Retorno dos EUA ao Acordo de Paris abre oportunidades para o etanol brasileiro
(Foto: Reuters)

Uma das primeiras decisões de Joe Biden no primeiro dia em que tomou posse como presidente dos EUA, em 20 de janeiro, foi determinar o retorno do país ao Acordo do Clima de Paris. 

Assim como o Brasil e outros 193 países, os Estados Unidos foram signatários do Acordo firmado no fim de 2015. 

Mas de que trata este Acordo? Em resumo, ele estabelece metas para que os países consigam manter o aquecimento global abaixo de 2oC. 

Por sua vez, uma das metas é reduzir as emissões de gases geradores de  efeito estufa, caso do dióxido de carbono, o CO2, expelido pelos combustíveis fósseis. Leia mais a respeito aqui.  

Entretanto, não demorou muito e em 2020 o então presidente Donald Trump retirou os EUA do Acordo. Motivo alegado: “feria a soberania do país e era desvantajoso para os interesses da economia americana” (ler mais aqui). 

A saída dos EUA gerou um baque de proporções mundiais. 

Mas a maioria dos países integrantes do Acordo seguiu em frente e, no caso do Brasil, por exemplo, foi criado o programa de Estado RenovaBio, no qual é reconhecido o potencial dos biocombustíveis para ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa (saiba mais aqui).

Leia também: Corrida das empresas para reduzir impactos ambientais está apenas no começo 

Os motivos das oportunidades para o etanol 

Por isso, a anunciada volta dos EUA trouxe otimismo também de proporções mundiais. Afinal de contas, ter ao lado um país como os Estados Unidos pode acelerar o cumprimento das metas do Acordo. 

Há também a questão dos biocombustíveis. Eles são estratégicos porque sequestram CO2 e, assim, auxiliam na redução das emissões dos gases. 

E é aí que entra o Brasil, exemplo mundial na produção de etanol, biodiesel e demais biocombustíveis. Esses podem ajudar os EUA e outros países no cumprimento de suas metas no Acordo?

Para responder à pergunta entender mais a respeito, o portal Energia Que Fala Com Você entrevistou Eduardo Leão de Sousa, diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), entidade representativa do setor. 

Leia a entrevista completa:

O que significa o anúncio do retorno dos EUA ao Acordo de Paris para o setor sucroenergético brasileiro?

Eduardo Leão de Sousa – A volta dos EUA ao Acordo de Paris e aos compromissos com a redução de emissões de gases causadores de efeito estufa pode fortalecer o setor de biocombustíveis, beneficiando tanto a produção de lá como a de cá. 

O etanol americano e o brasileiro têm um papel muito relevante na redução da emissão do setor de transportes e são uma solução aplicável em praticamente todos os mercados na frota de veículos com motor a combustão. 

Ao ter uma das maiores economias globais apostando nessa solução, fortalecemos o mercado como um todo, potencializando o comércio internacional de etanol carburante e efetivando o combate às mudanças climáticas. 

O fato de o setor sucroenergético brasileiro já possuir o RenovaBio pode favorecer a participação do Brasil na política de mitigação de poluentes dos EUA? 

Eduardo Leão de Sousa – O biocombustível brasileiro já participa da política de mitigação de poluentes dos EUA. 

O etanol de cana-de-açúcar nacional é considerado um combustível avançado, com redução de emissões superiores a 90% quando comparado com a gasolina e uma eficiência ambiental equivalente à de combustíveis de segunda geração, segundo a legislação norte-americana. 

O RenovaBio cria mecanismos para uma redução ainda maior da pegada de carbono, o que deve resultar em um desempenho que supera as marcas atuais.

Vale destacar que o Brasil, como nenhum lugar do mundo, está com 85% da sua produção de etanol certificada e com a pegada de carbono mensurada, com total transparência e credibilidade.  

O Brasil já exporta etanol de cana para estados americanos como a Califórnia, onde já existe um ‘RenovaBio’ próprio. Bastará, assim, importar mais etanol brasileiro se o governo americano quiser usar o etanol de cana para sua política de descarbonização?  

Eduardo Leão de Sousa – O etanol de cana já é um importante instrumento de descarbonização e poderá continuar a contribuir cada vez mais. Periodicamente, são definidos os volumes de cada tipo de biocombustível dentro da política de reduções de emissões norte-americana. 

Existe o potencial de, com as metas mais ambiciosas, abrir-se espaço para um maior uso de biocombustíveis avançados. 

Isso é um aspecto. Outro, com até maior potencial, é a efetivação da mistura de 15% de etanol na gasolina, que vem sendo postergada há anos. O E15, como é chamado, teria a capacidade de absorver todo o etanol excedente das destilarias dos EUA e ainda demandar mais alguns bilhões de litros.  

O etanol de milho produzido pelos EUA não serve como mitigador de emissões de gases?

Eduardo Leão de Sousa – O etanol de milho é um importante mitigador de emissões de GEE. No entanto, quando consideramos a análise de ciclo de vida do produto, que avalia as emissões “do poço à roda”, o desempenho do etanol de milho acaba sendo inferior ao do etanol de cana-de-açúcar. 

No entanto, observa-se importantes esforços dos dois produtos em continuamente melhorar o seu desempenho produtivo e ambiental. Assim, em diferentes níveis, ambos contribuem para a mitigação do aquecimento global.