Como o setor sucroenergético aprende com a logística integrada do varejo

Confira avaliações de empresários e especialistas participantes de webinar promovido pela Fenasucro & Agrocana Trends em parceria com o LIDE Ribeirão Preto

Como o setor sucroenergético aprende com a logística integrada do varejo
Crédito foto: Agência FAPESP

O que a cadeia de produção de bioenergia do Brasil tem a aprender com os gigantes da logística integrada do varejo?

Muito, muito mesmo. Em primeiro lugar, porque 30% dos produtos que saem das usinas de cana-de-açúcar estão ligados a logística e transporte, como destaca Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana.

Já em segundo lugar, as usinas têm que ‘beber na fonte’ das gigantes focadas em logística e transporte porque, enfim, essas investem o tempo todo em tecnologias. Digitalização, Internet das Coisas (IoT) e a tão esperada 5G já integram a gestão – ou estão no radar  – e, assim, também entraram – ou entrarão – no dia-a-dia das empresas do setor de bioenergia. 

Tudo isso foi discutido por empresários e especialistas durante o webinar “O que a cadeia de produção de bioenergia do Brasil tem a aprender com os gigantes da logística integrada do varejo?”, realizado no dia 26 de agosto.

O evento é de iniciativa da Fenasucro & Agrocana Trends e do LIDE Ribeirão Preto – Grupo de Líderes Empresariais, promovido pela RX Brasil e pelo Ceise BR, com patrocínio da FreteBras. 

Além do diretor da Fenasucro & Agrocana, o encontro virtual também foi mediado por Fábio Fernandes, presidente do LIDE Ribeirão Preto – Grupo de Líderes Empresariais. 

Quer saber as avaliações dos participantes do evento online? Energia Que Fala Com Você apresenta a partir de agora. Confira: 

Paulo Montabone - Diretor da Fenasucro & Agrocana e Fábio Fernandes - Presidente LIDE Ribeirão Preto

“Trânsito de setores é muito proveitoso”

Assim como Paulo Montabone destacou, em sua apresentação, que 30% dos produtos do setor de bioenergia estão atrelados a logística e transportes, Fábio Fernandes, presidente do LIDE Ribeirão Preto – Grupo de Líderes Empresariais, destacou como é vital a integração de setores econômicos. 

“O LIDE é uma organização que desde 2003 reúne os líderes das maiores organizações, em quase todos os estados, em 12 países. Essa troca entre setores é fundamental”, disse. “Quando líderes veem trânsito de setores, é muito proveitoso”. 

André Rocha: “Temos que ser cada vez mais eficientes”

André Rocha, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool do Estado de Goiás (Sifaeg)

Eficiência é palavra de ordem no setor sucroenergético e um bom exemplo está em Goiás, estado responsável por 13% da produção nacional de etanol. 

André Rocha, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação de Álcool do Estado de Goiás (Sifaeg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar do Estado de Goiás (Sifaçúcar), além de presidente do LIDE Goiás, destacou muito bem porquê a logística pesa tanto no setor em  seu estado. 

“Goiás está no coração do Brasil. Tem o bônus de estar em um raio de menos de mil quilômetros, seja em Belo Horizonte ou São Paulo. Mas há o ônus: estamos a mais de mil quilômetros do principal porto. Isso encarece custos para escoar produtos ou receber importados, que chegam via navios.”

Desafio do supply chain

Rocha lembra o peso para o açúcar e etanol de supply chain (conceito que abrange todo o processo logístico de determinado produto ou serviço, desde a sua matéria-prima até a sua entrega ao consumidor final).

“Em grãos, o país produz 300 milhões de toneladas por ano e, no caso da cana, falamos em 600 milhões de toneladas em um raio médio de 30 quilômetros da usina, com veículos levando 74 toneladas de cana e ainda há o escoamento do açúcar e do etanol”.

Mas por que há dificuldade?

“70% do açúcar brasileiro é para exportação e a distância entre usina e porto já traz grande dificuldade”, diz, lembrando ser este motivo – distância – a explicação de porquê o Centro-Oeste faz 25% da produção nacional de etanol. 

Dada a complexidade de produtos e de gestão, ele afirma “temos de ser cada vez mais eficientes”.

