Especialistas indicam como o País deve modernizar a infraestrutura elétrica

Eles participaram de evento online da Abinee TEC Debates 2021. Confira o que disseram

Especialistas indicam como o País deve modernizar a infraestrutura elétrica
Foto: Analogicus (Pixabay)

Entre o apagão de 2001 e a atual crise hidroenergética, o sistema energético brasileiro avançou e muito.  

Em primeiro lugar, novas fontes geradoras ganharam peso na geração, caso da eólica e da solar. Chegou também o mercado livre de energia, no qual se pode adquirir eletricidade sem estar atrelado às distribuidoras.  

É certo que esse mercado hoje é restrito aos grandes consumidores, mas poderá ser acessado pela maioria, caso projeto em tramitação no Congresso Nacional seja aprovado (ler aqui).   

No mais, o consumidor de pequeno e médio porte colheu frutos nessas duas décadas, nas quais a infraestrutura de transmissão e distribuição recebeu aportes em modernização.  

Mas nem tudo é motivo de celebração.  

Se por um lado a matriz elétrica está mais diversificada e o sistema de transmissão mais robusto em relação à crise de 2001, a demanda da sociedade para a garantia de suprimento de energia hoje é muito maior.  

Ou seja, os investimentos já realizados são incapazes de acompanhar as mudanças tecnológicas que promovam a modernização da infraestrutura de transmissão e distribuição de eletricidade no Brasil. 

Só assim, por exemplo, seria permitido o acesso da população a tecnologias que promovam eficiência energética, o melhor enfrentamento das mudanças climáticas e o surgimento de novos modelos de negócios. 

Mas qual o motivo disso tudo?  

A resposta para a pergunta, com suas respectivas avaliações, é o tema do evento online “Modernização da Infraestrutura Elétrica”, promovido em 05 de outubro dentro da programação Abinee TEC Debates 2021, promovida pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e mediada pelo assessor da área de GTD da entidade Roberto Barbieri

“Se de um lado temos um sistema energético mais robusto ante 2001, hoje a demanda é muito maior”, destacou Humberto Barbato, presidente executivo da Abinee, em mensagem.  

Em resumo, ele disse serem necessárias medidas de curto prazo para enfrentar a crise atual, mas também as de médio prazo, para o pós-crise.   

“A ideia [deste evento] não é discutir a crise hidroenergética, mas a modernização do setor elétrico e como aproveitar o passado para fazer a portabilização”, resumiu. “A tecnologia é a mola propulsora para o nosso setor.” 

Apresentada a mensagem do presidente executivo da Abinee, que estava cumprindo agenda em Brasília, o evento abriu espaço para os oito participantes.  

Executivos de entidades e de empresas, todos eles têm experiência de sobra para apontar soluções e tendências para o tema do evento. Confira a seguir destaques das apresentações deles.  

Especialistas indicam como o País deve modernizar a infraestrutura elétrica

Crise suscita sistema em constante revolução  

Segundo Marcelo Machado, Diretor da Área de GTD da Abinee, o  Sistema Interligado Nacional (SIN) é robusto, mas carece, sempre, de desenvolvimento e modernização. Isso inclui desde fornecedores ao governo e agências reguladoras. 

“A importância hoje de ter discussão no setor elétrico principalmente agora, com a crise, suscita ter sistema em constante evolução, seja por gestão, desenvolvimento”, disse. “A disrupção da tecnologia deve gerar também disrupção no planejamento e gestão do sistema.”  

“Devemos ter primeiro confiabilidade no sistema, com medição inteligente, armazenamento, são alguns dos vetores de sustentabilidade do sistema.” 

Dogmas que dificultam a modernização 

Existem três dogmas que dificultam a modernização e a implentação no Brasil de políticas governamentais claras e específicas, afirma o consultor Cyro Boccuzzi, que apresentou estudo sobre o assunto encomendado pela Abinee.  

Antes da apresentação, ele destacou que nos últimos 26 anos houve cinco socorros ao sistema de energia no país. “Foram R$ 17,5 bilhões ao ano de socorros emergenciais nesse período”, citou.  

“Hoje, estamos em plena crise hídrica pedindo para se consumir menos energia e já comprometendo os custos futuros, seja por indenização de transmissora, pagamento de geração térmica, e tudo isso tem impacto inflacionário para todos.” 

“Desequilíbrio não é bom para ninguém”, resumiu.  

