Usinas e banco criam fundo para financiar fornecedores de cana-de-açúcar

Novidade vem em socorro aos produtores que nem sempre têm acesso a financiamentos com juros baixos.

Usinas e banco criam fundo para financiar fornecedores de cana-de-açúcar
Crédito da imagem: Udop

Que os fornecedores de cana-de-açúcar são estratégicos para as usinas, disso ninguém duvida.

Afinal de contas, das projetadas 580 milhões de toneladas da matéria-prima a serem processadas pelas unidades da região Centro-Sul na safra em andamento, 80 milhões pertencem a esses produtores.

Para se ter ideia da importância deles, a  Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) reúne 12 mil em 31 associações. Como resultado, eles têm capacidade de ofertar 60 milhões de toneladas por safra – ou seja, 75% de toda a cana desses plantadores.

Ademais, como se diz no setor, 60% do custo de produção de um litro de etanol ou de um quilo de açúcar estão no campo. Melhor dizendo, no plantio e colheita da cana. Os demais 40% estão na indústria.

Tem um detalhe aí: o segmento integra fornecedores que são parceiros das usinas, e que, sob contratos, passam para essas as operações de campo. E há os que produzem e entregam a cana nas esteiras das usinas e que, assim, assumem 100% das operações.

Feitas as ‘apresentações’, dá para entender a importância dos fornecedores de cana no setor sucroenergético.

Não é à toa que a Agrocana, que representa o setor agrícola na Fenasucro, apresenta tecnologias, equipamentos e serviços de ponta para esses produtores.

Preços promissores e falta de cana

Muito bem. A safra em andamento no Centro-Sul, a 2021-22, está próspera em preços. O açúcar bruto, por exemplo, deve ter sua melhor cotação internacional em quatro anos.

Se vai bem para as usinas, também vai para os produtores de cana, uma vez que eles recebem pela qualidade da cana, ou seja, pela sigla de produtividade denominada ATR. Mas tem um “porém”.

Juntamente ao cenário positivo de preços, há um enxugamento na oferta de cana. É que ela foi vítima de meses de estiagem em 2020 que afetou a oferta. Daí a projeção de 570 milhões de toneladas no ciclo em andamento, quase 30 milhões de toneladas a menos que na safra anterior.

E vem a questão financeira. Se é de pequeno porte, com até 5 mil hectares, o fornecedor certamente enfrentará dificuldades para levantar dinheiro e custear os investimentos em cana soca – a que já está no solo e ‘rende’ até seis a sete cortes ou safras – e a cana nova.

No caso da primeira, é preciso investir em média R$ 3 mil por hectare. Já a nova, que só estará pronta em um ano ou um ano e meio, exigirá médios R$ 7,5 mil por hectare.

É preciso lembrar que muitos desses fornecedores não têm lastro para buscar financiamentos a juros que compensam o investimento. Também deve-se destacar o trabalho de entidades como a Orplana na busca de soluções, ou de cooperativas como a Canaoeste e a Coopercitrus, para ficarmos em apenas duas delas.

Como fontes de aportes, há opções em instituições públicas como o BNDES. Mas, de novo, nem todo produtor de cana consegue assinar contrato de financiamento por vários motivos.

Em outra frente, estão as próprias empresas sucroenergéticas. Muitas delas oferecem aportes principalmente para seus parceiros canavieiros.

Zilor e BTG criam fundo para fornecedores de cana-de-açúcar

Nessa linha, entra em cena um novo modelo de investimento junto a fornecedores. Trata-se de aportes para financiar custeio e investimentos dos fornecedores de cana com contratos de longo prazo, abrigados no denominado Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).

Quem estreou na modalidade em junho último foi o grupo Zilor, controlador de três usinas no interior paulista e o BTG Pactual Asset.

E como funciona esse Fundo?

Inicialmente, o FIDC recebeu uma injeção de R$ 120 milhões, dos quais R$ 80 milhões foram aportados pelo BTG e R$ 40 milhões pelo Zilor, destaca o jornal Valor (leia aqui).

Mais: o fundo para fornecedores de cana-de-açúcar substitui uma parte do programa que a própria Zilor mantém de apoio a fornecedores no acesso a crédito, com concessão de empréstimos diretos (mútuos) ou garantias (aval).

Ao Valor, o CEO do grupo, Fabiano Zillo, destaca que o lançamento do fundo para fornecedores de cana-de-açúcar atende uma lacuna no mercado de crédito rural, que não oferta linhas acessíveis e adequadas ao perfil do produtor de grande porte que cultiva cana e trabalha com prazos mais longos de maturação e retorno da cultura, se comparadas a lavouras temporárias como soja e milho.

É como descrito acima: a cana pode render até sete cortes, ou sete anos, enquanto o milho e a soja geram safra única, embora duas por ano.

Vale a pena ressaltar que o fundo do Zilor e do BTG Pactual oferece prazo médio de 3,5 anos, com taxas equivalentes ao CDI mais 3% a 4%. Já para operações de plantio, o prazo médio é de 4,5 a 5,5 anos, com custo equivalente ao CDI, mais 6% a 8%.

Para efeitos comparativos, o Plano Safra 2021/22, que contempla a cana em alguns programas, tem juros anuais que vão entre 5,5% a 8,5%.

Energia Que Fala Com Você ouviu de especialistas em mercado que o fundo criado pelo Zilor e pelo BTG Asset deve ganhar escala. Ou seja, outros virão em curto espaço de tempo. Até porque, para ficarmos em um exemplo, o potencial de descarbonização da cana ganha destaque mundial.

Sendo assim, é de se torcer pela abertura de mais e mais linhas de investimento na produção sucroenergética.