Rocha citou, como exemplo da complexidade do setor a questão da janela de safra: as usinas começam a operar em abril, ainda com pouco de chuva, e têm que terminar antes da nova temporada de chuva. “Daí tem-se que ser eficiente e produtivo.”

Mais exemplos: os principais insumos, sejam químicos, fertilizantes, leveduras, todos precisam de acompanhamento de estoque. “Com a greve dos caminhoneiros em 2018, o setor, assim como outros, foi afetado”, destacou. “Tivemos que trabalhar muito mais com TI de lá para cá para ser cada vez mais eficientes.”

Safra curta exige gestão eficiente de estoque 

André Rocha também abordou, em sua participação, sobre um novo desafio aos gestores de usinas: a safra vigente será mais curta na região Centro-Sul, por conta da estiagem de 2020 e da geada registrada neste ano em algumas regiões. 

“Teremos em 2021 a safra terminando mais cedo, principalmente em São Paulo. Antes terminava em novembro e, desta vez, terminará em outubro.  Temos, assim, desafio do estoque – já que entressafra será maior – e a safra não poderá começar antes, até esperar pela cana.”

Em resumo, ele atesta que “os mais eficientes é que irão sobreviver.”

Dennis Herszkowicz - CEO da Totvs

Para o CEO da Totvs, é preciso monitorar tudo

Dennis Herszkowicz, CEO/Presidente da empresa de tecnologia Totvs S/A, destacou que o “grande desafio do agro, do qual a bioenergia faz parte e puxa, é monitorar tudo que acontece na produção”.

“A única forma de ganhar em produção é você estar investindo em tecnologia, conectando tudo que faz através de dados e da nuvem, para que consiga estabelecer metas permanentes de evolução.”

“O setor de bioenergia é uma locomotiva”, resume. 

“Tudo caminha para o aspecto de conectar os diferentes dispositivos seja na lavoura, na colheita, no processamento e escoamento. Ter tudo conectado para gerar quantidade de informações a serem processadas para gerar insights que te dêem ganhos, isso é a essência.”

E como a Totvs pode participar disso? 

“Na medida que estamos nesse contexto, com softwares de gestão de controle, boa parte do trabalho está em garantir a conexão dos diferentes elos e dispositivos para que, por meio desse sistema de gestão, os dados sejam organizados para serem usados de forma inteligente e eficiente.”

“Escassez é a mãe dos resultados”

O CEO é direto, ao comentar sobre gaps: “a escassez é a mãe dos resultados. Está mais do que provado na história das economias que quando você tem escassez, é de onde surgem as inovações.”

“Na Totvs não é diferente. Temos gestão disciplinada, eficiente, para extrair o máximo do recurso investido.’

Lembra que o agro é um setor fundamental. “Ele traz para o Brasil e para a Totvs uma quantidade gigantesca de oportunidades. A construção civil, a indústria de carros, crescem por conta do agro. 

O agro, como diz a propaganda, é a essência do País. E isso é fantástico porque poucos países têm capacidade de concorrer com o Brasil.”

E frisa: “não poderíamos deixar de ter o agro como setor estratégico. Hoje representa de 15% a 20% do total da Totvs. Na medida que é viabilizador de outros setores, a importância relativa é mais importante do que esse percentual.”

João Naves - Presidente Grupo Rodonaves

“É preciso preparar estrutura para apoiar os clientes”, afirma João Naves

Se existe uma gigante do setor de transportes que pode ensinar – e muito – o setor de bioenergia é a RTE Rodonaves. 

É que praticamente todas dificuldades e ações decisórias são partilhadas, por exemplo, pelas usinas de cana. 

Sem mais rodeios, leia avaliações do presidente da empresa, João Naves, também participante do webinar. 

Clientes, sempre

A greve dos caminhoneiros, em 2018, afetou diretamente a RTE Rodonaves, cuja essência do trabalho é justamente realizar entregas de seus clientes e para os clientes desses. 

“A greve geralmente chocou todo mundo, mas é preciso achar alternativas”, atesta o empresário. “É preciso preparar a estrutura para apoiar todos os clientes.”

Melhor dizendo: o cliente é a razão de ser do negócio. 

