Biometano avança como substituto renovável do GNV e do diesel

Distribuidoras, usinas e montadoras empreendem investimentos no gás cuja produção tem na cana-de-açúcar a principal matéria-prima

Biometano avança como substituto renovável do GNV e do diesel
Fonte: Copersucar

O biometano avança como potencial substituto do gás natural veicular, o GNV. Produzido a partir do processamento do biogás, que tem como fontes renováveis resíduos da cana-de-açúcar, ele já é empregado como combustível em veículos com motores movidos ao derivado de gás. 

Esse emprego, no entanto, é tímido e combina com a produção também enxuta de biometano. Isso decorre do pouco tempo de vida desse renovável. Para se ter ideia, ele foi regulamentado pela ANP em junho de 2017 e, desde então, pode ser injetado na rede de gás e substituir o GVN.

Em termos produtivos, o país conta com três unidades fabricantes do biocombustível e, segundo a ANP, elas têm capacidade diária para produzir 330 mil normais metros cúbicos (Nm3). 

Já para efeito geral, essa produção é capaz de abastecer 340 mil veículos por dia, apurou Energia Que Fala Com Você. 

Pode parecer pouco diante a oferta diária média de gás natural, a fonte do GNV, que é de 137 milhões de metros cúbicos de gás natural, conforme a EPE, empresa do Ministério de Minas e Energia.  

Mas como o biometano é uma ‘criança’ de apenas 4 anos de idade, desde que foi regulamentado, tem um promissor ciclo de produção pela frente. 

Para se ter ideia, são vários os motivos que permitem projetar um futuro produtivo otimista do biocombustível. Um deles diz respeito à sua qualidade ambiental.  

Leia também: Renovável, o biometano chega de vez ao mercado

Biometano tem emissões negativas de gases de efeito estufa

Em termos de emissões de gases geradores de efeito estufa, o biometano vence os concorrentes GNV e óleo diesel na pegada de carbono do ciclo de vida. 

Na verdade, o biocombustível tem emissão negativa de algo em torno de menos 20 gramas de gás carbônico equivalente por megajoule (gCO2eq/MJ), destaca a Abiogás. 

O GNV fica em segundo nessa corrida, com a emissão de mais de 80 gCO2eq/MJ, enquanto o diesel fica em terceiro, por emitir mais de 100 gCO2eq/MJ). 

Com um saldo ambiental positivo desses, dá para entender porque o biometano tende a dar saltos acelerados em termos produtivos também com o estímulo do RenovaBio que, como citado, permite aos produtores certificados emitirem créditos de descarbonização comercializados na B3. 

Equivalentes a uma tonelada de CO2 que deixa de ser emitida, esses créditos também são adquiridos por empresas que precisam zerar suas emissões de gases de efeito estufa e não possuem soluções próprias de curto prazo. 

Pois bem, dito isso a Abiogás estima que o potencial de produção do biogás, intercambiáveis com o gás natural, chega a 42 bilhões de metros cúbicos por ano. Esse volume contabiliza todo o resíduo produzido pela agroindústria e saneamento, do qual o setor sucroenergético desponta na frente com capacidade de gerar 21,1 bilhões de Nm3.

Até 2030, por exemplo, a entidade projeta investimentos de cerca de R$ 50 bilhões na cadeia do biogás, fonte direta de geração do biometano. 

Parte desse montante já está em prática. É o caso do Projeto Biogás, investimento de R$ 160 milhões da empresa sucroenergética Cocal e da distribuidora Gas Brasiliano. 

Com previsão de partida em 2022, a unidade, localizada no interior paulista, terá capacidade de produzir 33,5 milhões de Nm3 de biogás. Sendo assim, a produção de biometano deverá chegar a 8,9 milhões de Nm3 ao ano. 

Biometano avança como substituto renovável do GNV e do diesel
Usina da Cocal: planta de biogás e biometano (Crédito: Divulgação)

 O biometano feito na planta anexa à usina da Cocal substituirá o gás natural e o GNV distribuídos por rede de distribuição nos municípios de Narandiba, Pirapozinho e Presidente Prudente, no interior paulista. 

Por sua vez, a Gas Brasiliano e a ZEG Biogás, especializada na produção e comercialização do GasBio – nome dado ao seu biometano – firmaram parceria para desenvolver estudos de Pesquisa & Desenvolvimento com foco em viabilizar a conexão ao gasoduto das principais agroindústrias da região do interior paulista atendida pela distribuidora. 

“Estamos localizados em uma região que reúne cerca de 140 usinas de açúcar e etanol”, destacou Alessandro Gasparetto, presidente da Gas Brasiliano, lembrando que essas usinas são fontes para desenvolver o mercado de biometano. 

Os exemplos da Cocal, ZEG Biogás e da Gas Brasiliano não são únicos no universo promissor do biometano. 

A Scania, uma das principais montadoras mundiais fabricante de caminhões pesados, de ônibus e de motores industriais e marítimos, anunciou em maio  parceria com a Comgás, a maior distribuidora de gás natural do Brasil, para desenvolver ações conjuntas e acelerar o desenvolvimento do mercado de gás natural veicular (GNV) e biometano para veículos comerciais pesados.

De início, as companhias irão mapear corredores e rotas logísticas no estado de São Paulo para elaborar plano de aumento de pontos estratégicos de abastecimento, além de avaliar a instalação de postos na operação do transportador.

Soluções sustentáveis

“Esta iniciativa é fundamental para impulsionar o desenvolvimento da infraestrutura de distribuição e ampliar as opções de abastecimento”, resume em nota Christopher Podgorski, CEO da Scania Latin America. “A parceria reduzirá barreiras para viabilizar soluções sustentáveis no transporte.”

Desde março do ano passado, a montadora produz caminhões movidos a gás em sua fábrica localizada em São Bernardo do Campo (SP). A decisão acompanhou o lançamento da nova geração da linha de veículos pesados.

De seu lado, a Comgás já anunciou planos de construir 1,2 mil quilômetros de rede de gás ao ano. A informação é Luis Henrique Guimarães, CEO da Cosan, que possui 99,1% das ações da distribuidora de gás.

A área atendida pela Comgás abrange 170 cidades do interior paulista, mas, segundo ele, concentra 21% do PIB brasileiro e tem 50% dos kms de [rede de] gás do Brasil inteiro, sinalizando, assim, que a malha de gasodutos brasileira ainda é pequena.”

Exemplos como os citados anteriores podem fazer com que, em futuro não tão longe, o Brasil possua um parque de plantas produtoras de biometano semelhante ao da Europa, onde existem mais de 700 delas. O detalhe é que apesar do grande número, a geração representa 0,3% da oferta total de gás na região, enquanto, no Brasil, a Abiogás projeta que o potencial de produção diária de biogás de 116,8 milhões de metros cúbicos, pode-se suprir 34,5% da demanda de energia elétrica e 70% da demanda de diesel.