Por que a oferta de energia nova cresce se a economia patina?

Apenas em março entraram em operação comercial 56% de toda eletricidade acrescentada no ano

Por que a oferta de energia nova cresce se a economia patina?
Crédito: Agência Brasil

Depois de amargar queda de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, por conta da pandemia, este ano o Brasil se prepara para crescer em estimados 3,17% o indicador que reflete toda sua produção. 

O cenário desalentador não é exclusividade brasileira. Mas em que pese a situação, o país tem avançado – e muito – na oferta de energia elétrica nova, essa que é produzida a partir de geradoras recém-inauguradas. 

Uma prova dessa expansão otimista está no mês de março último, quando a Aneel liberou para operação comercial nada menos do que 383,66 megawatts (MW) (saiba mais aqui). 

Para se ter ideia, esse volume representa 56% de toda energia nova liberada este ano para entrar em operação. Ou seja, em um mês o país ganhou mais da metade da eletricidade expandida desde janeiro. 

É até de se perguntar os motivos de tanto investimento em geração se a pandemia ainda gera incertezas na economia e, portanto, na retomada geral da indústria, que é grande consumidora de energia. 

Essa pergunta tem duas respostas. A primeira é que grande parte dessa energia nova é de empreendimentos que venceram leilões públicos de venda. 

Esses exigem datas para entrada em vigor dos geradores em contratos cuja média é de 30 anos. Sendo assim, não importa se a economia vai bem ou não, porque o vencedor é obrigado a cumprir o contrato, sob pena de pesadas multas. 

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Mercado livre ajuda a explicar o otimismo 

Tem, também, a segunda resposta. E ela atende pelo chamado mercado livre (leia mais a respeito aqui). 

Nesse caso, a energia nova surge para atender contratos de compra geralmente de grandes consumidores. E esse tipo de contratação cresce independente da pandemia. 

Um exemplo: em fevereiro último a geradora AES Brasil firmou contrato de venda de 21 megawatts-médio (MWm) pelo prazo de 20 anos para a Minasligas, uma das maiores produtoras de ferros silício e silício metálico do país. 

O avanço do mercado livre coincide, também, com a cada vez mais crescente opção dos consumidores em obter eletricidade de fonte renovável. 

Seja para cumprir exigências ambientais cada vez mais intensas no exterior, seja para atender a metas internas de descarbonização, esses clientes, geralmente da área industrial, preferem contratos por meio do mercado livre. Aqui, eles sabem a procedência da fonte geradora, o que não dá para checar no caso da distribuidora convencional, que adquire eletricidade de várias fontes. 

Essa checagem é prioritária se o consumidor tem metas comprometidas de descarbonização. Isso porque se a fonte da energia que ele compra vem do sol, do vento ou da biomassa, as emissões de gases de efeito estufa são baixíssimas. 

A situação é outra – do ponto de vista de emissões – se a eletricidade é de termelétrica movida a diesel,  ou gás natural. Aí vence a carbonização, o que hoje joga contra essas empresas. 

Energia gerada do vento lidera o ranking 

No ritmo crescente da oferta de energia nova, quem sai na frente é justamente a fonte renovável eólica. Do total de expansão de oferta em 2021, nada menos do que 87% (593,61 MW) vêm das geradoras movidas a aerogeradores, ou seja, do vento. 

Não é à toa que os estados brasileiros líderes em oferta de energia no mês de março são justamente os que têm empreendimentos de geração eólica, como Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. 

Confira o ranking de estados em geração de energia nova

Fonte: Aneel

As usinas eólicas têm forte presença no parque gerador do país. São 699 unidades geradoras em uma oferta total de 17.525 MW, segundo a Aneel. 

Trata-se de um peso bem pesado em geração, uma vez que a carga (energia gerada somada a perdas no sistema) em todo Brasil estava em 75,4 mil MW no dia 28 de abril, segundo o Operador Nacional do Sistema (leia mais aqui). 

As eólicas não param por aí. A Aneel projeta muito mais geração do vento em empreendimentos licenciados e que estejam em construção ou em projetos. 

Apenas nos geradores em construção, a fonte eólica representa 35,30% do total e, das obras não iniciadas, 28,45%. 

Quem é quem entre as fontes de geradores em construção e em projeto: 

Fonte: Aneel 

Para finalizar, o avanço da energia nova também possui papel estratégico em duas frentes. 

A primeira é de que serve de colchão de garantia para caso a economia retome em ritmo acelerado e os consumidores precisem de energia extra de uma hora para outra. 

A outra frente atendida por essa eletricidade nova é que ela está aí, liberada, para também assistir consumidores que possam ser vítimas de eventualidades como a ocorrida em 2019, em Manaus, quando, segundo a Agência Brasil, 200 mil moradores ficaram sem luz por conta de apagão.