E exemplifica: a Rodonaves hoje trabalha em 12 estados, mais o Distrito Federal, mantém [toda gestão] atualizada, mais a necessidade de trabalhar os clientes, sejam eles das mais diferentes áreas, caso dos do agronegócio.

As dificuldades sobram. “Antes eram estradas em más condições, mas hoje, com tecnologia avançada, temos estrutura para transportar cargas fechadas ou fracionadas, que são nosso forte.”

Naves volta a bater na tecla do cliente. “Entendemos que estando próximo dele, temos gás para enfrentar [qualquer situação].”

Assim como as empresas do setor sucroenergético ampliam o leque de produtos, que vão de etanol celulósico (2G) a biogás ou biometano, empresas tradicionais de transportes como a Rodonaves apostam em novas frentes. 

Hoje, por exemplo, a empresa também atua como concessionária de caminhões. Já tem cinco lojas e até o fim do ano deverá abrir a sexta, em Presidente Prudente (SP). 

“Consumimos caminhões e os oferecemos”, diz Naves, que cita investimentos de R$ 30 milhões em 2021 para dar continuidade e retorno para todos. “Temos planos de dobrar o faturamento em cinco anos em todos os segmentos.”

Dúvidas sobre elétricos

A eletrificação é um caminho sem volta, mas o presidente de uma das maiores empresas usuárias de veículos do país ainda tem dúvidas sobre o retorno desse tipo de motor. 

Depois de 40 anos (de existência da RTE), a empresa tem agora bicicletas elétricas para entregas em grandes centros. “Já temos seis delas, mas o custo é muito elevado e há incertezas sobre o que irá ocorrer daqui cinco anos [com o mercado de elétricos]”. 

Ainda sobre elétricos, Naves diz: “estamos de olho em testes com caminhões menores elétricos, mas são necessárias seis horas de carregamento para rodar 200 quilômetros”.

Diante disso, “tem-se que andar menos porque não há como abastecer e, assim, vamos colocar um caminhão desses em cada filial.”

Soluções diante da falta de redes de abastecimento?

“Nosso governo tem que participar, não basta meia dúzia de empresários correrem atrás.”

Aproveita para reiterar: “sou pessoa que acredita; não sou o meio e nem o fim, mas acreditamos.”

Marcelo Cosentino - VP de Segmentos da Totvs

A exemplo do varejo, setor de bioenergia deve focar o consumidor

O varejo prova que ajuda setores como o de bioenergia e seguirá assim no futuro. 

Marcelo Cosentino, CEO de Segmentos da Totvs S/A, lembra que o varejo foi motor de mudança. “Permitiu que o cliente tivesse o produto no momento que precisasse”, diz. “Antes, era preciso ir a uma loja e torcer para que houvesse o produto.”

A revolução foi muito intensa. Com ela, vieram alterações como promover o redesenho das comissões e como remunerar a rede franqueada. “A mudança final é ver grandes varejistas criarem estruturas de entregas, porque o setor de transporte não estava preparado.”

E como o setor de bioenergia deve se preparar antes da disrupção? 

“Quem está inscrito nessa cadeia deve, a exemplo do varejo, ver o consumidor, entregar o produto o mais rápido possivel”, diz, lembrando que isso vale para bioenergia. “Todos setores da economia têm disrupção, mas em alguns ela é mais rápida.” 

Manufatura deve ser prioridade

Para Cosentino, o Brasil precisa trabalhar para manter a indústria de manufatura local “e reforçar as cadeias com fornecedores que entendam nossas necessidades.”

“Com a pandemia, percebemos que toda produção de máscaras é da China, e quando ela deixou de exportar, faltou produto”, exemplifica. 

“Não se pode imaginar país forte se não tiver inovação capitaneada por empresas do país”, prega. 

“Temos que ser mais abertos, o empresariado acreditar mais, e o governo tem que ajudar em termos macroeconômicos.” 

E o que se pode esperar na bioenergia dentro de 10 anos? 

“Digital”, dispara o empresário.

“Se pensar em 5G nas fazendas, com custo mais acessível, [sistemas] de IoT mais baratos, tudo estará mais digital. Não sei se mais robotizado, mas o digital estará lá.”

“Poderá se saber com precisão maior o que ocorre em cada hectare. Hoje é caro. Não é abordagem para qualquer um. Mas haverá escala, e isso irá reduzir os preços.”