Etanol como aditivo à gasolina_ação abre oportunidades para o Brasil
Crédito: APLA

Inglaterra e Índia estão entre os países que anunciaram programas de ampliação do uso do etanol como aditivo à gasolina, assim como a China também realiza estudos neste para seu uso como commodity. O portal Energia Que Fala Com Você já divulgou conteúdo a respeito, saiba mais em “Países querem ampliar mistura de etanol à gasolina“.

Os motivos da maior demanda pelo biocombustível residem, em grande parte, nos benefícios que ele proporciona para a saúde e o meio ambiente. Como resultado, as emissões de gases efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) chegam a ser 70% menores ante a do combustível de origem fóssil. 

E, no caso da saúde, estudo recém-divulgado (leia a respeito aqui) revela que em 2018 o uso do etanol como aditivo à gasolina e sua mistura em veículos flex evitou 371 mortes na Grande São Paulo por complicações relacionadas ao material particulado. 

Em suma, a menor ingestão desses materiais aumenta a expectativa de vida da população da região pesquisada em 13 dias.  

Diante tudo isso, não causa surpresa que a demanda mundial se volte para o etanol. 

Mas, como ter oferta se um prazo hipotético de dez anos o consumo saltar em 20 ou 30 bilhões de litros extras por ano? 

Tradicional produtor, o setor sucroenergético brasileiro tem credenciais de sobra em se tratando de expertise nesse biocombustível. Possui excelência para oferecer tecnologia de implantação de canaviais e de unidades produtoras em qualquer território viável para a produção. 

O cenário, sim, é positivo para o setor sucroenergético do Brasil. E especialistas já avaliam a proposta de o etanol como aditivo à gasolina se tornar commodity. Bem como a soja ou o café. 

Para entender mais a respeito, este portal de notícias entrevista Eduardo Leão de Sousa, diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), entidade representativa da cadeia produtiva de etanol de açúcar e de milho. 

Eduardo Leão de Sousa fala sobre o etanol como aditivo à gasolina e as oportunidades no Brasil
Foto: Arquivo pessoal Eduardo Leão de Sousa

Caso China e Índia confirmem adições de etanol como aditivo à gasolina. As previsões indicam a necessidade de oferta extra de 18 a 20 bilhões de litros anuais e isso pode acontecer em até 10 anos. Como atender a essa demanda?

Eduardo Leão de Sousa – As decisões da China e Índia serão, de fato, o divisor de águas para o mercado global de etanol. A China, já em 2017, sinalizou o seu interesse em tornar obrigatória a mistura de 10% de etanol como aditivo à gasolina em todo o território nacional. E a Índia impôs essa exigência de 10% de mistura a partir do próximo ano. E de 20% para 2030 ou até antes, conforme anúncio recente. 

Trata-se de dois países que, juntos, representam cerca de 37% da população global e cuja frota de veículos deverá mais do que triplicar nas próximas duas décadas, passando dos atuais 175 milhões de veículos para cerca de 600 milhões.

Que ganhos China e Índia terão?

Eduardo Leão de Sousa – Ambos os países terão fortes benefícios com o aumento do uso do etanol: enquanto a China detém o título nada honroso de maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, a Índia ocupa a terceira posição, além do que, as suas cidades estão entre as mais poluídas do mundo.

Some-se a isso o fato de que ambos os países têm forte dependência de petróleo importado, com um percentual que supera os 80% de suas necessidades de consumo interno. O etanol poderá endereçar de forma muito eficiente esses três desafios e, dessa forma, espera-se que, efetivamente, avancem nessa agenda nos próximos anos.

Como deve ficar a oferta para todo esse mercado?

Eduardo Leão de Sousa – Do ponto de vista da oferta, as duas realidades são um pouco distintas: no caso da Índia, a sua demanda poderá ser, num primeiro momento, quase que totalmente suprida pela produção doméstica visto que o país é um dos maiores produtores de cana-de-açúcar e açúcar, atrás apenas do Brasil, e os excedentes exportáveis desse açúcar poderá ser transformado em etanol. 

Já no caso da China, uma boa parte poderá ser suprida pelos elevadíssimos estoques de milho que o governo chinês vem carregando e o restante poderá ser suprido pelos Estados Unidos e/ou Brasil.

Suprir com produção excedente?

Eduardo Leão de Sousa – Importante mencionar que os Estados Unidos já produzem consideráveis excedentes de etanol, da ordem de 4 a 5 bilhões de litros ao ano e que, desde que haja uma clara sinalização, o Brasil poderá também rapidamente fazer os investimentos necessários para ampliação de sua oferta. 

Já fizemos isso no passado e poderemos voltar a fazer investimentos maciços em ampliação dessa oferta desde que a demanda esteja presente, ressaltando que isso se dará tanto pelo aumento da produtividade, quanto pelas novas tecnologias, como o etanol de 2ª geração, além da expansão sustentável a cana, principalmente em pastagens degradadas. 

