O avanço dos biocombustíveis é um caminho sem volta no mundo. A China adiou, mas pretende seguir no programa de adição obrigatória de 10% de etanol à gasolina (leia mais aqui). Já os EUA seguem a proposta de empregar 15% do biocombustível à gasolina em todos os seus estados (mais a respeito aqui).

Não faltam projetos de países focados em empreender etanol e biodiesel, entre outros biocombustíveis. No Brasil é diferente. Aqui não se fala em projetos, uma vez que esses combustíveis renováveis já fazem parte da história.

Basta citar o etanol – antes chamado álcool combustível – que abastece motores a combustão desde os anos 70, primeiramente com carros movidos 100% ao derivado da cana e, desde então, para atender aos mais de 40 milhões de veículos flex que, segundo o Sindipeças, integram a frota nacional.

Além do etanol, o biodiesel também já integra a história brasileira. Extraído a partir da soja e de outras fontes agrícolas, ele é injetado atualmente em 12% a cada litro de óleo diesel.

Não fica por aí. Há outros exemplos de biocombustíveis, como o bioquerosene de aviação, e existem o biogás e o biometano.

Esses dois últimos são produzidos a partir de subprodutos da cana e, no caso do biogás, ele tanto pode ser transformado em energia elétrica como em biometano, que pode substituir o gás natural veicular (GNV) em motores de caminhões aptos a rodarem com esse combustível.

Biometano é a ‘bola da vez’

Os caminhões movidos a biometano estão no radar das montadoras. A Scania, por exemplo, já disponibiliza modelos no mercado (mais aqui) e comercializou 50 deles.

Em recente webinar promovida pela Fenasucro Trends, o engenheiro de produto da Scania Brasil, Emilio Fontanello, fez questão de revelar que a empresa investe em diversos projetos de desenvolvimento e produção de motores que usem biocombustíveis como o biometano.

“Uma das vantagens do biometano é que os insumos podem ser utilizados para a produção do gás e, posteriormente, podem ser reutilizados como fertilizantes para as mesmas propriedades”, disse o executivo no webinar. “Outra expectativa é que o excedente de produção pode ser comercializado, gerando maior rentabilidade para as usinas.”

Que o biometano pode ser considerado a ‘bola da vez’ do setor sucroenergético, disso ninguém duvida – principalmente entre os atores do universo de usinas.

Um dos motivadores da produção desse biocombustível é que ele diminui o chamado ‘ciclo de vida’ do etanol porque substitui o poluente diesel nos caminhões empregados na colheita de cana e nos demais processos de produção.

Sendo assim, o biometano ajuda a usina certificada no programa de Estado RenovaBio a emitir créditos de descarbonização, os CBios, a partir de menor produção de etanol.

É que pelas regras, a usina gera um CBio a cada determinado número de litros, digamos 1 mil. Com ‘ciclo de vida’ melhor, pode emitir o crédito com bem menos litros produzidos. Clique aqui para saber mais sobre esses créditos.

Fora a estratégia do biometano em fortalecer a gestão da usina certificada no Renovabio, vem a pergunta que não se cala: como produzir e utilizar esse biocombustível?

Aí entra a GasBrasiliano, distribuidora de gás em área de concessão estendida pela região Noroeste do Estado de São Paulo, onde estão 375 municípios. Gestora de gasoduto que vem da Bolívia, a empresa tem malha de dutos vizinha de 140 usinas de cana.

Paulo Lucena, Diretor Técnico-Comercial da GasBrasiliano apresenta detalhes sobre produção de biometano.
Paulo Lucena, diretor técnico-comercial da GasBrasiliano.

Em entrevista ao Energia Que Fala Com Você, o diretor técnico-comercial da GasBrasiliano, Paulo Lucena, apresenta detalhes sobre produção de biometano e explica estar aberto para parcerias com as usinas interessadas em produzir o biocombustível.

A GasBrasiliano está pronta para atender com gás natural frotas de caminhões de usinas, caso elas decidam investir em veículos movidos a GNV?

Paulo Lucena – A GasBrasiliano está pronta para atender frotas pesadas das usinas localizadas em sua área de concessão. Tecnologias como a diesel-gás e aplicações 100% gás já estão disponíveis e consolidadas para frotas de caminhões, com resultados em testes que demonstram a viabilidade técnica e econômica da aplicação.

A substituição do diesel em outros equipamentos agrícolas, como colhedoras, tratores e motobombas, é mais um desafio de logística de abastecimento do que tecnológico, uma vez que esses equipamentos permanecem grande parte do tempo operando dentro dos canaviais.

