Quer reduzir os custos de logística na usina? Confira as orientações do Professor Caixeta, da ESALQ-LOG

Em entrevista ao portal de notícias Energia que Fala com Você, especialista apresenta sugestões para diminuir os custos de logística na usina e ampliar o lucro. Confira!

Quer reduzir os custos de logística na usina? Confira as orientações do Professor Caixeta, da ESALQ-LOG
Créditos de imagem: UNICA

As usinas de cana-de-açúcar operam uma safra repleta de desafios. Para começar, o ciclo 2021-22, que vai de abril a dezembro na região Centro-Sul, reflete saldos negativos por conta da estiagem de 2020. Ela afetou a qualidade da cana e, com isso, os resultados estão bem abaixo da safra anterior (leia relatório de dados da UNICA).

Não bastasse, já se sabe que a oferta de cana dificilmente repetirá a da safra anterior, quando as usinas do Centro-Sul processaram 605 milhões de toneladas de cana (mais aqui). De novo a culpa é da seca do ano passado.

No entanto, desafios parecem fazer parte do gene do setor sucroenergético. E, mesmo diante das adversidades, buscar redução de custos é meta crônica dos gestores. E é aí que entra a logística, ingrediente estratégico e vital principalmente da área agrícola, que responde por 60% do custo da produção das usinas. Reduzir os custos com tratores, colhedoras, plantadoras, transbordos e caminhões é meta contínua no ano todo, principalmente nos 210 dias médios de duração da safra. Para complicar um pouco mais essa meta, existem pressões cada vez maiores por descarbonização. Ou seja, produzir com emissões zeradas ou mínimas de GEE, sigla para gases de efeito estufa.

A boa notícia é que há saídas para tudo isso. E nem todas exigem altos investimentos. É o que destaca, nesta entrevista ao portal de notícias Energia Que Fala Com Você, o Professor Doutor José Vicente Caixeta Filho. Coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial, o ESAQL-LOG, e professor titular do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ, Caixeta é autoridade em logística.

Confira a seguir a entrevista do especialista, parceiro ativo da Fenasucro & Agrocana, sobre redução de custos de logística na usina

O setor sucroenergético brasileiro tem expertise em bons resultados e resiliência de sobra. Mas é preciso reduzir os custos também com a logística na usina. Qual sua avaliação?

José Vicente Caixeta Filho – As usinas têm participação expressiva no agronegócio. Elas possuem, por exemplo, a responsabilidade com a logística, seja de suprimentos, seja de distribuição. E como em qualquer modelo de neǵocio, ele tem que ser lucrativo.

A usina tem sua receita com a venda dos principais produtos (açúcar e etanol) e ela tem que ser suficiente para compensar os custos envolvidos e, com certeza, boa parte deles vai para a conta da logística.

Nas usinas essa conta é diluída. Como calcular os custos?

José Vicente Caixeta Filho – Dividindo os custos da logística no setor, tem-se o custo do transporte de cana, dos implementos rodoviários desenvolvidos e que são específicos. Tem-se também o custo com a colheita mecanizada. E chega-se, ainda, aos custos que congregam a entrega da cana no pátio da indústria. Além disso, há os custos do processamento e distribuição do açúcar ou do etanol.

Veja bem: todos esses componentes de custos por várias vezes deterioram a receita. Por isso eles têm que ser compensados e diminuídos.

Assim como outros setores da economia, o sucroenergético vive movimento de fusões e aquisições de empresas produtoras. Isso ajuda na busca de reduções de custos em logística?

José Vicente Caixeta Filho – As fusões podem resultar em economia de escala. Vejamos o caso do frete no transporte de cana. Ele é composto em valores unitários que estarão mais em conta se tratamos de 1 milhão de toneladas de cana, e não de 10 mil toneladas. Sendo assim, as fusões se alinham no esforço de ganho de escala, com custos competitivos.

Quer reduzir os custos de logística na usina? Confira as orientações do Professor Caixeta, da ESALQ-LOG
José Vicente Caixeta Filho – Crédito de imagem: Gerhard Waller – ESALQ/DvComun

O setor também trabalha a expectativa de ter a liberação do super rodo-trem, com 11 eixos, capaz de levar 61,5 toneladas de cana, 18,5 toneladas acima do permitido pelo maior modelo atual, de nove eixos. Qual sua avaliação?