Em tese, disse, grupos internos do Ministério de Minas e Energia, junto com associações, empreendem questões importantes como a eliminação de subsídios. “Mas é difícil, basta ver as térmicas contratada hoje [com o megawatt-hora a R$ 2 mil]”, exemplificou.  

E sentencia: o sistema está à beira do esgotamento.  

Como?  

  • Redes não preparadas para integração avançada de renováveis; 
  • Tarifa monômia na baixa tensão (BT) e sistemas de computação unificada (UCs) sem conectividade; 
  • Sem incentivo ou ferramentas para gerenciamento da demanda; 
  • Os consumidores evoluíram, mas a indústria ainda não.  

Em sua apresentação, Boccuzzi apresenta os 3 dogmas. São eles:  

1 – Smart Grids 

“Quando se fala em modernizar as Smart Grids (redes elétricas inteligentes), quem vai pagar pela troca de medidores? 

O consumidor já paga a conta de socorros periódicos, e nem falo de subsídios como a geração a óleo, as perdas aceitas, já inclusas na tarifa.  

Já se paga esses subsídios sem deixar legado. Gastamos dinheiro sem corrigir o problema. Os socorros dos 26 anos seriam suficientes para bancar 4 implementações completas de Smart Grids no Brasil.” 

Por que é preciso romper essa doutrina: “as medições inteligentes habilitam um novo mercado competitivo de serviços de energia, onde oferta e procura serão estabelecidas crescentemente por transações bilaterais, onde a tarifa regulada somente é adotada como referência de preço de cálculo do desconto.  

2 – Descarbonização  

“Quando se fala em descarbonizar, fala-se em desafios de trocar [as fontes geradoras]. Trata-se de um dogma falso, pois nossa matriz depende cada vez menos das hidrelétricas, devido às mudanças climáticas.” 

Assim, avançam as fontes renováveis [eólica e solar], aumentando mais ainda a demanda por serviços de flexibilidade e integração.” 

Ele destaca, no entanto, que “ferramentas para uso eficiente são cada vez mais necessárias, caso de medidores e tarifas inteligentes.”   

3 – Modicidade ou previsibilidade?  

Segundo o consultor, os reguladores, o pessoal do MME, têm pressões políticas para limitar os custos de energia. “A preocupação dos reguladores é focada no curto prazo. Olha-se a modicidade de hoje e escorrega a conta para o futuro.” 

Destaca que o “cidadão não quer economia, quer opção, transparência. Não quer cartola, mas que tenha chão, base sólida e que se possa escolher planos, tarifas mais aderentes à sua necessidade.”  

Exemplifica: “o avanço da solar decorre da falta de sustentabilidade das tarifas. Quem pode pagar, migra para a solar porque há opções de tarifas.”  

Solução: mudança do mindset (mentalidade) do setor elétrico.  

Motivo: “a tecnologia avança sempre mais rápido que a regulação, seja no Brasil ou no mundo. O Brasil segue trabalhando com paradigmas do século passado.” 

Mais: o País já vive gap. “Vários países implantaram a segunda geração de medidores e de tarifas inteligentes, enquanto no Brasil praticamente existe apenas tarifa volumétrica em BT.”  

Se seguirmos assim, o que acontece?  

“Os recursos de energia estão crescentemente dentro dos clientes mais rentáveis, que terão mais autonomia e as redes do futuro serão ‘mais leves ou distribuídas’ e devotadas para a integração destes recursos em vez de prover apenas o suprimento exclusivo.” 

Enfim, Boccuzzi lista a ‘lógica suicida’: “vale a pena continuar investindo em ‘ativos pesados e tradicionais’ em um mercado estagnado ou decrescente?” 

Leia também: E se a crise hídrica continuar e a economia retomar crescimento? Haverá energia?

“Canivete suiço do setor de energia” 

Em sua participação, Raul Gutierrez, da Hitachi ABB Power Grid, destacou o Sistema de Armazenamento de Energia por bateria (BESS), considerado como “o canivete suiço do setor de energia.” 

Em resumo, o BESS contempla regulação de frequência, alta penetração de integração de renováveis, independência energética e carregamento rápido de EV, entre outros. Clique aqui para saber mais a respeito.  

Segundo ele, o BESS vivencia muitas experiências de implementação. A Colômbia, por exemplo, assinou o primeiro projeto, de 45 megawatts. “O Brasil pode se beneficiar e adaptar o sistema às suas necessidades.” 

“O BEES é ativo de transição energética”, resumiu.   

