Etanol e cana-de-açúcar: mercado promissor na América Latina
Foto: Dinheiro Rural

Inicialmente, o etanol e cana-de-açúcar fomenta um mercado promissor na entrada em escala dos veículos elétricos. Além disso, gera grandes oportunidades para o setor sucroenergético na América Latina e Caribe, segundo Carlos Henrique Sáenz Acosta; presidente da Associação dos Técnicos Açucareiros da América Latina e Caribe (Atalac), parceira da Fenasucro & Agrocana.

Etanol e cana-de-açúcar: mercado promissor na América Latina

Em entrevista exclusiva ao portal Energia Que Fala Com Você, o executivo, que mora em San Juan, capital de Costa Rica, destaca que os motores a combustão terão longa sobrevida nos países latino-americanos.

Abertura do mercado de veículos elétricos e a abertura de portas para o etanol e cana-de-açúcar

De onde vem a afirmação que a entrada em escala dos veículos elétricos abre oportunidades para o setor sucroenergético?

Carlos Sáenz – A cana-de-açúcar terá papel importante no mercado de veículos elétricos porque é geradora de eletricidade. Isto é, por meio da cogeração já existente em usinas do Brasil e nos demais países do bloco América Latina e Caribe. Significa que a eletricidade da cana ajudará a abastecer a frota de veículos elétricos e abre mercado para o setor sucroenergético. 

Em sua avaliação, em quanto tempo o mercado de elétricos ganhará escala na América Latina?

Carlos Sáenz – Acredito que a partir de 2050, enquanto na Europa isso ocorrerá até 2030. 

Significa que o setor sucroenergético terá 29 anos para se tornar provedor de eletricidade para esse novo mercado na América Latina?

Carlos Sáenz – Sim. É preciso destacar que as usinas de cana da América Latina estão muito bem posicionadas para oferecer bioeletricidade, porque estão espalhadas pela maioria dos países do bloco. 

Custos na geração de bioeletricidade para venda ao mercado estão muito elevados. Apenas 11% do potencial da cana para uso em eletricidade de rede é usado. O que é preciso ser feito para incentivar a produção de bioeletricidade?

Carlos Sáenz – É preciso estimular o valor da bioeletricidade. A geração de energia elétrica pelas usinas é estratégica na maioria dos países latino-americanos com cana porque essa produção ocorre no período seco do ano, quando costuma faltar energia nas hidrelétricas. É preciso levar em conta. 

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E o que acontecerá com o etanol? 

Carlos Sáenz – O mercado de motores a combustão não vai acabar. A maioria das montadoras produz esse tipo de motor na América Latina e, sendo assim, haverá destinação para o etanol combustível. 

Qual sua expectativa de mercado para os motores a combustão?

Carlos Sáenz – Acredito que em 2050 teremos nos países do bloco 30% de motores elétricos e 70% de motores a combustão, a princípio.

Muito se fala nos elétricos, mas é preciso lembrar que as baterias são contaminantes. Como resultado, a rede de abastecimento pode ter eletricidade se instalada. 

E a mistura de etanol à gasolina tende a crescer na América Latina?

Carlos Sáenz –  Sim. Já é tradição em países como Argentina e Guatemala, por exemplo, além do Brasil, a adição do biocombustível ao fóssil.

Mas essa mistura tende a avançar até porque o etanol e cana-de-açúcar são importantes como gerador de empregos e movimentam todo um universo de fornecedores de equipamentos que vão de colhedoras a pivôs de irrigação. 

Qual sua opinião sobre o açúcar enquanto mercado?

Carlos Sáenz – Acredito que em parte a produção irá caminhar para variedades orgânicas de açúcar. Os mais jovens têm o conceito de que o açúcar tradicional não é ideal. Mas é preciso lembrar que quem hoje tem entre 80 e 90 anos de idade cresceu consumindo açúcar e têm saúde de sobra. 

É preciso fazer uma campanha lembrando isso. No entanto, em suma, não há problema se o consumo de açúcar for de forma moderada. 

A Atalac já realizou congresso em 2014 durante a Fenasucro & Agrocana. Qual a estratégia de uma feira como essa para o setor sucroenergético? 

Carlos Sáenz – A Fenasucro & Agrocana é a maior feira mundial focada no setor sucroenergético, isto porque apresenta tecnologias e equipamentos que só ampliam a produtividade desse setor.

Para nós, da Atalac, a feira complementa nosso trabalho porque buscamos sempre conhecimento para a eficiência das usinas. Esse foco conta também com centros de pesquisa e instituições como a STAB, sempre debruçada em favor de buscar ferramentas para o setor. 

O avanço da tecnologia é um caminho sem volta no setor sucroenergético, para o etanol e cana-de-açúcar? 

Carlos Sáenz – A princípio, a tecnologia é importante e estratégica. Veja o caso da automatização no campo. Antes uma usina esmagava 1,5 mil toneladas de cana por dia e atualmente, com a mecanização, chega-se a 30 mil toneladas diárias.

E a cana-de-açúcar, seguirá como cultura importante na América Latina?

Carlos Sáenz – Sim. Além de geradora de açúcar, etanol e bioeletricidade, precisamos destacar que ela ajuda o meio ambiente e tem baixo índice de contaminação. Isso acontece até em regiões em que é colhida crua, e por resultado, são queimadas. 

Depois de processada e industrializada, a cana gera subprodutos que se tornam fertilizantes. E é preciso destacar o importante papel da cana durante essa fase de pandemia de Covid-19, porque o etanol e cana-de-açúcar, como redutor de gases geradores de efeito-estufa, ajuda a limpar o ar e reduz problemas respiratórios.