E se a crise hídrica continuar e a economia retomar crescimento? Haverá energia?

Pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos (Ineep) responde estas perguntas e avalia o impacto das crescentes fontes renováveis na geração de eletricidade

E se a crise hídrica continuar e a economia retomar crescimento? Haverá energia?
Foto: Matthew Henry on Unsplash

Que a crise hídrica atinge as usinas hidrelétricas, isso é fato diariamente divulgado pela imprensa. 

Na verdade, trata-se de um problemão para o Brasil que ensaia retomar o crescimento econômico, principalmente porque mais de 60% de toda energia gerada no País vem dessas usinas. Ou seja, estamos reféns das hidrelétricas. 

Mas existem atenuantes nessa escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas. Em recente evento online, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Luiz Carlos Ciocchi, garantiu que o Brasil deve conseguir fechar o ano sem racionamento de energia elétrica. O mesmo deve ocorrer em 2022, emendou (leia aqui mais sobre esse evento).  

Na mesma oportunidade, Christiano Vieira, secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia (MME), garantiu que o país tem energia para garantir o crescimento da economia, “devido a um planejamento que prevê a entrada em operação de capacidade de geração e de transmissão nos próximos anos.” 

De seu lado, os técnicos do governo federal apresentam projeções para aliviar as preocupações que dominam grandes consumidores de energia, caso da indústria, dependentes do Sistema Interligado Nacional (SIN).  

Há uma fatia desses consumidores que escapa do SIN e compra diretamente dos geradores, por meio do Mercado Livre de Energia. Mas é uma fatia que, pelas regras vigentes, concentra clientes de consumo acima de 500 kilowatts (kW). Em termos comparativos, um transformador de rua comum abastece várias residências e tem capacidade de 75 kW (saiba mais aqui).  

Mas em resumo, o Mercado Livre já responde por 30% da energia consumida no país, conforme relata a Abraceel, que representa empresas comercializadoras de energia.  

Sendo assim, os demais 70% do consumo são atendidos pelo chamado sistema regulado, no qual o consumo é obrigatório da distribuidora da área de concessão onde se encontra o consumidor e sem escolha do fornecedor de energia.  

Leia também: Termelétrica de 1,3 mil MW entra em cena e reforça oferta de energia 

Expansão do setor industrial  

E que pese a situação, vai aí um ingrediente a mais: a carga (que significa a soma do consumo de energia com as perdas na rede) cresce sem parar.  

Para outubro, por exemplo, o ONS prevê elevação de 1,3% na carga ante igual período de 2020. Motivo: permanência do setor industrial em modo de expansão e a recuperação do segmento de serviços (leia mais aqui).  

Diante tudo isso, como ficará daqui para a frente? A crise hídrica seguirá, as fontes renováveis de geração como a solar podem ajudar nessa oferta?  

Para responder a estas e a outras perguntas, Energia Que Fala Com Você entrevista Ana Carolina Chaves Católico, pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).  

Engenheira de petróleo pela Universidade Federal do Rio (UFRJ), com mestrado em Engenharia Urbana pela mesma instituição, Ana Carolina tem especialização em meio ambiente e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas pela Escola Nacional de Ciência Estatísticas (ENCE/IBGE). No Ineep, ela atua como pesquisadora na área de Energia e Meio Ambiente. 

A crise hídrica deve perdurar em 2022 e mesmo nos próximos anos? 

Ana Carolina Chaves Católico – Tendo em vista a conjuntura atual e a trajetória das estratégias adotadas, espera-se que a crise hídrica  brasileira ainda avance para o ano de 2022.  

Isso porque parte de suas possíveis causas está em questões estruturais do setor e em um conjunto de ações governamentais que contribuem para a manutenção da crise atual, como a flexibilização do quadro regulatório ambiental, estímulo ao avanço da fronteira agropecuária e medidas insuficientes para conter o desmatamento e controle de queimadas em importantes biomas. 

O aquecimento global contribui para essa crise? 

Ana Carolina Chaves Católico – Certamente. O aquecimento global e seus desdobramentos nos ecossistemas são um dos fatores identificados como potencializadores da atual crise hídrica, assim como o avanço da fronteira agropecuária e o aumento do desmatamento e queimadas, principalmente em biomas como o da Floresta Amazônica e o Cerrado.  

Haja vista que esses biomas apresentam significativa contribuição para a manutenção das bacias hídricas brasileiras. 

O que se pode fazer para reduzir a dependência hídrica, que deve estar hoje em mais de 60% do total de geração de energia no país? 

Ana Carolina Chaves Católico – Nos últimos anos, a matriz elétrica brasileira vem se diversificando cada vez mais através do aumento crescente de outras fontes de energia renovável, em especial energia eólica e solar.  

Ao se comparar a participação de renováveis na matriz elétrica de 2020 com a de 2019, verifica-se o crescimento da energia solar fotovoltaica (91,5%), biomassa (6,9%) e energia eólica (1,9%), além da redução da participação da geração hidrelétrica (-0,4%). 

Neste mesmo período, verifica-se também um aumento da capacidade instalada de 32,9% nas unidades de solar e 11,4% na eólica. 

Significará menos dependência da energia hidráulica?  

Ana Carolina Chaves Católico – No longo prazo, a tendência é que a dependência da energia hidráulica diminua, na medida em que a expansão das outras fontes ocorra. 

Estima-se que, se toda a potência contratada for efetivamente construída, a participação da energia hidráulica na matriz elétrica nacional vai cair dos atuais 62% para 49%. 

A fonte solar, que cresceu muito nos últimos anos, é uma alternativa para atenuar essa crise hídrica ou é paliativa na medida que gera pouco na comparação com outras fontes? 

Ana Carolina Chaves Católico – Como mencionado anteriormente, a tendência é que a expansão do sistema elétrico brasileiro registre forte aumento de participação de unidades produtoras fotovoltaicas de sua dispersão geográfica no território.  

No entanto, diferentemente das demais fontes energéticas, o operador das unidades fotovoltaicas não tem como garantir o volume de energia que vai entregar ao sistema, haja vista a intermitência desse tipo de fonte, ocasionando grandes variações na energia produzida. 

Esta característica inerente a estas fontes pode gerar problemas de confiabilidade ao sistema.  

O que fazer?  

Ana Carolina Chaves Católico – Para isso, existem diversas soluções que já vem sendo estudadas pelas principais entidades do setor, que permitem maior confiabilidade e flexibilidade operativa ao sistema. 

Seja pelo uso de usinas termelétricas de fonte renovável (biomassa) e não renovável (gás natural), soluções de aumento de armazenamento de energia, gestão da demanda e aumento de integração do sistema.