Especialistas indicam a lição de casa que o agro precisa fazer em nome da sustentabilidade

Mercado de carbono favorece o setor, que já empreende ações ESG, relatam participantes de webinar promovido pela FENASUCRO & AGROCANA TRENDS

Especialistas indicam a lição de casa que o agro precisa fazer em nome da sustentabilidade - webinar ESG
Crédito da imagem: Agência Brasil

Que o agronegócio é vital para a economia brasileira, isso não é novidade para ninguém. Basta ver o mais recente resultado da balança comercial, com dados de outubro, no qual o agro responde por 15% de todas as exportações do País (leia mais aqui). 

Quer outro robusto exemplo nessa linha? Nada menos do que 46% do açúcar exportável pelos países produtores é do Brasil, aponta o professor da USP Marcos Fava Neves.

Ademais, em termos de práticas ambientais, sociais e de governança, integrantes do conceito ESG (abreviação de Environment, Social e Governance), o agro também faz sua lição de casa. 

Ou seja: o setor investe em práticas preocupadas com critérios ambientais, sociais e com parâmetros de boa governança corporativa. 

“Temos uma avenida de oportunidades no agronegócio nos próximos anos, mas, para isso, precisamos ter sustentabilidade. É o nosso calcanhar de Aquiles, setor em que o Brasil é muito cobrado e criticado”, atesta Neves. 

E o que fazer a respeito? 

Foi para discutir este e outros temas  que a FENASUCRO & AGROCANA TRENDS promoveu em 28 de outubro webinar com o tema “A agenda ESG, a demanda por energia limpa e o agronegócio – Como associar questões estratégicas para o meio ambiente à demanda por alimentos e energia do mundo?

“Na verdade, trata-se de uma imersão”, resumiu Paulo Montabone, diretor da feira, sobre o evento online. 

Mediado por Marcos Fava Neves, o webinar reuniu especialistas como Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e um dos líderes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); Eduardo Bastos, head de sustentabilidade na Bayer Crop Science; Renato Zanetti, superintendente de Excelência Operacional da Tereos; e Cassiano Ávila, subsecretário de Infraestrutura da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado de São Paulo.

E quais as avaliações destes especialistas? 

É o que Energia Que Fala Com Você apresenta a seguir, com destaques de cada um deles: 

Webinar ESG
O webinar está disponível na íntegra no YouTube, acesse pelo botão ao final do texto

As avaliações de Paulo Artaxo

Emissões de gases de efeito estufa (GEEs): 

  • Aumentamos as emissões via desmate na Amazônia e elas também crescem no agro, responsável por 27% do total de GEEs emitidos pelo Brasil.
  • Mas tem solução, embora não trivial. Há iniciativas, como melhor manejo para fixar nitrogênio no solo, mas as emissões cresceram 9,5% em 2019, quando deveríamos estar reduzindo conforme o compromisso assumido no Acordo de Paris.
  • O Brasil precisa fazer a lição de casa, reduzir o desmate na Amazônia para zero, diminuir a dependência de energia hidrelétrica e não ficar dependente, investir em energias solar e eólica. Desta maneira, o país consegue reduzir emissões e vulnerabilidade das condições climáticas.

Como melhorar a imagem em sustentabilidade?

  • Não é só melhorar a imagem, que não é muito boa, mas será melhorada se ações concretas forem implementadas. 
  • Não é verdade quando dizem que o agro não tem nada a ver com o desmatamento da Amazônia. 70% das matas desmatadas são hoje áreas de pastagem e isso prova que há vinculação, sim, do agro. 
  • A primeira recomendação é não tapar os olhos. Não falar só das ações positivas quando, na verdade, 70% do desmate amazônico é ocupado pelo agro. 
  • Efetivamente, o agro poderia pressionar o governo para reduzir o desmatamento amazônico. 
  • É um tiro no pé no agro: muito da água que alimenta as pastagens e a produtividade agrícola do Brasil Central depende do fluxo de vapor de água que vem da Amazônia. O desmate prejudica o agro. 

Cassiano Ávila destaca Plano de Ação

Em sua participação, Cassiano Ávila, subsecretário de Infraestrutura da Secretaria estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura paulista, destaca o Plano de Ação 2050.

“Trata-se de agenda que incluirá eletrificação acelerada e combustíveis avançados. O Estado define, de forma objetiva, o norte que guiará suas ações.” 

Lembra que o governo não consegue fazer isso sozinho. Precisa do setor produtivo. 

“Para tanto, precisa ter segurança para fazer investimentos de forma sólida, estável, como toda cadeia produtiva quer. 

É um trabalho de longo prazo e às vezes somos cobrados por soluções mágicas.”

Como exportar inovação?

Esta dúvida persiste e, segundo ele, muito da resposta está na regulamentação. 

“Precisamos de regulamentação mais clara, que enumere o que deve ser feito, caminho a ser seguido para alcançar objetivo.”

Mais: “entendo que, como consequência, de segurança jurídica, o Estado não pode usar sua força para não honrar compromissos e entrar em rota de colisão com o resto do mundo.”