Esse desafio, entretanto, pode ser superado com soluções criativas que já estão sendo exploradas e testadas com total respaldo da GasBrasiliano. Estamos localizados em uma região que reúne cerca de 140 usinas, uma privilegiada condição para o desenvolvimento deste mercado.

A empresa já atende caminhões de usinas com gás natural? Se sim, cite volumes.

Paulo Lucena – Recentemente, em agosto de 2020, a GasBrasiliano conectou a primeira usina de açúcar e etanol do Brasil à rede de distribuição de gás natura: a Usina Santa Cruz, unidade da São Martinho localizada em Américo Brasiliense (SP), sendo este um marco histórico no setor sucroenergético e na indústria do gás.

E pretendemos viabilizar a conexão de muitas outras usinas. Em um primeiro momento, estão sendo abastecidos três caminhões, sendo dois Diesel/Gás Mercedes Axor 440 próprios e um Scania R410 100% em comodato.

O consumo é, em média, de 12.000 m3/mês (substituição de 12.000 litros de diesel).

Sobre biometano: ele tende a crescer em oferta? Neste caso, a GasBrasiliano está aberta a parcerias com usinas interessadas em produzir esse combustível renovável?

Paulo Lucena – Sim, a oferta de biometano tende a crescer nos próximos anos e a GasBrasiliano está totalmente aberta a parcerias com usinas nesse sentido. Seguindo essa tendência, a empresa firmou parceria com a Zeg Biogás, especializada na produção e comercialização do Gasbio, nome dado ao seu biometano.

O objetivo da GasBrasiliano, com esta parceria, é desenvolver estudos de pesquisa & desenvolvimento para viabilizar a conexão ao gasoduto das principais agroindústrias da região, com alto potencial de produção de biometano oriundo dos efluentes de seus processos produtivos.

A iniciativa visa garantir o acesso do biometano ao mercado consumidor tanto industrial quanto de frota pesada, permitindo a ampliação da produção pela Zeg Biogás e viabilizando a oferta do energético renovável pelas redes de distribuição da GasBrasiliano.

A parceria também buscará fomentar novos usos do biometano e gás natural na própria agroindústria produtora, como a substituição do diesel em frotas e maquinários agrícolas, para elevar a competitividade e otimizar a pegada de carbono.

Como?

Paulo Lucena – Inicialmente as empresas pretendem concentrar sua atuação nas usinas de açúcar e etanol, pois a produção gera quantidade de vinhaça, composto rico em carga orgânica, que pode ser explorada para produção de biometano, com redução nas emissões de gases do efeito estufa resultante da decomposição da vinhaça, que atualmente é aplicada no campo.

Vimos nesta parceria a oportunidade de ampliar a rede de gasodutos da GasBrasiliano, fomentar a substituição do diesel nas usinas, viabilizar a produção do biometano e ainda oferecer uma alternativa de energia limpa aos nossos consumidores.

É bem possível que usinas certificadas no RenovaBio queriam investir para melhorar sua pegada de carbono e as notas de eficiência e, assim, produzirem mais CBios com menos quantidade de etanol. Um desses investimentos pode ser rodar com caminhões a gás, que já emite menos CO2 que o diesel.

Paulo Lucena – Sim, esta é uma tendência e estamos preparados para atender a demanda, seja levando a rede de distribuição até as usinas e possibilitando a instalação de ponto de abastecimento local, como foi executado na Santa Cruz, com tarifa especial exclusiva para o segmento de frotas, uma excelente tecnologia comercial para veículos pesados, ou também o Gás Natural Comprimido (GNC), transportado por caminhões até o ponto de abastecimento da usina.

A GasBrasiliano tem projeto de planta de biogás/biometano em unidade da Usina Cocal. Como está?

Paulo Lucena – A Arsesp [agência reguladora do Estado de São Paulo] publicou na quinta-feira (10/12) a aprovação para a execução do projeto Cidades Sustentáveis. A Deliberação Arsesp número 1093, de 09 de dezembro de 2020, pode ser verificada no site da Agência (aqui).

O empreendimento de construção da Planta de Biogás já está concluído em 70% conforme fotos apresentadas na audiência pública realizada em 13/11/20, representando o compromisso da Cocal Energia Ltda. com o referido empreendimento e sua total viabilidade.

De acordo com o cronograma da GasBrasiliano, responsável pela construção de 65 quilômetros de rede, a previsão para o início da distribuição do biometano a Presidente Prudente partindo de Narandiba, cidade onde a Cocal está localizada, é julho de 2020.

O potencial de produção da planta é de 24 mil metros cúbicos/dia de biometano, equivalente 8,9 milhões de metros cúbicos ao ano.