O que é preciso fazer para o Brasil assumir a liderança mundial em bioeletricidade, segundo Gonçalo Pereira

Confira a ‘receita’ do professor da Unicamp, falada durante webinar da Fenasucro & Agrocana TRENDS em parceria com a CPFL Soluções

O que é preciso fazer para o Brasil assumir a liderança mundial em bioeletricidade, segundo Gonçalo Pereira
Crédito da imagem: UNICA

O Brasil tem condições de ser liderança mundial em bioeletricidade, a eletricidade limpa produzida a partir de biomassa. Isso porque o país possui matéria-prima de sobra para produzir energia elétrica, ofertada pelas usinas de cana-de-açúcar.

Por ano, são pelo menos 595 milhões de toneladas de cana processadas ao longo da safra. O volume também representa o total de bagaço, principal biomassa geradora de bioeletricidade, ao lado de cavacos de madeira, material orgânico e resíduos urbanos renováveis.

Por sua vez, as mais de 350 usinas em operação produzem – ou cogeram, como se diz no jargão do setor – eletricidade para consumo próprio durante os 210 dias médios do ciclo produtivo. Mas sobra muita biomassa de cana a ser transformada em eletricidade para atender ao mercado. Boa parte dessa geração já é feita e fornecida por meio de contratação via leilões públicos e em comercialização no mercado livre.

Entretanto, há disponibilidade extra. Levantamento realizado em abril deste ano pela UNICA e Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen) apontou que centrais movidas a biomassa poderiam gerar 4,6 mil gigawatts-hora (GWh) adicionais entre agosto de 2021 e dezembro de 2022.

Para se ter ideia, esse montante é suficiente para atender 2,5 milhões de residências e equivale a 1% do consumo anual de energia elétrica do país (leia aqui mais a respeito).

Mas se existe essa disponibilidade enquanto o Brasil enfrenta o pior déficit hídrico dos últimos 90 anos, por que então, a bioeletricidade não entra de vez em cena?

A resposta a esta pergunta foi apresentada no dia 19 de agosto durante o evento online da Fenasucro & Agrocana “Entressafra: Ganhos e Eficiência nas Usinas”, realizado em parceria com a CPFL Soluções.

“É preciso ter um projeto de nação”

Com moderação de Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana; o evento reuniu Eberson Fernandes Muniz, consultor técnico da CPFL Soluções; Eduardo Paes, consultor de energia do Grupo Toniello; e Gonçalo Pereira, professor titular da Unicamp.

Segundo Pereira, o Brasil pode, sim, ser liderança mundial em bioeletricidade. Para tanto, diz, é preciso ter um projeto de nação.

“Todos acompanhamos de forma incrível, inexplicável, as medidas relacionadas à privatização ou capitalização da Eletrobrás”, comenta, referindo-se à implantação de térmicas a gás natural previstas nesse processo de privatização. Vale aqui explicar que o gás emite mais CO2 – que forma GEE – na comparação com a biomassa. Em outras palavras, a capitalização da Eletrobras – cuja maioria da geração é hídrica, renovável – será feita tendo como contrapartida a implantação de térmicas a gás (leia mais aqui). 

“Porque mais térmicas a gás natural se podemos aproveitar para ser liderança mundial em bioeletricidade? Não há lógica”, afirma o professor da Unicamp.

Pereira dá a receita para chegar a essa liderança mundial.

Confira o que, segundo ele, deve ser feito a respeito da bioeletricidade:

  1. Ampliar a cogeração

“O número de usinas gerando eletricidade é grande, mas longe de ser exaustivo. É preciso tornar isso exaustivo, aproveitando as tecnologias já implantadas.”

  1. Necessidade de programa

Para fazer com que a maioria das usinas produza eletricidade excedente, “é preciso um programa focado em eficiência, com modificações, uma vez que a [cogeração] em uma usina com moagem de menos de 3 milhões de toneladas de cana por safra é diferente da que processa 6 milhões de toneladas.” 

  1. É preciso fazer lobby

“O que é preciso fazer: lobby no melhor sentido pelas instituições em apoiar o governo, no melhor sentido, para políticas públicas com começo, meio e fim, para se chegar ao máximo de cogeração.”

  1. Limitação de capacidade

É preciso ampliar os atuais limites de geração. O Brasil vai precisar de muita energia e a limitação [de capacidade instalada para bioeletricidade] parece coisa que se joga contra nós mesmos.”

  1. Antecipar o que virá

“O Brasil é um dos poucos países que pode antecipar o que virá. Este ano [de crise hídrica] é o primeiro dos piores anos. O que virá pela frente será pior.”

  1. Tecnologia e cana

Caso haja programa com começo, meio e fim, como ampliar a cogeração de forma sustentável?

“A ciência avança: temos a cana-energia, que tem potencial de triplicar a produção ante a cana convencional, porque tem ciclo de 18 anos [contra o máximo de 10 da cana convencional]. Temos que aproveitar esse potencial.”