Ele defende estímulo ao mundo acadêmico e às pequenas empresas. “País tem que se tornar referência. O que ocorreu com as vacinas, na pandemia, mostra isso.” 

“Precisamos de segurança institucional, jurídica, e o governo paulista trabalha em projeto para estimular a produção verde.”

Exemplos: renovação de equipamentos menos poluidores, mais modernos, que, com incentivo do Estado, saem mais barato. “E compensar isso com regime tributário mais adequado.”

As observações de Renato Zanetti

Economia circular

  • Sustentabilidade está no DNA do setor. Mas há também a economia circular, jornada na qual somos protagonistas.
  • Historicamente, o setor já usa resíduos do processo industrial (cinza, vinhaça e torta) e da agrícola e, atualmente, tem avançado em temas. Exemplos: aplicação dos resíduos de forma mais eficiente, com a compostagem mesmo misturando com outras culturas, como a avícola, possibilitando substituir fertilizantes minerais. 
  • E os coprodutos: um deles, muito falado, é o biogás via vinhaça e torta. Em 2022 a Tereos deverá começar a operar comercialmente via biorreator de produção de biometano, com foco em energia e substituição do diesel pelo biometano. Isso vai gerar mais sustentabilidade para nosso negócio e descarbonização. 
  • Em coprodutos, há também a levedura seca, antes descartada no processo de etanol, e virou fonte protéica animal de alto valor agregado. 
  • O 2G via uso da palha, tratamento e compressão de CO2 fruto da produção de etanol. São exemplos latentes que têm a ver. 

Conexão de iniciativas

  • Acreditamos muito no sustentável com o econômico. Esferas ESG precisam também ser economicamente sustentáveis. 

Potencial para modificar a matriz energética

  • Certamente o setor de bioenergia tem potencial de modificar a matriz energética, seja pelo etanol, eletricidade, biogás, biometano, energia verde via biometano. 
  • Aqui, temos que fazer nosso papel. Buscar essa transformação. 
  • O mundo precisa de nossa energia. O programa de Estado RenovaBio está aí para isso. Na Tereos, colocamos o programa, essa frente de discussões, e, além dele, há outras iniciativas. Agregar certificações à geração de energia a ser colocada no mercado. 

Cana vive bom momento? 

  • O momento é positivo,há nova fronteira de investimentos (biometano etc). Perspectivas são boas. Temos ouro verde no campo que dá para extrair muito valor. 
  • A ver o que irá acontecer no cenário político-econômico, mas as perspectivas para o setor são boas. Setor tem sido reconhecido como transformado em matriz energética e em ESG. 
  • Teremos de 2 a 3 anos de boas histórias para contar. 

Avaliações de Eduardo Bastos

A questão da sustentabilidade

  • Sustentabilidade é só meio ambiente? Como em ambiente de crise, como incentivar ações sustentáveis?
  • Nesta questão da sustentabilidade, falta, por exemplo, falar na ponta, que é o supermercado. 
  • O primeiro ponto é que, sim, a sustentabilidade tem ganhado importância cada vez maior. Sustentabilidade, para muita gente, virou ESG. Agora ficou mais importante, saiu de agenda tática, de área, para ESG, que é de presidente de empresas, de países. 

Questão econômica 

  • Quando vira ESG, muita gente diz que acabou, que agora é econômico. Sim, é além de ambiental. Fala-se muito em clima, carbono, chuva e o próximo passo da agenda é carbono. Terá discussão por mais 5 anos e o pagamento de serviços ambientais (PSA). O agro não produz só carbono, mas a água. Mas carbono agora tem mercado, oportunidade.
  • Só o agro no Brasil tem potência de reduzir 100 milhões de toneladas de carbono. Se for a US $10, falamos de US $10 bilhões. Preço tem tendência de aumentar e, assim, movimentar mais. 
  • Empregos: potencial de gerar 8 milhões de vagas, mesmo em crise, ou por conta dela. Até abril, era pandemia. Agora é clima, daí a relação positiva de empregos via ESG.

Tudo com hipertransparência

  • Tema mais novo, a governança pressupõe políticas internas, que todos saibam as metas ESG de suas empresas. Assim como sabe orçamento, metas financeiras, precisa saber a métrica de outras frentes ESG. E tudo com hipertransparência, até para evitar falar mal, errado. 
  • E tem uma agenda social imensa, de pequenos agricultores e de gênero – de 50% de mulheres na liderança, por exemplo. Como está, só em 20.100 teremos isso de 50% de mulheres na liderança.  

Projeto de sustentabilidade

  • O projeto de carbono da Bayer é um sucesso. Começou no Brasil com 414 produtores em 15 estados em 2020. 
  • Avançamos para 1,8 mil produtores. É um acordo, ninguém foi obrigado. 
  • E, dentro do projeto, começamos com a Embrapa, líder, e, neste ano, 8 universidades e 2 fundações (Fed Brasileira de Plantio Direto) e a Fundação ABC. 
  • É agenda agregadora. Começou no Brasil e está na Argentina e em seis países da Europa. 
  • O agro tem condições de capturar 25% das emissões globais. Tem como capturar e estocar. 

O Webinar ESG está disponível na íntegra no YouTube da Fenasucro & Agrocana: