O setor sucroernegético e seu potencial de crescimento, segundo Renato Cunha
Crédito: Agência CNA

Não é demais listar Renato Augusto Pontes Cunha entre os seletos executivos do mercado, que respiram cana-de-açúcar 24 horas por dia. Além disso, é passível que o profissional entenda sobre o setor sucroenergético e seu potencial de crescimento, como ninguém.

Ele pode ser encontrado tanto em Brasília, onde circula com demandas do setor a partir da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (Novabio) da qual é presidente executivo; como também em Pernambuco, onde fica a sede do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado (Sindaçúcar), do qual é presidente.

A chegada dos netos sossegou um pouco Cunha. “Hoje fico mais em casa com eles”, confidenciou a este jornalista em 2019, durante evento do setor em Araçatuba, no interior paulista.

Mas o anunciado sossego é físico, amplificado pela pandemia. Até mesmo porque Cunha segue não apenas antenado, como esbanja informações e propostas para melhorar o setor sucroenergético e seu potencial de crescimento não só do Norte e Nordeste, mas em todo o país. 

Confira nesta entrevista que ele concedeu ao portal Energia Que Fala Com Você.

Qual o seu balanço para a safra 2020/21, que chega ao fim nos estados canavieiros das regiões Norte/Nordeste?

Renato Cunha – A safra foi caracterizada por altos e baixos na demanda de nossos produtos, principalmente fruto da imprevisibilidade da pandemia.

Na produção propriamente dita, o regime de chuvas com distribuição irregular, levará a uma redução do total a ser esmagado, que deverá  girar entre 51 a 53 milhões de toneladas de cana. Será uma produção a da safra passada, porém sem crescimento.

Ainda em termos de produção, serão 3 milhões de toneladas de açúcar e 2,1 bilhões de litros de etanol.

As exportações foram favorecidas pelo câmbio?

Renato Cunha – O câmbio favoreceu o dólar nas exportações e acarretou equação mais adequada na safra em curso. Tem ainda a diminuição das importações do etanol, após a revogação das cotas que as isentam  de tarifas, que foi fator preponderante para uma maior estabilidade no setor sucroenergético e seu potencial de crescimento interno de etanol, tanto no Nordeste como em todo o país.

Qual o número de unidades produtoras ativas e qual a moagem média do Norte/Nordeste? 

Renato Cunha – O auge da moagem foi na safra 1986/1987, com 71 milhões de toneladas em 90 empresas. Na safra 1998/1999, foram cerca de 47 milhões de toneladas com 80 usinas e, em 2019/2020, esmagamos no Norte/Nordeste um total de 51 milhões de toneladas oriundas de 57 usinas.

Na safra atual são 53 unidades em operação. 

Houve algumas moagens acima de 60 milhões de toneladas, o que é um patamar de equilíbrio mais apropriado aos ativos industriais instalados.

Nas safras 2007/2008,08/09 e 10/11 foram moagens superiores a 63 milhões de toneladas.

Qual é o objetivo da moagem agora?

Renato Cunha – O esforço é enorme a fim de tentarmos o atingimento de um total de  60 milhões de toneladas nos próximos 7 a dez anos. Mas a depender de variáveis como clima, segurança hídrica, ganhos em produtividade, irrigação e sobretudo em previsibilidade das políticas do governo federal. 

Isso além de uma reforma tributária que estimule o grande empregador com o aproveitamento de créditos vinculados à geração de empregos, dentre outras medidas que diminuam e desonerem a carga fiscal de nossa economia, que aliás já ultrapassou em muito a racionalidade necessária para manutenção e ampliação de investimentos.

Contudo precisamos crescer, porém  com níveis de demanda que remunerem e superem todo o esforço que vem sendo feito em redução operacional de custos, fator que se associa sempre também com o foco em inovação.

O Nordeste registra a gestão de 4 usinas com cooperativas e que, mais recentemente, anunciaram um conglomerado para “potencializar o plano de negócios”. Qual sua opinião sobre esse tipo de gestão?

Renato Cunha – O associativismo é sempre muito saudável, ainda mais  em organizações que apresentam sinergias em seus planejamentos estratégicos, dentro de filosofias de governança que contemplam de forma sustentável o empreendedorismo gerador de  empregos, renda e tributos, ainda mais na nossa região que é carente de investimentos.

Agora em termos nacionais, como o sr. prevê a safra 21/22, incluindo o etanol de milho?

Renato Cunha – É uma previsão de mercado, que envolve números estimados e ainda parciais. Sinalizam em torno de 640 milhões de toneladas no país, resultando em cerca de 39 milhões de toneladas de açúcar e 31,6 bilhões de litros, sendo 29 bilhões de origem na cana e o restante de milho 

RenovaBio: quantas unidades do Norte/Nordeste estão certificadas, e o que falta para incentivar as demais à certificação?

Renato Cunha – Os Números que estamos acompanhando sinalizam mais de 30 empresas certificadas na nossa região.

O que é preciso ajustar no RenovaBio? A concepção “ambiental” do programa acarreta um nível de tributação de imposto de renda que estimula investimentos, o que não ocorre e precisa ser revisto rapidamente.

Um programa que envolve na sua essência sustentabilidade e que gera bônus ambientais, não pode permanecer sem competitividade no mercado financeiro.

As metas anuais ainda precisam ter regras mais claras, pois esse fator é crucial para a liquidez.

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Para finalizar, qual sua opinião sobre a discutida possibilidade de o governo federal voltar a intervir no controle de preços dos combustíveis? 

O controle de preços, se houver, tem que se relacionar muito mais com um monitoramento,do cumprimento de uma política clara e com regras prévias.

Um controle com intervenções imprevisíveis sempre desequilibraram o mercado, levando à obsolescência e a prejuízos para todos os envolvidos.