consolidar a Indústria 4.0 (leia a respeito aqui).

Colocada em prática com a conexão disponível pela 4G, a quarta revolução industrial esbarra em cumprir plenamente sua proposta de fundir o mundo físico, digital e biológico por meio de tecnologias. 

Sendo assim, a migração para 5G possibilitará maior capacidade, flexibilidade e ampliação de casos de usos ligados à inteligência artificial, ‘machine learning’, realidade virtual, manutenção preditiva e outros ingredientes da Indústria 4.0. 

Sugestões e avaliações sobre o 5G na Indústria 4.0

Em meio à expectativa de regulamentação e do leilão de frequências necessárias para a implantação do 5G, especialistas de empresas e instituições ligadas diretamente ao assunto apresentaram suas avaliações no webinar “Redes Privadas em 5G para o avanço da Indústria 4.0.”

Realizado em 10 de dezembro pela organização da Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade (FIEE) e pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o evento online incrementa o tema com sugestões que ainda podem ser adotadas pelos gestores públicos. 

Energia Que Fala Com Você apresenta a seguir essas sugestões e avaliações apresentadas pelos participantes do webinar. 

‘Cardápio’ oferecerá faixas para redes privada e pública

Representante da Anatel, Agostinho Linhares, gerente de Espectro, Órbita e Radiodifusão da Agência, destacou, em sua participação no webinar: 

Rede privada: 

“A Anatel tem trabalhado há tempos para disponibilizar mais faixas de frequência nas redes privada e pública. Será um cardápio. Empresa poderá contratar diretamente com operadora, mas setor também poderá acessar faixas em ondas milimétricas, por exemplo.” 

“[A Agência] trabalha com simplificação regulatória para que entidades (empresas) tenham acesso ao espectro. Não haverá mais a dificuldade que existia antes.”

 “Ainda há muito o que evoluir mesmo nos países com 5G. No Brasil temos piloto com o 5G em faixas usadas pelo 4G. E, na questão das redes privadas, entramos com testes em momento adequado.

Espectro:

“O Brasil está bem situado na expectativa de 2021. Irá gerar expectativa positiva: o espectro (de faixas de frequência) valerá por vários anos, o que dará garantia [para a indústria].” 

“Rede local é tendência mundial”

Diretor da Comissão Setorial IoT da Abinee, Francisco Giacomini Soares pontuou, em sua participação, sobre as redes locais 

Proteção dos sistemas em uso

“Quero chamar a atenção  para a necessidade de importância de proteger os sistemas existentes. A Abinee apoia esse tipo de análise e, nesse aspecto, é importante alguns ajustes regulatórios para que isso ocorra.”

Redes locais

Ao redor do mundo o conceito de rede local tem sido aplicado. Há casos de licenças nacionais e de redes locais, para uma fábrica ou aplicação privada. Nós não temos. Talvez seja preciso uma regulação.”

 “A rede local é tendência mundial. O conceito de redes privadas é bastante amplo e abrangerá gama de oportunidades para operadores e pequenos operadores.”

Baixa latência

“O grande diferencial do 5G é a questão da baixa latência, que começa a ser introduzida.”

“É isso quem irá trazer confiabilidade na mobilidade. Antes havia preocupação porque não havia confiabilidade desejada e agora haverá.”

“A confiabilidade é que trará maior eficiência nos processos produtivos. Irá melhorar a produção remota, ou uma fábrica com vários robôs produzindo e se comunicando com 5G de baixa latência, obviamente a produção será melhorada – e muito. Trará grande benefício para a indústria 4.0.”

“A baixa latência, associada à confiança, será diferencial enorme na produtividade de todos.” 

“5G possibilita uso dedicado via operadora ou provedor de infra”

Guilherme Spina, diretor executivo da WEG/V2COM, está na coordenação de projeto na fábrica da WEG em Jaraguá do Sul (SC), que cria ambiente real de manufatura para uso de ferramentas já disponíveis no 5G para gerar valor na indústria. 

Em sua participação, discorreu sobre esse projeto, além de avaliar os rumos da quinta geração da internet: 

Avanços em várias áreas 

“O 5G é uma coleção de tecnologias, apanhado de avanços em várias áreas.”

