IPO da Raízen comprova maturidade do setor de bioenergia

É o que destaca o economista Haroldo Torres, em entrevista na qual comenta impactos do registro de oferta pública da principal produtora de etanol do país

IPO da Raízen comprova maturidade do setor de bioenergia
Crédito: Raízen

O mercado recebeu com entusiasmo o pedido de registro de oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) da Raízen S. A., joint venture entre a Shell e a Cosan. 

Mas qual o motivo do entusiasmo?  

Protocolado no dia 06 de junho de 2021 (leia aqui o Fato Relevante), o pedido é da principal produtora nacional do setor sucroenergético. 

Só para se ter ideia, com a recente aquisição da Biosev, a companhia tem capacidade de processar 110 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, equivalentes a 20% de toda matéria-prima capacitada pelas usinas da região Centro-Sul, onde são produzidos mais de 80% de todo etanol, açúcar e bioeletricidade do país. 

Não é demais relacionar a Raízen aos principais players do agronegócio, seja pelos investimentos em inovação, seja pelo protagonismo em apostar em novos produtos da cana. É dela, por exemplo, a primeira usina do país a produzir em escala biogás e biometano (leia mais aqui). 

Ademais, o entusiasmo do mercado diz respeito ao peso financeiro do IPO. Apesar de o valor das ações a serem distribuídas ainda não estar precificado, a expectativa é que a oferta movimente entre R$ 10 bilhões e R$ 13 bilhões. 

Agentes do mercado estimam ser o maior IPO da história da B3. 

Além disso, os motivos do pedido de registro de oferta pública, segundo a Raízen, objetivam a construção de novas plantas para expandir a produção e capacidade de comercialização, investir em eficiência e produtividade e em infraestrutura de armazenagem e logística. 

Ademais, o IPO da Raízen impacta positivamente no setor sucroenergético e, por extensão, no agronegócio brasileiro. 

Para entender mais a respeito, o portal de notícias Energia Que Fala Com Você entrevista o economista Haroldo Torres.

Mestre em Economia Aplicada pela Esalq/USP e doutorando pela mesma instituição, Torres possui especialização no desenvolvimento de modelos e sistemas voltados para análise de custos de produção no setor sucroenergético. Ele também é gestor de projetos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (PECEGE).

Confira abaixo a entrevista com Haroldo Torres

Qual sua avaliação do IPO da Raízen?

Haroldo Torres – Só para contextualizar, a joint venture entre a Shell e a Cosan deve fazer a oferta primária – quando o dinheiro vai para o caixa da empresa – de ações preferenciais. Trata-se do nível dois da B3. 

Ainda que a questão de valuation (valor) não seja clara, e tem quem fale que a empresa vale de R$ 80 bilhões a R$ 100 bilhões, tudo que sabemos é que, mesmo sem o valuation definitivo, a expectativa é de que a oferta seja de R$ 10 bilhões. 

Ou seja, é um dos maiores IPOs do mercado brasileiro, mostrando a pujança especificamente da Raízen.

Vejo isso de forma extremamente positiva com a entrada na B3 de um player muito forte no setor de biocombustíveis. 

Qual o peso desse IPO para o setor sucroenergético? 

Haroldo Torres – É preciso lembrar que foi feita reorganização societária e, agora, a Raízen Combustíveis possui 100% da Raízen Energia. É preciso lembrar que a Raízen Combustíveis é o braço de distribuição da joint venture e é ela que passa a ser a titular da Raízen Energia, que é o braço de bioenergia do grupo. 

A própria reorganização de a Raízen Combustíveis ser a detentora de 100% do capital da Raízen Energia fez parte do processo de reestruturação societária para que ela abrisse capital. 

Eu coloco aí um ponto interessante: a companhia é líder mundial de biocombustíveis, com receita líquida de mais de R$ 114 bilhões no exercício encerrado em 31 de março último, e está entre as cinco maiores do Brasil em receita. 

