Bioeletricidade a partir de cana reforçará a oferta de energia no Brasil no segundo semestre

Governo autoriza aquisição de volumes extras da bioeletricidade e abre consulta pública sobre o assunto 

Bioeletricidade a partir de cana reforçará a oferta de energia no Brasil no segundo semestre
Crédito da imagem: UNICA

A energia elétrica produzida a partir da biomassa de cana-de-açúcar reforçará a oferta de eletricidade no Brasil. 

Mais: isso já deverá ocorrer a partir de julho próximo, quando o país entra na fase aguda de estiagem nos reservatórios das hidrelétricas. 

O portal de notícias Energia Que Fala Com Você já destacou recentemente sobre a importância da energia feita de biomassa a partir de entrevista com Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da UNICA (leia aqui).  

Na oportunidade, o executivo comentou sobre como a bioeletricidade, como é chamada a eletricidade da biomassa, é estratégica para o Sistema Interligado Nacional (SIN), que concentra a energia a ser entregue para nós, consumidores. 

Por sua vez, essa estratégia, dentre outros motivos, se dá porque a bioeletricidade é produzida justamente no período de tradicional estiagem nos reservatórios das hidrelétricas, entre maio e outubro.

Além disso, conforme Zilmar, as usinas de cana estão prontas para acrescentar 1.249 gigawatts-hora (GWh) já neste 2021. 

No mais, em 2022 o potencial de geração extra pelo setor de biomassa chega a 3.522 GWh

Tudo somado e a eletricidade da cana vai a 4.771 GWh. Pois esse montante é suficiente para atender 2,5 milhões de residências, ou 1% do consumo anual de energia elétrica. 

A partir destas informações, você já sabe da importância estratégica da bioeletricidade para reduzir a crise elétrica vivenciada pelo país.

Leia também: Indústria apresenta proposta para reduzir o consumo de energia nos horários de pico 

‘Ritual de regras’ para a bioeletricidade da cana 

No entanto, para entrar em prática a oferta extra de energia da cana precisa passar por uma espécie de ritual de regras. 

E é isso que acontece atualmente. 

Em primeiro lugar, no dia 22 deste mês de junho o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou no Diário Oficial da União a Portaria 527

Por sua vez, essa Portaria abre a denominada consulta pública para a contratação adicional de energia elétrica gerada a partir de biomassa, principalmente da cana-de-açúcar. 

Sim, essa consulta faz parte do ‘ritual de regras’. Aqui, vale explicar que eu, você, todos podemos enviar contribuições. Mas tem prazo: até o dia 29 deste mês de junho. 

Essa etapa atesta a transparência com que a aquisição da energia extra de biomassa de cana é conduzida. Tem interesse? A portaria da consulta pública pode ser acessada aqui

É ótimo saber que a bioeletricidade entrará em campo para socorrer a oferta de energia elétrica em um período de crise nas hidrelétricas. Mas trata-se, aqui, de uma medida digamos emergencial. 

É que tradicionalmente as usinas de cana participam do Sistema Interligado mas, para tanto, precisam ter a eletricidade contratada por leilões públicos. E, nesses, concorre com fontes cujo custo de geração é inferior, embora a produção seja sazonal, como é o caso das eólicas e das geradoras de energia solar. 

Essa questão da concorrência e dos leilões é destacada em conteúdo aqui do Energia Que Fala Com Você (leia aqui).  

Portaria representa ‘quebra de paradigma’

Voltando agora à participação extra da eletricidade da cana, qual é a avaliação da UNICA, que representa as usinas produtoras de etanol, açúcar e bioeletricidade?

Para Zilmar Souza, a portaria representa uma quebra de paradigma para as usinas à biomassa, pois permite a geração, e principalmente a comercialização, acima do planejado. 

“Será uma forma de a biomassa ampliar ainda mais o suprimento de eletricidade neste momento crítico de escassez hídrica, com uma energia renovável e sustentável para a sociedade.”

Indo mais além no assunto, como funcionará essa geração acima do planejado? 

Será assim: a oferta adicional de geração das usinas será utilizada pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) como recurso adicional para atendimento ao Sistema Interligado, o SIN, desde que seja

deliberada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE).

Tem mais: os agentes interessados (as usinas geradoras) em participar do mecanismo de compra deverão encaminhar mensalmente ao ONS as ofertas adicionais de geração. 

De seu lado, o ONS deverá apresentar as ofertas para o CMSE. 

Mais: as ofertas serão acompanhadas de estudo elaborado pelo ONS com a justificativa e recomendação para eventual aceite.

E tem um limite: a geração de energia elétrica proveniente das ofertas poderá ocorrer por período mensal, até o limite de seis meses, de forma a atender o montante estabelecido pelo CMSE e desde que

observada a segurança operativa.

Além disso, as ofertas adicionais de geração de energia elétrica enquadradas nos termos da Portaria não estarão sujeitas ao rateio da inadimplência no Mercado de Curto Prazo, resultante do Processo

de Contabilização no âmbito da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que se encontra impactado por ações judiciais desde 2015. Aqui entra um problema que merece conteúdos à parte. 

Por que o cenário hidrológico está crítico

Para concluir, vamos elencar informações para explicar a situação das hidrelétricas. 

O próprio MME destaca que o Brasil está atravessando um cenário hidrológico crítico, com as menores vazões desde 1930, quando teve início o registro dos dados. Para tanto, foi lançada cartilha a respeito.