Por que a decisão do Japão de acabar com os veículos a gasolina abre oportunidades para as usinas de etanol do Brasil

Governo japonês pretende ter apenas motores elétricos e eles podem rodar por meio de células a hidrogênio produzidas pelo biocombustível.

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Decisão do Japão de acabar com os veículos a gasolina abre oportunidades para as usinas de etanol do Brasil
Tóquio. Crédito foto: Victor Palmer/Pixabay

O Japão apresentou no último dia de Natal uma ambiciosa proposta:  eliminar os veículos movidos a gasolina nos próximos 15 anos. 

Com isso, o governo pretende zerar a emissão de carbono. 

Por sua vez, essa meta faz parte do plano de crescimento sustentável até 2050 que, segundo noticia a Agência Reuters, prevê o investimento de quase US$2 trilhões por ano. 

A boa notícia acalenta os japoneses com o presente natalino ambiental, mas também pode favorecer a indústria de etanol do Brasil. 

Como assim? 

É que a estratégia do Japão é substituir a venda de novos veículos movidos a gasolina por veículos elétricos, incluindo, segundo a Reuters, veículos híbridos e movidos a célula de hidrogênio. 

Célula de hidrogênio: é aí que podem ser abertas oportunidades para usinas de etanol do Brasil. 

Mas o que é célula de hidrogênio e o que ela tem a ver com o biocombustível da cana? 

Em resumo, as células a combustível são dispositivos eletroquímicos que convertem energia química em um combustível (hidrogênio) diretamente em energia elétrica e calor e são consideradas uma tecnologia promissora para produção de energia, relata (leia aqui) o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), que tem centro de pesquisa focado em células a combustível e hidrogênio. 

Normalmente, o método usado para produzir hidrogênio é a partir da reforma a vapor de hidrocarbonetos como o metano, fonte não renovável. Outra fonte pode ser o etanol, este sim renovável. 

Vamos a um exemplo de como funciona um motor elétrico movido a célula-combustível a hidrogênio.

A Toyota já comercializa no Japão o modelo Mirai, que integra motor elétrico, uma bateria, dois tanques de hidrogênio de alta pressão e a célula-combustível a hidrogênio. O assoalho do veículo contém uma estação e é nela que ocorre a reação química para fazer o Mirai se movimentar (leia a respeito aqui).

A montadora destaca que o veículo capta o oxigênio da atmosfera e o leva até a estação, para onde o hidrogênio contido nos tanques é direcionado e onde é dividido pela célula-combustível em duas moléculas, o que gera uma carga elétrica. 

É essa carga que faz o Mirai rodar. Sabe qual a autonomia de rodagem sem necessidade de reabastecimento? 650 km, segundo a empresa. 

Leia também: Por que os fornecedores de bens e serviços são estratégicos para as usinas

Vantagens do etanol na produção de hidrogênio

O Ipen destaca (aqui) que do ponto de vista econômico, produzir o hidrogênio a partir do etanol é melhor. Trata-se de uma alternativa interessante para reduzir o custo final do processo, atesta. 

Mais: “a reação de reforma a vapor do etanol também apresenta certa vantagem, como o etanol a ser usado nesta reação precisa ser diluído”, relata.”

Além de possuir alta eficiência energética para processar o hidrogênio, o etanol, conforme o Ipen, é dotado de infraestrutura de produção e distribuição bem definida no País. 

Sim, essa infra é gigantesca: quase 400 usinas produtoras espalhadas por 15 estados e perto de 45 mil postos com bombas de etanol. Ou seja: há biocombustível de sobra para ajudar no processo das células a combustível. 

Toda essa infra pode ajudar o Brasil nas tecnologias de células a hidrogênio com etanol. Entre outras parcerias em desenvolvimento, estão a da Unicamp com a montadora Nissan (ler aqui).

Mas como viabilizar o hidrogênio ‘de etanol’ brasileiro no Japão? 

Transportá-lo? 

Pode ser uma alternativa, com custos elevados, mas é. Outra delas é investir em plantas próprias de produção de etanol. 

Pedro Mizutani, hoje presidente do Conselho de Administração do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), era executivo da Raízen em 2019 e passou os primeiros meses daquele ano no Japão com uma agenda bem definida: incentivar a introdução do etanol combustível no país. 

“O etanol também precisa ser adotado nos transportes no país que é destaque em tecnologia”, disse Mizutani na época ao JornalCana (leia aqui). 

A disseminação produtiva do etanol pelo mundo é um pilar defendido há muito por lideranças brasileiras do setor. 

Sendo assim, criar plantas de biocombustível no Japão pode até exigir tempo, mas existe tempo e é preciso lembrar que as metas do governo local são para a partir de 15 anos. 

Por fim, o setor sucroenergético do Brasil tem tecnologia de sobra e os fornecedores – sejam eles agrícolas ou da indústria – possuem capacidade para implantar projetos greenfields nos quais a usina começa a produzir em um prazo mínimo de dois anos. 

Enfim, se o Japão contemplar a célula a hidrogênio a etanol o setor sucroenergético brasileiro terá pela frente uma nova janela de oportunidades.