Eletricidade de cana ajuda Brasil contra a crise energética
Foto: Jornal Cana

A eletricidade de cana, – também conhecida por bioeletricidade – ou a energia elétrica produzida a partir da cana-de-açúcar, pode ajudar o Brasil a reduzir – e muito – a atual crise energética.

O governo montou um comitê focado em tomar medidas para conter a crise, surgida a partir da escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, responsáveis por mais de 60% da energia elétrica produzida no país. 

Em meio a tudo isso, as usinas de etanol e de açúcar, que estão em safra entre abril e dezembro na região Centro-Sul, e de setembro a fevereiro próximos na região Norte-Nordeste, podem ajudar a amenizar de imediato o déficit de energia.

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Para explicar detalhes dessa possibilidade, o portal de conteúdo Energia Que Fala Com Você entrevista Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). 

Confira a entrevista completa sobre eletricidade da cana:  

Quanto de eletricidade as usinas de cana podem ofertar no curto prazo ao Sistema Interligado Nacional (SIN)?

Zilmar José de Souza – O valor estimado que poderíamos acrescentar em 2021 é de 1.249 gigawatts-hora (GWh). Somando 2021 e 2022, o potencial de geração extra pelo setor da biomassa seria 4.771 GWh.

É um volume significativo! 

De acordo com a UNICA, esses 4.771 GWh da eletricidade de cana, ou bioeletrcidade sucroenergética ofertados à rede representariam uma geração estratégica para o país, equivalente a:        

  • 1% do consumo anual de energia elétrica ou a atender 2,5 milhões de residências.                                                                                  
  • Reduzir as emissões de CO2 estimadas em 1,3 milhão de toneladas, marca que somente seria atingida com o cultivo de 9,3 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos.                                                                               
  • 6,2% da geração de energia elétrica pela Usina Itaipu em 2020, 12% da geração pela Usina Belo Monte em plena operação e 8,4% de toda a geração hidrelétrica no Estado de São Paulo em 2020.

Significa que as usinas de cana sempre possuem como fornecer energia elétrica (bioeletricidade) para o sistema de distribuição?

Zilmar José de Souza – Estruturalmente, a biomassa da cana tem possibilidade de responder positivamente em momentos de escassez. 

Há uma possibilidade de geração extra que costuma ir de 5 a até 15% a mais do que o planejado inicialmente, com uma gestão sobre a biomassa própria e de terceiros, com a aquisição de cavaco de madeira, pó de serra, casca de arroz, de amendoim etc.

Essa é uma avaliação sempre feita antes de começar a safra. Assim, para isto acontecer temos que ter um planejamento bem antecipado para organizar as operações de gestão da biomassa própria e, principalmente, de terceiros.

Neste ano, vamos ajudar em muito o SIN, com a nossa geração que irá firme, sem intermitência, nos meses mais críticos do 2º semestre, mas ainda dá tempo de pensarmos em ajudar ainda mais nesta safra, até o fim deste ano, desde que diretrizes para a aquisição da eletricidade de cana, ou bioeletricidade, saíssem rapidamente, dando tempo de nos planejarmos, já que a safra já se iniciou em abril e o Mercado de Curto Prazo não se encontra até o momento plenamente desjudicializado quanto ao fluxo de pagamento.

O que é preciso fazer para que as usinas forneçam eletricidade de cana também nos próximos anos? 

Zilmar José de Souza – É preciso que esse atributo da oferta de bioeletricidade, de responder positivamente e rapidamente em períodos de crise hídrica, como o que estamos vivenciando hoje, possa ser reconhecido na regulamentação do setor elétrico brasileiro.

De forma que, em toda safra, com previsibilidade, possamos nos organizar e ajudar ainda mais o setor elétrico sempre que necessário. Já poderíamos, por exemplo, estar organizando ou pensando em como aumentar a oferta extra de geração para 2022.

Com planejamento é possível injetar bioeletricidade no sistema em bandeiras menos ‘caras’, como a amarela?

Zilmar José de Souza – Em 2019, dos 22,5 mil GWh da eletricidade da cana entregues para a rede, 75% foram ofertados quando a bandeira estava amarela ou vermelha. 

Para este mês de junho, a Aneel informou que foi acionada a bandeira vermelha patamar 2. Portanto, quanto mais bioeletricidade pudermos agregar ao sistema, maior é a oferta de energia renovável deslocando térmicas mais onerosas e poluentes para garantir a segurança do sistema.

Se o governo quiser de imediato a bioeletricidade disponível, como deverá atuar? Comprar por meio de leilão emergencial? 

Zilmar José de Souza – Como é uma geração extra, que pode superar a garantia física das usinas (o limite do que podem comercializar no mês), há necessidade de uma regulamentação inovadora e específica, flexibilizando a regra e criando mecanismo para compra dessa geração. Já há uma regulamentação mais flexível para as usinas brasileiras que exportam energia para a Argentina e Uruguai. Seria talvez algo parecido, para as usinas à biomassa. 

No médio prazo, via retrofit, é possível estimar quanto a fonte biomassa pode ajudar o Brasil, já que, pelo visto, a escassez hídrica veio para ficar e se a economia aquecer, toda oferta de energia será estratégica.

Zilmar José de Souza – Segundo estudo de 2020 da Empresa de Pesquisa Energética, dentre as 366 usinas de açúcar e etanol em operação em 2019, 220 comercializaram eletricidade de cana (60% do total de usinas), oito usinas a mais do que no ano anterior.

Havia um total de 146 usinas que não ofertava excedentes de energia elétrica para a rede (40% do total em 2019), indicando grande potencial a expandir na geração para a rede com o retrofit das usinas existentes, além do aproveitamento da palha e do biogás na geração de bioeletricidade.

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Sobre valores, podemos estimar qual é a média do megawatt-hora (MWh) de biomassa nos leilões de compra?

Zilmar José de Souza – No mercado regulado, já estão programados os Leilões de Energia Nova A-3 e A-4, reagendados para 8 de julho. O cadastramento para os Leilões A-3 e A-4 já terminou e a fonte biomassa cadastrou 30 projetos, totalizando 1.358 MW. Se os 30 projetos fossem comercializados nesses leilões, prevê-se que haveria a injeção de algo como R$ 8 bilhões em investimentos na cadeia produtiva da biomassa no país e um acréscimo de 9% em relação à potência total instalada atualmente pela biomassa.

O início de suprimento para o Leilão A-3 é em 1º de janeiro de 2024 e para o Leilão A-4, em 1º de janeiro de 2025. 

No caso de empreendimentos sem outorga, os preços-teto para a contratação serão de R$ 292,00/MWh, para fonte hidrelétrica, de R$ 198,00/MWh, para fontes eólica e solar, e R$ 292,00/MWh, para fonte termelétrica a biomassa.

Significa que a biomassa oferece uma eletricidade estratégica e competitiva em termos de valores. 

Zilmar José de Souza – Uma contratação robusta e regular da bioeletricidade, tanto no mercado regulado quanto livre, traz maiores volumes de uma energia renovável, sustentável, não intermitente e efetivamente complementar à fonte hidrelétrica, poupando água nos reservatórios, principalmente do Sudeste/Centro-Oeste, ao mesmo tempo que proporciona uma real modicidade nas contas do consumidor, sobretudo, em momentos semelhantes ao atual, de escassez hídrica.