Usinas ampliam uso de controle biológico para enfrentar pragas e doenças da cana
Foto: SIFAEG

Enfrentar as pragas da cana-de-açúcar por meio de controle biológico não é novidade. Há várias décadas, empresas produzem e empregam vespas para combater os inimigos dos canaviais. 

Ocorre que essas ‘armas’ naturais perderam espaço para os defensivos químicos, em muitos casos considerados mais eficientes. 

Ademais, o planejamento de controle de pragas canavieiras de muitas empresas sucroenergéticas prevê o emprego de ambas ‘armas’. Até porque as inimigas geram danos que infelizmente ainda não conseguem ser 100% eliminados pelos agentes biológicos. 

No entanto, de anos para cá o controle biológico ganha destaque entre usinas de cana-de-açúcar. Ou seja, as vespinhas vêm ocupando o lugar dos agroquímicos. E favorecem o meio ambiente, uma vez que as ferramentas biológicas não promovem agressões. 

Sendo assim, as usinas de cana seguem firmes na meta de gestão sustentável que coincide com programas já implementados no setor como o RenovaBio, no qual é incentivada a produção de etanol com menos emissões de gases de efeito-estufa. 

Esse programa de Estado gera os chamados créditos de descarbonização, os CBios, equivalentes cada um a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser emitida. Leia aqui mais sobre o RenovaBio. 

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Controle biológico avanço a passos largos 

Inexistem estimativas oficiais sobre o crescimento do uso de controle biológico pelas usinas autorizadas que, no total, somam 359 segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP. 

Mas que o emprego de vespas e outras armas biológicas avança a passos largos, disso ninguém duvida. 

Apenas em 2020, o Ministério da Agricultura (Mapa) registrou 56 novos produtos de baixo impacto para o agronegócio como um todo. 

Trata-se de um salto, uma vez que o Ministério tinha 21 desses registros no ano de 2010. 

Outro exemplo do salto dos biodefensivos, cujo mercado no país movimentou R$ 1,3 bilhão em 2020, 42% mais que em 2019, e deverá chegar a R$ 1,8 bilhão em 2021, segundo divulgação do Valor.

Esse avanço também possui respostas de produtividade agrícola, já que 60% de cada produto da usina vêm da cana, enquanto os demais 40% correspondem à área industrial. 

Para se ter ideia do poder de prejuízo de uma broca, o JornalCana relata que essa praga está presente em 67% das lavouras e as perdas podem chegar a 1,21%. 

Já no caso da cigarrinha, outra inimiga dos canaviais, ela pode atingir de 2 a 3 toneladas por hectare. É muito, muito mesmo, levando em conta que em média um hectare rende 80 toneladas.  

De olho na produtividade agrícola e em gestão sustentável, o setor sucroenergético avança no controle biológico. 

Desde 1999, por exemplo, a Jalles Machado, listada na bolsa e com duas usinas no estado de Goiás, mantém laboratório onde ‘produz’ a vespa Cotesia flavipes, que ataca a broca, principal praga da cana, ainda na fase de lagarta. 

A Jalles destaca que por mês o laboratório tem capacidade para produzir 35 milhões de vespinhas, que são distribuídas também nas áreas de cana convencional, com índices de infestação mais altos. Sabe o resultado? A organização se considera com incidência de ataques da praga abaixo de 3%

Na mesma linha, a BP Bunge Bioenergia, joint venture da BP e da Bunge controladora de 11 unidades produtoras e capacidade de moagem de 32 milhões de toneladas de cana, investe em alternativas biológicas com aportes tecnológicos. 

Funcionamento e desenvolvimento

As vespas de Cotesia Flavipes, nome oficial da combatente natural, são depositadas em recipientes e lançadas no canavial por drones. O lançamento segue planejamento georreferenciado para melhor eficiência de localização e, assim, gerar ‘missão’ com resultados adequados. 

“A evolução das pesquisas tem ampliado o leque de alternativas aos tradicionais defensivos agrícolas, o que é bom para o setor e melhor para o meio ambiente”, relata Rogério Bremm, diretor agrícola da BP Bunge Bioenergia. 

Por falar em desenvolvimento de pesquisas, está em curso a implantação do Centro de Pesquisa em Engenharia Fitossanidade em Cana-de-Açúcar, fruto de parceria entre a Usina São Martinho e a Fapesp. 

Orçado em R$ 8 milhões, divididos 50% entre cada parceiro, o Centro fica na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp em Jaboticabal, no interior paulista. 

Além de desenvolver estratégias contra pragas e doenças da cana por meio do controle biológico, para eliminar ou reduzir o uso de agrotóxicos, o Centro de Pesquisa também irá atuar, segundo a Fapesp, na área de biotecnologia e resistência de planta, focado sobretudo em cruzamentos convencionais para o melhoramento do cultivar. 

Vem aí, portanto, um novo ecossistema de inovação no país, empreendido entre parceria de instituição pública, a Fapesp, e um player do setor sucroenergético, a São Martinho.