José Vicente Caixeta Filho – Pode-se, também, empregar composições de maior capacidade em nome da economia de escala. De novo, tem-se custo unitário com capacidade maior e o 11 eixos está em linha com a economia de escala.

Mas há problemas e um deles diz respeito à compactação do solo, já que teremos composição mais pesada em circulação. Essa composição também pode gerar problema sério caso esteja na área urbana, em estrada movimentada, e possa ter dificuldade, por exemplo, em relação ao raio de curva.

Leia também: Liberação do super-rodotrem é aguardada pelas usinas

Que outro exemplo de economia o senhor aponta em termos logísticos?

Antes, no setor, tinha-se por média rodar no máximo 30 quilômetros entre o local de colheita e a planta industrial. Acima disso, havia perda financeira. Esse tipo de situação continua?

José Vicente Caixeta Filho – Eventualmente pode [haver mais custos] em raio acima de 30 quilômetros. No entanto, diversas usinas partem de determinado padrão de ATR. E ele pode compensar a ‘viagem’ mais longa. No Centro-Oeste, principalmente, há raios na casa dos 80 quilômetros e que, ainda assim, geram economia.

Como chegar a esse ‘raio econômico’?

José Vicente Caixeta Filho – Diferente de outras commodities, não é comum armazenar a cana porque ela é perecível, perde qualidade. Daí ser preciso na definição das áreas movidas em corte, transbordo e transporte (CTT). Neste sentido, existe uma série de ferramentas, modelos matemáticos pautados pela definição da melhor logística para colher aquela cana, com menor movimentação de maquinários, tomando-se como referência a máxima quantidade de ATR.

Certamente a tecnologia pode ser estratégica.

José Vicente Caixeta Filho – Sim, outro aspecto diz respeito à colheita de alta performance, com equipamento mais calibrado, com emprego de inovações, agricultura de precisão, internet das coisas (IoT), drones e sensores. Tudo isso pode trazer economia importante e significar redução de custos.

Existe como reduzir custos em investir, ou seja, sem empregar capital financeiro?

José Vicente Caixeta Filho – Sim. Veja o caso do pátio da indústria. Se há filas de caminhões carregados de cana, significa que algo não funciona bem. Liberar o veículo no momento mais adequado resulta em menos filas e em economia no sistema como um todo.

O transporte rodoviário é predominante no setor. Continuará assim?

José Vicente Caixeta Filho – A dependência do transporte rodoviário é muito forte. Mas há exemplos bons de uso da ferrovia. E o setor tem vocação importante no emprego de energias renováveis, caso do etanol e da bioeletricidade. Nada melhor que o próprio setor usar essas energias em seus próprios veículos. Por que não pensar em composição canavieira movida a bioeletricidade?

Fora a ferrovia, que outro modal pode ser empregado pelas usinas?

José Vicente Caixeta Filho – No caso do transporte de cana temos, no estado de São Paulo, uma situação particular. Trata-se da usina Diamante, da Raízen, localizada em Jaú, que usa o rio Tietê, por meio da Hidrovia Tietê-Paraná, para movimentar a cana.

Dada a localização do eixo do rio Tietê, deveria-se usar a hidrovia para movimentar o transporte de cana.

Mas o transporte rodoviário continua à frente, também como forte emissor de gases de efeito estufa devido ao uso de óleo diesel. O que fazer a respeito?

José Vicente Caixeta Filho – Ter motorização de veículos a diesel que seja mais econômica. Nos EUA, o transportador é obrigado todo ano a mudar a motorização para ter veículos com menos emissões de GEE.

Reduzir as emissões no ciclo de vida do etanol, por exemplo, é regra número um do RenovaBio, programa de Estado que contempla as usinas certificadas com a emissão de créditos de descarbonização (CBios), que são comercializados. É um incentivo nessa direção de motorização com menos emissões?

José Vicente Caixeta Filho – Sim, a venda de CBios é uma inovação. A partir do momento em que a usina movimenta menos máquinas, usa menos óleo diesel, deixa de emitir GEEs e obtém mais créditos [CBios] para vender no mercado. A dependência do combustível fóssil é fato, mas ela pode ser amenizada.