Depreciação não pode vir antes da amortização 

Para William Fernandes, da Landis+Gyr, é preciso muito embasamento em regulamentos técnicos para haja respaldo jurídico para a tecnologia.  

Segundo ele, o investimento em tecnologia de rede e de sensores, que entram na rede, não podem depreciar antes da amortização do aporte.” 

“É Importante o ‘casamento’ entre o tempo do ativo e o ciclo de renovação e até do software, que não pode ter tempo de vida menor.” 

Outro ponto: é preciso rede de comunicação que escale, que suporte aplicações massivas. “Para que tenha retorno investimento, a tecnologia de software tem que suportar vários números de medidores e sensores.”  

Regras de hoje são as mesmas  

O que se pode aproveitar das lições do passado para a modernização de redes? Para Mariélio Silva, diretor técnico da Nansen, há exemplos como leitores de pulso e soluções que chegaram hoje aos medidores.  

Mas alerta: “hoje estabelecemos as mesmas regras para produtos e soluções que vêm por aí. Será o mais adequado?” 

Ou seja: “não teria que deixar as regras mais abertas para se ter oportunidade para saírem dos detentores de tecnologias? O que nós, dentro da empresa, pensamos o que irá acontecer?” 

E dispara: “quando se estabelece regra, todos seguem. Onde fica a criatividade, o trabalho dos pesquisadores? Tudo fica tolhido.” 

Como abrir as regras que estabelecem o setor de forma que deem oportunidade para evoluções? “A evolução tecnológica sairia do produto, como é hoje, indo para softwares. Seria quebra de paradigma, porque seria preciso criar isso.” 

“Se fizermos a mudança de mindset, com a devida regulamentação, não seria a resposta até para saber quem vai pagar a conta?”  

Fontes de GD terão de ser flexíveis 

Conforme Adelson A. Pereira Jr., da S&C, “vivemos atualmente cenários no qual as tecnologias evoluem rapidamente e não conseguem acompanhar as demandas com resiliência.” 

Mais: “se pensarmos nas fontes de GD, terão de ser flexíveis para as demandas futuras. É preciso atuar e estar atento a este fato.” 

“Aqui cabe a todos nós acompanhar e aplicar as novas tecnologias, que devem ser mais simples e menos burocráticas.” 

E prossegue: “em nossa visão, o sistema pode e deve melhorar muito com inovação e tecnologia. Sem novas soluções, não se consegue evoluir.”  

Lembra, contudo, que não é preciso começar tudo do zero.  

“Hoje em dia, todos estamos conectados, dependentes de dispositivos conectados o tempo todo. Assim, tão importante quanto, é preciso atuar em interrupções de fornecimento de energia. Quais as novas tecnologias empregadas para melhor eficiência em segurança?”, questiona.  

Sistema distribuído traz mais segurança 

João Carlos Marques, da Schneider Electric, destaca que a “busca por segurança e por modicidade tarifária gerou tarifas caras, o que não é particularidade do Brasil.”  

Diz que “sistema cada vez mais distribuído traz mais segurança ante modelo tradicional de investimento.” 

Em sua opinião, os softwares estão disponíveis, cada vez mais potentes, “e quando se busca cenário eficiente, de ganha-ganha entre diferentes atores, consumidores A e B, novos atores, quando se busca eficiência nesse sentido o benefício é grande para todos.” 

Em síntese, diz que a tecnologia não é problema, mas solução.  

“Talvez devemos acelerar para buscar o mindset da eficiência, e não da segurança. Porque ele trará mais segurança.” 

Implantar tecnologia não exige tanto investimento  

Ronaldo Ferreira de Sousa, da Siemens, lembra que as lições dos últimos 20 anos são muitas em termos de aproveitamento. Cita a reestruturação do setor como um todo e a Aneel, que basicamente dá o norte de como se proceder para as melhorias do setor.  

“Mas a visão é de curto prazo”, afirma. Se pegar o mercado brasileiro, quando houve a abertura começou-se com os grandes consumidores. E hoje o mercado livre, por exemplo, funciona de maneira correta. E identifica de dois anos para cá uma série de tecnologias aplicadas pelo investidor.  

A grande evolução com o mercado livre atende os grandes consumidores, que ele indica como grupo A. “Se olhar o grupo B, parcela considerável da ponta, não houve grande evolução.” 

Em resumo: esse mercado não aconteceu. “Por que? Hoje implantar tecnologia não exige tanto investimento”.  

Enfim, pede que “a maior contribuição é que o grupo B precisa ter maior foco, carinho, pelos reguladores.”