Cálculos dão conta que a área atual de cana poderia ser multiplicada por seis, usando terras disponibilizadas pela mudança de manejo na pecuária, sem qualquer impacto em biomas sensíveis, como as florestas ou áreas de preservação.

Por conta de sua expertise sucroenergética, o Brasil pode contribuir com produções localizadas de etanol a partir de sua base de indústrias de base. Mas muitas dessas empresas hoje enfrentam problemas financeiros para auto investimento, mesmo com 30% de ociosidade.

Como resolver isso para que a indústria de base brasileira não perca mercado para indústrias de base de outros países?

Eduardo Leão de Sousa – De fato, a indústria de base, que havia feito um enorme esforço na expansão da sua capacidade entre os anos 2000 e 2010 para atender a demanda crescente por etanol no Brasil e no mundo, teve que, subitamente, fazer um forte ajuste econômico como consequência da maior crise recente do setor sucroenergético brasileiro, que ocorreu a partir de 2011. 

Em função de políticas erráticas e na contramão do resto do mundo, o governo da época optou por adotar um congelamento artificial da gasolina por cerca de 6 anos e pela eliminação da CIDE (Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico) sobre a gasolina, o que penalizou fortemente a competitividade do etanol. Como resultado, novos investimentos foram praticamente paralisados e cerca de 30% das usinas entraram em recuperação judicial e/ou fecharam as suas portas.

No entanto, felizmente, já se pode observar sinais importantes de recuperação nessa indústria, com oportunidades de novos negócios tanto no Brasil quanto no exterior.

Com o início da Política Nacional de Biocombustíveis, o Renovabio, a partir do ano passado, abre-se uma grande oportunidade de investimentos para o aumento da oferta de etanol, seja a partir da cana-de-açúcar quanto a partir do milho, que já representa cerca de 10% da nossa produção doméstica. No exterior, a partir do fortalecimento dos programas de etanol, como na Índia, China e alguns países da América Latina, também surgem boas oportunidades para a nossa indústria de base, que já começa a se revigorar. 

Trata-se de uma indústria que tem tradição e experiência muito forte e que tem sido responsável pelo aumento contínuo da competitividade do nosso açúcar e etanol no mundo, sendo reconhecida internacionalmente como fornecedora de tecnologia de ponta para a produção de açúcar e etanol, a exemplo da nossa tecnologia de destilarias flex que fazem etanol com caldo e melaço. 

A entidade que representa esse setor, a APLA (Arranjo Produtivo Local do Álcool) tem feito um excelente trabalho na divulgação da nossa indústria de base em diversos países, o que já tem se traduzido na retomada dos negócios. Segundo a APLA, somente no ano passado, foram exportados cerca de meio bilhão de dólares em máquinas, equipamentos e serviços para o setor sucroenergético mundial.  

Como estruturar preços e regular oferta e produção em caso de avanço mundial do consumo de etanol? É possível tornar o biocombustível em commodity? Se sim, como? 

Eduardo Leão de Sousa – A operacionalização de qualquer mercado depende de uma janela de oferta e demanda, certa previsibilidade e equilíbrio. No momento, temos políticas em implementação que podem ampliar a demanda significativamente. 

Para que a oferta acompanhe, é preciso confiança de que a demanda de fato ocorrerá. Essa tem sido uma das principais mensagens que temos passado nos países que visitamos quando falamos sobre uma implantação bem-sucedida de política de etanol: um das mais relevantes medidas é o estabelecimento de misturas na gasolina. Como por exemplo o etanol como aditivo à gasolina. Mas mais do que isso, que essa mistura seja efetivamente obrigatória, com contratos pré-estabelecidos entre produtores e empresas de petróleo.

A relação sólida e a garantia de compra estimulam os agentes privados, seja na construção de destilarias, no investimento em greenfields, na concessão de linhas de crédito. 

Não por acaso, as políticas de mistura são, via de regra, estabelecidas de forma paulatina, para que o setor privado possa se planejar adequadamente. Isso garante oferta adequada com preço aceitável.

No entanto, de forma a garantir uma segurança energética, minimizando riscos de abastecimento, é imprescindível que um maior número de países passe a consumir e a produzir o etanol. 

Isso permite um saudável fluxo do produto entre esses países produtores e consumidores, tornando o produto efetivamente uma commodity global. 

Com isso, garante-se a liquidez necessária para o comércio em bolsas de mercadorias e de futuros, o que permite uma maior segurança aos investidores e previsibilidade de preços futuros, assim como já acontece com as diversas outras commodities agrícolas globais. 

Trata-se de um círculo virtuoso, com ganhos para os investidores, consumidores e a sociedade como um todo.