“O 5G traz desagregação da infraestrutura. Até agora, a oferta de infra e de redes móveis era monolítica: os fornecedores ofereciam tudo. No 5G começa a desagregação, possibilitará o uso dedicado e que será provida por provedor de infra ou operadora. Essa infra pode ser local ou

 remota. É semelhante ao que ocorreu com o cloud.”

“O usuário final poderá escolher entre ser dona da infra ou usar essa infra por novos operadores.”

Conectividade geral

“Qual o estado da oferta do 5G? Tem-se o release 15, que não é aquele que todos falam em relação a baixa latência e conectividade geral.”

“Já o release 16 deverá ter oferta comercial no primeiro semestre de 2021. Com ele, teremos a baixa latência.”

“Inserção ao espectro por meio da concessão de faixas”

Sergio Sevileanu, Sales Manager Smart Grid Telecom da Siemens, destacou, em sua participação, como a empresa pretende atuar em 5G rumo à Indústria 4.0.

Momento histórico

“Temos momentos históricos, com o surgimento do 5G, com conexão entre máquinas, com altas taxas de transmissão.”

Espectros 

“Sobre espectros: a Anatel planeja o maior leilão da história. A Siemens, junto com a Abinee e com a ABDI, quer inserir a indústria no acesso ao espectro, não por meio de leilão, mas pela concessão das faixas.” 

“Podemos usar, via benchmarking, o caso da Alemanha, que tem modelo de 10 a 20 anos, de longo prazo. Importante para a indústria, que precisa do longo prazo. E, depois, usa ou devolve o espectro. Há prazo para colocar rede em funcionamento, tipo um ano.”

“O licenciamento da frequência na Alemanha não é burocrático, voltado também para as pequenas empresas.”

Wifi industrial 

“Vejo o 5G mais do que substituto do wifi. É um complemento do wifi industrial, de alta capacidade. Complementa principalmente as coberturas. Temos sites industriais, veículos que se deslocam. 5G vem para cobrir essa necessidade.”

Redes privativas

“O modelo de redes públicas prioriza concentração e poder aquisitivo dos smartphones. O grande avanço será as redes privativas.”

“Como plataforma de competitividade, baixa latência, o 5G é o que precisa para fazer a digitalização industrial. Faz coleta de dados, gera ganho de competitividade.”

“Outro ponto: fala-se muito em computação na nuvem. Não necessariamente quer-se liberar na nuvem. Se há site industrial expõe na internet via rede pública. Se será rede privada, será diminuído o ataque privado.”

“5G será habilitador das tecnologias 4.0”

Marcela Carvalho, assessora da presidência da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), destaca a estratégia do 5G para a Indústria 4.0. 

Promoção do desenvolvimento 

“Em relatório de 2020, com foco na industrialização na era digital, a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial relata que as tecnologias de produção avançada em manufatura têm o poder de promover desenvolvimento econômico e sustentável. A indústria é o principal meio de desenvolvimento econômico e sustentável.”

Habilitador

“O 5G será habilitador das tecnologias 4.0.”

“O que o 5G traz: a possibilidade de conectividade de equipamentos em rede, com segurança, confiabilidade e grande capacidade de processamento das informações.”

“Se há grande capacidade de produção com respostas em tempo real, e se podemos realimentar com elas, o processo produtivo será grande.”

Maturidade digital 

“Como o Brasil está com índice de maturidade digital com 1,98 em ranking que vai até 4, significa que estamos no meio.”

Tecnologia 4.0

“Em  2018, a CNI revelava que apenas 1,6% das empresas industriais estão na quarta revolução industrial. Isso indica que estamos no caminho da adoção das tecnologias 4.0.”

“O 5G irá acelerar esse processo no Brasil.”

Cooperação técnica 

Em novembro, a ABDI formalizou acordo de cooperação técnica com a Anatel, com testes de desempenho e dispositivos em antenas 5G tanto para o setor privado como para o processo regulatório de redes privadas de 5G.”

“O Acordo terá pilotos de acordo com o que se faz no resto do mundo em relação ao 5G para redes privativas.” 

Fornecedores

“É importante desenvolver novos fornecedores porque falta tecnologia que já considerava disponível e não há. É uma lição importante que temos e precisamos desenvolver essa cadeia para fazer frente às necessidades.”