Como os biocombustíveis do Brasil podem ajudar na corrida da Europa pela descarbonização

Europeus têm até 2030 para se livrar de boa parte do consumo de combustíveis fósseis e de outros poluentes como carvão, mas querem fazer isso com segurança

Como os biocombustíveis do Brasil podem ajudar na corrida da Europa pela descarbonização
Créditos da Imagem: Christian Ule/Unsplash

A União Europeia corre contra o tempo em sua meta de reduzir as emissões de poluentes. De fato, é preciso mesmo muita pressa porque o objetivo é o de reduzir a poluição em pelo menos 55% até 2030, em relação aos níveis de 1990.

Para tanto, a Comissão Europeia, instituição que representa e defende os interesses da União Europeia, anunciou neste ano uma série de leis para reorganizar a economia.

No início de junho, por exemplo, a União Europeia aprovou de imediato a criação de um fundo de 17,5 milhões de euros chamado Fundo para uma Transição Justa.

A intenção do Fundo é a de financiar projetos que possam atenuar os impactos socioeconômicos do processo de descarbonização da economia europeia.

Por sua vez, diante das diferenças entre os 27 estados-membros, que investem para enfrentar o processo de transição energética, o Fundo prioriza regiões mais dependentes dos combustíveis fósseis e de outras fontes igualmente poluentes.

É o caso, por exemplo, da França, que embora seja um país com matriz energética pouco intensiva em combustíveis fósseis, empreende o Plano Plurianual de Energia (PPE), lançado em 2018, que tem como meta a redução de emissões de gases com efeito estufa em 40% até 2030, ante os níveis de 1990, e a neutralidade de carbono até 2050.

Por sua vez, a Alemanha é um dos países que poderá se beneficiar do fundo, uma vez que conta com extensa indústria carvoeira.

Já em não-membros da União, como Noruega e Reino Unido, a indústria de petróleo e gás desempenha um papel econômico relevante.

Todavia, membros e não-membros da União estão inseridos na corrida pela descarbonização. E entre os substitutos limpos dos emissores de carbono entram, por exemplo, hidrogênio e energia eólica offshore (no mar).

Transição exige segurança na oferta dos biocombustíveis do Brasil

Mas vale perguntar: tais substitutos renováveis serão suficientes?

Não bastasse, tem outro nó. “Muito se fala da transição energética na Europa e de seus benefícios para tornar o mundo mais limpo, mas pouco se trata sobre como essa diretriz está conectada à autonomia e segurança europeia”, relata em artigo Isadora Caminha Coutinho, pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep)

Pois bem. Vamos a outra pergunta: diante da pressa europeia de trocar fontes poluentes por limpas, desde com a segurança necessária, há espaço para a participação de fontes renováveis e de tecnologias limpas desenvolvidas pelo Brasil?

Para responder a essa questão e comentar mais sobre o assunto, Energia Que Fala Com Você entrevista a também pesquisadora do Ineep Ana Carolina Chaves Católico.

Engenheira de petróleo pela Universidade Federal do Rio (UFRJ), com mestrado em Engenharia Urbana pela mesma instituição, Ana Carolina tem especialização em meio ambiente e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciência Estatísticas (ENCE/IBGE). No Ineep, ela atua como pesquisadora na área de Energia e Meio Ambiente.

Confira a entrevista.


O Brasil possui experiência e know-how em biocombustíveis e em tecnologias em desenvolvimento (célula a etanol, motor flex). Será possível o País participar da ‘corrida’ dos países europeus pela descarbonização e pelo maior uso de renováveis?

Ana Carolina Chaves Católico – Neste caso, pode-se dizer que o Brasil já apresenta como diferencial uma matriz energética essencialmente renovável e o país não se insere na lista dos grandes emissores de gases de efeito estufa (GEEs).

De acordo com os dados do Balanço Energético Nacional (EPE, 2021), em 2020, 48,4% da oferta interna de energia era proveniente de fontes renováveis, com destaque para o crescimento da oferta de biomassa da cana e do biodiesel.

Além da biomassa, observa-se o aumento da participação na oferta interna de energia da fonte solar, em 61,5%,  e da fonte eólica, em 1,9%, em relação a 2019.

Desta forma, o Brasil pode encontrar espaço nesta “corrida”, inclusive com o uso da bioenergia, haja vista sua grande disponibilidade de biomassa.

Além disso, o país possui significativo domínio tecnológico neste setor acumulando experiência e conhecimento desde os anos 70 com a implementação do Proálcool.

O Brasil também possui excelência acadêmica focada em renováveis. Parte desse corpo pode trabalhar nos países da UE e em europeus como Inglaterra para atender as políticas de mitigação de gases GEE?

O Brasil possui relevante potencialidade de profissionais que já trabalham na área de renováveis e bioenergia, que poderiam compartilhar seu conhecimento em casos aplicados no mercado europeu. Dentre estes, menciona-se, por exemplo, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).

O que impede o Brasil de levar seus atores (tecnologia de biocombustíveis e excelência acadêmica) para esse mercado europeu?

Ana Carolina Chaves Católico – O Brasil possui potencial de exportar a tecnologia do biocombustível, mas possivelmente o baixo incentivo e financiamento para o desenvolvimento de projetos e pesquisas limitam esse avanço.

Ressalta-se que, atualmente, o mercado de biocombustíveis ainda encontra-se concentrado em países como o Brasil e Estados Unidos.

O que é preciso fazer para participarmos desse mercado? No caso da indústria de bens de capitais de usinas de cana e de etanol de milho, o Ceise BR (entidade do setor) diz que o Custo Brasil encarece os produtos ante a concorrência da Índia, por exemplo. Este é um impeditivo para o Brasil entrar nesse mercado europeu de mitigação?

Ana Carolina Chaves Católico – Um dos problemas a serem citados são as exigências dos países europeus na obtenção da certificação International Sustainability and Carbon Certification (ISCC). Além disso, muitas plantas e usinas usam equipamentos importados, o que encarece os produtos finais.