Ambientalmente sustentável, biogás da cana atrai novos investidores

Confira quem são as empresas que também querem fazer eletricidade a partir da biomassa canavieira

Ambientalmente sustentável, biogás da cana atrai novos investidores
Crédito da imagem: Raízen/Divulgação

Produzir biogás de biomassa de cana-de-açúcar já se confirma como novo ativo das usinas sucroenergéticas. A unidade Bonfim, de Guariba (SP), controlada pela Raízen, deu a largada na produção desse renovável que é transformado em eletricidade e reforça o parque gerador brasileiro.

Em julho, a unidade começou a fornecer em escala comercial a energia elétrica processada a partir de palha de cana, vinhaça e torta de filtro, subprodutos do processo de fabricação da usina. Leia mais aqui.

Mas quais são os motivos de se investir em biogás de cana?

Em primeiro lugar, vem o motivo ambiental. Ao ser transformada em biogás, a biomassa de cana quase zera a emissão de gases causadores de efeito estufa (GEEs), caso do dióxido de carbono (CO2) que jorra na atmosfera pelos derivados fósseis diesel e óleo combustível, empregados em termelétricas. 

Já em segundo lugar, tem o aproveitamento de subprodutos da cana. Palha, vinhaça e torta de filtro ainda têm finalidades que podem ser melhor aproveitadas pelas usinas. 

É certo que palha pode virar eletricidade na cogeração com bagaço – que alimenta de energia a usina no período da safra -, e a vinhaça engrossa o processo de fertirrigação para fortificar os canaviais. Mas tanto um como outro processo custam, porém tornam-se ativos também financeiros se transformados em energia elétrica proveniente do gás renovável. 

Tem mais: o biogás já é contemplado pelo programa de Estado RenovaBio e, assim, a usina credenciada melhorar sua nota de eficiência para emitir – e vender – créditos de descarbonização, os CBios (leia mais a respeito aqui). 

Não bastasse, se a usina decidir investir mais, transforma o biogás em biometano e esse pode substituir gás de cozinha encanado e atender empresas consumidoras de gás natural ou combustível. E, não bastasse, o biometano também pode entrar no lugar do GNV em motores de veículos. 

Novos investidores no gás renovável 

Pois bem. Diante deste cenário positivo, o biogás de biomassa atrai novos investidores. 

Oficialmente, dois deles anunciaram recentemente seus projetos relacionados ao gás renovável: o grupo sucroenergético Cocal e a escocesa Aggrekko, conhecida como prestadora de serviços de energia modular móvel.

No caso da Aggrekko, o diretor de vendas, Hugo Dominguez, em entrevista ao Valor, disse que a empresa já oferece soluções de geração para o mercado de biogás e, agora, também quer realizar a venda da energia. 

Aí é que entra a fonte biomassa canavieira, além de outras como aterros sanitários e indústria alimentícia. Conforme o executivo, as geradoras a biogás não são intermitentes como outras renováveis, caso da solar, e, assim, podem ser despachadas a exemplo das hidrelétricas. 

A Aggrekko, finaliza, enxerga muita oportunidade no biogás gerado a partir de resíduos sólidos urbanos. Mas o grande mercado em expansão é o de resíduos do agronegócio, ou seja, das usinas canavieiras. 

Renovação da matriz energética

Por falar em usinas, o Grupo Cocal, com duas unidades produtoras no interior paulista, também anunciou recentemente aportes para ampliar sua produção de etanol e renovar sua matriz energética por meio de biogás. 

No caso, a companhia investirá US$ 70 milhões obtidos por financiamento privado com o International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, no valor de US$ 40 milhões. Os demais US$ 30 milhões provêm dos bancos Itaú BBA e Rabobank, destaca o Valor.

Parte do biogás a ser produzido será, por sua vez, transformado em biometano e atenderá os ramais de distribuição em fase de implantação pela distribuidora GasBrasiliano (leia a respeito aqui). 

Detalhe: a mesma fábrica produzirá energia elétrica de biogás a partir de vinhaça e torta de filtro. 

Segundo Carlos Leiria Pinto, gerente-geral da IFC para o Brasil, o projeto da Cocal está alinhado com um dos pilares da IFC, que é tornar a sustentabilidade ambiental e social um motor do agronegócio. 

E trata-se de um motor que tende a atrair mais e mais investidores. 

Afinal de contas, as projeções produtivas de biogás pela associação do setor, a Abiogás, são de que o potencial energético do gás renovável e do biometano de cana é de 100 milhões de metros cúbicos diários, suficientes para substituir quase 70% do diesel consumido no País.