Quer saber os rumos do RenovaBio? Confira as projeções do presidente da associação das certificadoras

Entre outras avaliações, Felipe Bottini estima quando todos os produtores estarão certificados e em até quanto será possível reduzir o número de litros de etanol para emitir um CBio.

O RenovaBio, Programa de Estado que valoriza o etanol, biodiesel e demais biocombustíveis como potenciais redutores de emissões de poluentes, entra em seu segundo ano de vida. 

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Do lado dos produtores, no entanto, o Programa está muito bem encaminhado. Por exemplo: nada menos do que 85% do etanol produzido no País já está devidamente certificado pelo RenovaBio, segundo a Unica, entidade representativa do setor (leia mais aqui). 

E como deverá ser este segundo ano do RenovaBio?

Para entender mais sobre o assunto, Energia Que Fala Com Você entrevista Felipe Bottini, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Verificação e Certificação de Inventários de Emissões e Relatórios Sócio-Ambientais, a Abraveri

Em resumo, a entidade congrega as empresas responsáveis pelo processo de certificação da unidade produtora de biocombustível junto às instituições públicas. 

Bottini ‘respira’ RenovaBio desde que ele era projeto então em discussões técnicas. Também dirige a Green Domus, primeira certificadora a oficializar uma unidade de etanol no Programa, no caso a Usina Boa Vista, do Grupo São Martinho, localizada em Quirinópolis (GO). 

Aproveite. 

O universo de biocombustíveis deve somar entre 450 e 500 produtores ativos. O levantamento mais recente da ANP, de 05/01, lista 239 unidades certificadas no RenovaBio. Sendo assim, falta certificar cerca da metade das unidades produtoras de biocombustíveis. 

Felipe Bottini – Em termos de quantidade de biocombustível, já há aproximadamente 80% da produção certificada. Acredito que a entrada dos faltantes acontecerá nos próximos 12 a 24 meses

O incentivo virá da percepção que a participação no programa é uma oportunidade de geração de resultados a um custo muito baixo. Isso vai se revelar pelos resultados das usinas de capital aberto [caso, por exemplo, da São Martinho, Raízen e da Biosev].

Felipe Bottini, presidente da Abraveri. Crédito: Arquivo Pessoal.

Quantas firmas inspetoras e responsáveis por certificação temos hoje no Brasil? E quanto está em média o valor do processo de certificação?

Felipe Bottini – Existem hoje 9 firmas inspetoras. Não existe valor médio [pelo processo]. Depende da quantidade de áreas a serem analisadas, da complexidade do processo, se são relatados dados primários ou dado padrão, do tipo de biocombustível produzido, etc. 

Entretanto, existe uma grande responsabilidade da certificadora, pois sua opinião irá gerar um ativo com valor monetário. 

A qualidade do trabalho e uma abordagem de mitigação de risco são mais importantes que o preço da certificação, que é irrisório quando analisado sob a ótica de ganhos. 

O custo da certificação raramente é maior que 1,5% da receita anual que se atingirá uma vez que a produção seja certificada.

A certificação tem validade de 3 anos? Ou seja, se a unidade terá de renovar o processo após esse prazo e pagar novamente a firma inspetora? 

Felipe Bottini – Sim, mas como dito anteriormente, o custo da certificação é inferior a 1,5% da receita do primeiro ano, ou seja, inferior a 0,5% da receita de 3 anos, que é a validade do certificado. 

Cabe ressaltar que as regras de monitoramento anual são extremamente complexas e podem gerar riscos de certificação e reputacionais aos emissores primários. 

Existe a perspectiva do Programa também aceitar a certificação anual como uma opção a não monitorar os critérios de elegibilidade e nota de eficiência nos anos subsequentes à certificação.

Isso vai mitigar imensamente o risco de certificação e também de haver falhas importantes na asseguração do lastro ambiental no Programa.

Qual é a média de número de litros de etanol de cana para a emissão de um CBio? 

Felipe Bottini – Depende se é etanol anidro ou hidratado. O anidro tende a gerar mais CBios com menor volume, por ter uma concentração energética maior por litro. Um número médio para o etanol é 905 litros para gerar 1 CBio.

É possível obter eficiência e chegar, por exemplo, a um CBio por 500 litros de etanol ou menos? 

Felipe Bottini – A ideia do Programa é incentivar o ganho de eficiência, permitindo às usinas mais eficientes terem um ganho superior pela geração de CBios. 

Hoje a certificação com o melhor fator de emissão de CBios (lembrando que o fator é resultado da eficiência e da elegibilidade combinados), é de 726 litros para emitir 1 CBio. 

Acredito que há espaço para melhora, mas 1 CBio a cada 500 litros só é possível hoje para certificação de biocombustíveis oriundos de resíduos, por exemplo biodiesel de sebo de boi. Isso porque as emissões agrícolas não são incorporadas na avaliação de ciclo de vida.

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Usinas já buscam a recertificação no RenovaBio

Já existem usinas certificadas em processo de melhorias da nota para obter mais certificados com produção menor de etanol? Se sim, quantas? E como fazer essa recertificação?

Felipe Bottini – Já existem algumas usinas em processo de recertificação, nenhum finalizado ainda. Parte delas busca incorporar melhora da eficiência, parte busca a substituição de dados padrão por dados primários, que têm o mesmo efeito de melhorar a nota.

Uma usina certificada no RenovaBio pode também certificar-se em programas como o de energia renovável I-REC e comercializar os certificados desse programa? Há também os C-Bonds. É possível a usina também vendê-los?

Felipe Bottini – Não há no RenovaBio nenhuma previsão para se evitar dupla-contagem. Cabe à usina fazer uma avaliação de integridade ambiental nas suas operações. 

Se estiver gerando CBios como resultado de uma operação que, entre outras coisas, co-gera e vende eletricidade, deve prescindir de reivindicar transações ‘de emissões de carbono evitadas’ que tenham origem na mesma operação.

Em sua avaliação, o que o setor produtivo pode esperar nesse segundo ano do RenovaBio?

Felipe Bottini – Na minha visão o programa foi um sucesso. Mais de 60% dos produtores aderiram ao Programa, houve a emissão de aproximadamente 20 milhões de CBios e o mercado observa cada vez mais solidez nas transações desses títulos. 

O setor pode esperar o amadurecimento do programa neste segundo ano e iniciar o movimento de expansão do setor, que é necessário para o longo-prazo do fornecimento de CBios e atingimento da meta do programa.