Entenda por que as usinas de cana deverão priorizar a produção de açúcar em 2021
Crédito: Grupo Moreno

Assim como em 2020, a produção de açúcar deverá ser o principal produto das usinas da região Centro-Sul em 2021.

As usinas do Centro-Sul têm peso porque respondem por 70% da produção nacional do adoçante. Ou seja: elas fabricaram 38,2 milhões de toneladas, ante 12 milhões de toneladas das usinas do Norte e Nordeste, segundo o último balanço da Unica, entidade representativa do setor (leia mais aqui). 

Por isso mesmo é estratégico para o mercado nacional e internacional saber já como deverá se dar o ciclo produtivo – ou safra, no jargão do setor – que no Centro-Sul começa oficialmente em 1º de abril, muito embora boa parte das unidades comece a produção antes dessa data. Em tempo: no Norte e Nordeste, a safra começa em agosto. 

E por que a tendência é novamente por uma guinada produtiva maior para a produção de açúcar e não de etanol? 

As explicações são várias. Mas, em síntese, podem ser respondidas por duas delas, conforme perspectivas do Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP

Primeira: os preços do açúcar estão favoráveis no mercado interno e a recuperação dos valores internacionais devem estimular a manutenção do mix mais açucareiro. 

Aqui vai uma breve explicação: ao contrário das usinas de milho, que só podem fazer etanol, as unidades de cana têm condições de definir se irão produzir mais açúcar ou etanol. Daí o termo mix maior para um ou outro produto. 

Exemplo: na safra 2020/21, que oficialmente termina no fim de março no Centro-Sul, a Unica destaca que o mix ficou em 46,22% para o açúcar e em 53,78% para o biocombustível, enquanto que no ciclo anterior o mix foi de 34,48% para o adoçante e de 65,52% para o etanol.

Leia também: Quer saber os rumos do RenovaBio?

Fixação maior explica tendência de maior produção de açúcar

Agora a segunda explicação do Cepea: o açúcar deverá novamente ser o principal produto no Centro-Sul porque “boa parte das exportações [do adoçante] já está fixada para a próxima safra, o que compromete a flexibilidade para inverter o mix.”

Para quem não é familiarizado, termos como ‘fixação de açúcar’ podem soar como de outro mundo. Sendo assim, segue uma breve explicação: essa operação significa fixar um preço em uma data futura para reduzir o risco de perdas decorrentes de variações nos preços do produto. Tal operação é feita em bolsa, principalmente na Bolsa de Nova York.

Para se ter ideia, a consultoria especializada Archer avalia que um total de 69% de todo açúcar projetado para ser vendido no exterior na safra 2021/22 já está devidamente fixado (ler mais aqui). 

Diante das estimativas, dá para dizer que as usinas do Centro-Sul também produzirão mais volumes de açúcar?

Em termos. As indicações apontam novamente para uma safra de mix mais açucareiro, mas não há garantias de volumes expressivos diante da safra 20/21.

Como assim?

As respostas para essa pergunta dependem da oferta de cana disponível para a safra 21/22. 

Com base em informações de empresas ligadas ao setor sucroenergético, o Cepea estima uma oferta de 585 milhões de toneladas. Esse montante pode aumentar até abril porque o crescimento vegetativo de boa parte da cana se dá justamente no primeiro trimestre do ano, quando há o período chuvoso. 

No entanto, se a oferta ficar em 585 milhões de toneladas, ela estará 12 milhões de toneladas abaixo da moagem registrada pela Unica em seu mais recente levantamento.

Em resumo, o Cepea indica que a produção do setor no Centro-Sul deverá ser menor por conta de “condições climáticas atípicas, como a estiagem entre setembro e outubro de 2020, [que] podem prejudicar o volume de cana e a concentração de ATR (Açúcar Total Recuperável).”

O ATR é entendido como indicador da qualidade da cana. Ou seja: quanto maior ele for, melhor para o rendimento. 

Na 20/21, projeção do Cepea estima que foram obtidos 145,13 quilos de ATR por tonelada, enquanto que para a 21/22 as expectativas apontam para 138 quilos de ATR por tonelada. 

Se somados ATR e oferta de cana menores, já é possível cravar que os volumes de açúcar serão menores que os registrados na safra 20/21 no Centro-Sul. 

Aqui vai um exemplo: com o ATR da safra ainda vigente, a Unica atesta que as usinas fizeram médios 63,95 quilos por tonelada. Já no ciclo anterior, no qual o ATR foi menor, a produção média ficou em 45,73 quilos por tonelada. 

No tocante à oferta, se ela cair mesmo em 12 milhões de toneladas, e a média do ATR ficar em 45,73 quilos por tonelada, serão por baixo menos 549 mil toneladas de açúcar que sairão das usinas. 

Os dados do parágrafo anterior incomodam em termos de produção, mas eles podem ser alterados conforme se chegar mais próximo do início da moagem em abril próximo. Mas independente dos volumes a serem fabricados, já está cravado que mais uma vez o mix das usinas do Centro-Sul será açucareiro.