Cita, também, o sisal, como fonte de biomassa, por gerar 800 toneladas em um hectare, em pleno sertão brasileiro, para reforçar a oferta de biomassa.

  1. Conjunto de oportunidades

“Estamos à frente de um conjunto de oportunidades. Mas isso não virá se não se colocar a energia nessa direção.”

“Temos condições, conhecimento, somos o 13º país do mundo em conhecimento científico. Mas é preciso uma política pública de Estado, não de governo, para que ela não seja descontinuada.”

O evento ainda falou sobre cases de sucesso, tecnologias aplicadas e a atuação da CPFL Soluções para apoiar a indústria com a infraestrutura energética necessária para atender a essa demanda. Se você não pôde a companhar, não tem problema, o mesmo foi gravado e está disponível na plataforma Fenasucro & Agrocana TRENDS, clique aqui e acesse!

Webinar Entressafra: Como a boa gestão da infraestrutura energética pode impactar ganhos e eficiência nas usinas
Webinar Entressafra: Como a boa gestão da infraestrutura energética pode impactar ganhos e eficiência nas usinas

Além do professor da Unicamp, os demais participantes do evento online “Entressafra: Ganhos e Eficiência nas Usinas” também prestaram informaçẽos estratégicas para gestores de empresas sucroenergéticas.

Energia Que Fala Com Você apresenta a seguir avaliações apresentadas pelos participantes:

Eberson Muniz, CPFL Soluções:

Maximizar ganhos

“Buscar novas alternativas para reduzir custos e maximizar ganhos são ações para dar suporte a novos investimentos.

Eficiência e ampliar capacidade de geração são ações imediatas de fácil acesso, mesmo com particularidades a serem avaliadas.”

Como hoje há vinhaça e gera biogás, dá para maximizar [a produção de eletricidade]. E no período da entressafra é preciso planejamento no caso das estruturas elétricas existentes.”

Geração complementar

Há dois tipos de instalações de bioeletricidade. Sendo uma nova, de geração complementar, que poderia ser, por exemplo, homologada por compensação em geração distribuída. Legislação contempla isso e é pouco explorado.

“Trará mais resultado financeiro a ser investido.”

“Além dessa possibilidade, é preciso olhar com carinho para essas instalações para que seja colocado em marcha e entrar em produção em ritmo de cruzeiro.”

Resultados na entressafra

Uma alavanca de investimento é o planejamento de revisão. Com plano plurianual, na safra executa-se o plano de manutenção, porque o executor pode acompanhar pontualmente as ações na safra e depois, na entressafra, reduzirá custos com melhora operacional. “E os resultados geram recursos para serem reinvestidos.”

Crise hídrica exige mais bioeletricidade

“O valor da energia precisa ser atrativo para incentivar mais, sim.

Fomentar essa expansão é fundamental, principalmente agora, diante a crise hídrica.

É importante realizar estudos detalhados para avaliar o potencial de conexão. Ter capacidade, mas não escoamento, é um problema. Olhar com detalhes e aprofundar projeto de subestações, ponto de conexão.” Isso tudo é fundamental “porque a depender da estratégia adotada, afeta diretamente investimentos e prazos, até porque muito é negociado em leilões.”

Da porteira pra fora, independe da usina. A ligação entre sistema elétrico e usina tem que estar azeitada. “Assessoramos os geradores a buscar a melhor alternativa para auxiliar no escoamento da energia.”

Inteligências entre serviços

“Nada adianta acompanhar se variáveis cruzadas não gerarem saídas para resultado melhor. Olhar para a manutenção como investimento, não como despesa.”

Com esses dados, após a implantação de telemetria, de operação assistida, leva ao gestor a possibilidade de implementar ou não tal ação, mas que trará quantitativo resultado com mais disponibilidade de despacho.

Para melhor eficiência operacional. “Se há menor custo, tem esse resultado financeiro, podendo ser reinvestido”.

Digitalização é ferramenta extremamente importante, necessária e fundamental. “Instrumentalizar todos os processos, onde entra a eletricidade, em nível hard. Depois tratar em nível software.”

E, em terceiro, em inteligência aplicada, é o caminho necessário e no qual os investimentos precisam ser feitos.

E finaliza: quando se fala em IoT “nosso setor está um pouco longe, mas temos uma ponte: a inteligência aplicada.”

Eduardo Paes, Grupo Virálcool

Foco na biomassa

“Quem conduz o Sistema Interligado Nacional, o Operador Nacional do Sistema, o ONS, deve olhar a biomassa”.

Usinas geram eletricidade no período seco

“As pequenas centrais hidrelétricas são importantes de novembro a março, as eólicas atenderam 100% da carga [geração mais perdas de energia no sistema] do Nordeste, enquanto nossa parte [bioeletricidade das usinas] é entre maio a dezembro, [justamente na estiagem].”