Sendo assim, o que estamos vendo é um mega-IPO da bioenergia. 

Crédito: Arquivo pessoal – Haroldo Torres

Significa que o IPO da Raízen incrementa a bioenergia?

Haroldo Torres – Vemos que o IPO da Raízen fomenta a questão da bioenergia. Aliás, quando olhamos a questão da bioenergia, provavelmente ela usa ou faz como sua marca, seu DNA, de ser uma empresa de bioenergia. 

Mais do que isso, [com o IPO] ela potencializa as letrinhas do que chamamos de ESG [Environmental, Social e de Governance em inglês, ou, em português, Ambiental, Social e de Governança]. 

Essa sigla já ficou muito forte no mercado financeiro, e nesse IPO quando vejo o G de governança a reestruturação societária que eles fizeram foi justamente este pilar da governança. 

Talvez agora eu tenha uma empresa muito forte no aspecto ambiental olhando para uma energia renovável. 

Temos esse apelo muito forte da energia renovável, e com esse IPO a empresa deixa de olhar para recursos apenas de seus dois sócios, e passa a se financiar de outra forma ganhando independência. 

Mostra que é o setor de bioenergia ganhando maturidade

O IPO é lançado em um período no qual o mundo passa pela transição energética. Isso também tem impacto positivo? 

Haroldo Torres – Vejo que temos uma vantagem muito forte, principalmente do ponto de vista energético. E, no Brasil, sabemos que provavelmente o caminho será o de veículos movidos a célula de hidrogênio e não 100% plug-in. 

Portanto, estamos tendo IPO de uma empresa que é líder mundial em biocombustíveis, referência na área de sustentabilidade, que, com certeza, estará na vanguarda da transição energética, desenvolvendo soluções para a baixa emissão de carbono. 

O IPO da Raízen abre caminho na B3 para outras empresas do setor? 

Haroldo Torres – Tem espaço na B3 para todo mundo. Mas é importante perceber que, quando se acessa o mercado de capitais, elevam-se algumas bandeiras dentro da empresa. 

Como assim? 

Haroldo Torres – Talvez a primeira bandeira que o investidor olha é a governança. A gente sabe que o setor sucroenergético vem de uma estrutura familiar muito forte, então é preciso inicialmente já ter passado de uma gestão familiar e ter uma governança. 

Este é o primeiro pilar que o investidor olha. 

E o segundo? 

Haroldo Torres – O segundo pilar que ele olha é um olhar mais viciado no Brasil quando se volta para as empresas do setor sucroenergético. Ou seja, o investidor doméstico começa a ter um certo receio, principalmente ainda sobre a exposição de um setor cíclico, com altos e baixos. 

Por isso, para acessar o mercado de capitais é preciso ter outro ponto, que é o seu diferencial competitivo. 

Comente mais a respeito, por favor. 

Haroldo Torres – Quando se olha para a São Martinho [companhia do setor listada na B3], qual é o diferencial competitivo? Ela tem liderança de custo, excelência operacional. 

Quando se olha para a Jalles Machado [também listada], se vai para nicho de mercado com açúcar orgânico, preservando excelência operacional com excelentes indicadores de produtividade. 

Então, companhias com moagem de cana menores, abaixo de 10 milhões de toneladas por safra, também possuem espaço no mercado de capitais? 

Haroldo Torres – Quando [o mercado de capitais] abre espaço para outras companhias do setor, independe de escala. O próprio setor já aprendeu que a escala não é o grande diferencial. 

Pelo contrário: outros vetores mostraram-se muito mais expressivos do que a própria escala de moagem. 

O mais importante é que a gente vai ter espaço, haverá mais companhias assumindo, mas, primeiro, é preciso ter governança. E o segundo passo, que é substancial e necessário, é ter diferencial competitivo para explorar nesse mercado e que seja visto pelo investidor. 

Além, é claro, de todos aspectos que conhecemos do etanol ou das questões de sustentabilidade do próprio setor.